
Detroit fotografada de Windsor - Canadá
Só tinha o que comemorar chegando ao fim da jornada profissional nos Estados Unidos. Cumprira com poucos baixos minha estada naquele país que aprendi a admirar. O último compromisso fora em Detroit, porque me convidara a visitar a Chrysler e que, na verdade, atendera ao meu “convite” com alguma relutância; optara por conhecer sua linha de montagem toda automatizada. Para mim, seria importante essa tecnologia algo cultural, porque havia trabalhado para essa empresa no ABC e a linha de montagem era longa, cheia de “estações” de trabalho até que, na outra ponta, o carro saia pronto.
No hotel, que transpirava luxo por todos os lados (não me lembro se no Westin), no último jantar subira até o teto no restaurante giratório, envidraçado, sofisticado, que permitia ver a cidade por todos os ângulos.
Nos dois dias de feriado que procederam à visita, visitara rapidamente Toronto, passando antes pela pequena London. Naquele dia e meio achei o Canadá mais lento, talvez exalando riqueza, expressão que ouvira no passado de um belga ao se referir ao seu próprio país.
Com uns dois amigos de última hora fizemos nossos pedidos e enquanto aguardávamos a comida, num copo imenso, foram servidos camarões temperados, brinde da casa.
Já meio cismado com frutos do mar porque havia anos assumira não comer carne de qualquer espécie, mas eram eles ainda uma forma de compor algum cardápio em situações especiais, comecei por comer camarões.

Num dado momento pergunto, apontando para alguns exemplares no meu prato:
- O que são estas linhas pretas aqui, encima dos camarões?
Um dos que ocupavam a mesa, me responde com ironia:
- São os intestininhos do bicho. Eles são os temperinhos do bicho.
Diziam que os camarões eram espécie de urubus minúsculos dos mares que se alimentavam de tudo o que apodrecia.
Meu estômago revirou, um assombroso sopro em forma de arroto exalou silencioso. A minha repulsão tornara-se impossível disfarçar.
Mal jantei, um macarrão temperado razoavelmente, apimentado. Seria a salvação, depois de comer por longo tempo pizzas adocicadas, fast food, catfish frito...
Os americanos não se alimentam bem, no dia-a-dia.
Até acho que o arroz e feijão constituem uma mistura alquímica.
Certa vez, em Veneza, anos depois, ao serem servidos frutos do mar, minha rejeição se acentuou ao ver camarões misturados com bichos que pareciam minhocas. Argh.
A última vez, aqui em casa, muito bem preparado, arrisquei comer camarão no coco e arroz, algo como uma especiaria. Pois, bem. À noitinha entrei num processo febril bravo que me deixou dois dias de molho.
E assim, hoje, todo camarão à minha frente me faz ver aquelas linhas pretas às quais fui apresentado e degustei em Detroit com um vinho branco da melhor qualidade.
Não será preciso dizer que os frutos do mar foram também abolidos do meu cardápio. Para sempre.












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