27/02/2009

SEM RELIGIÃO. Aqueles que acreditam mas não professam



Ficar por horas dentro de um avião constitui-se, para mim, um sacrifício imenso de desconforto, um exercício penoso.
Para realmente esquecer meus timbres claustrofóbicos, numa viagem, decidi que teria que ler um pequeno livro, mais precisamente o Bhagavad Gîtâ (pronúncia: bagavad guitá, que significa “sublime canção”).
Trata-se, segundo sua introdução, de um dos livros mais importantes do mundo, prezado pelos budistas e venerado como escritura sagrada pelos brâmanes (sacerdotes indianos) que, “freqüentemente, o citam como autoridade no que se refere à religião hindu.”
O livrinho relata os ensinos da divindade (Krishna) ao príncipe Arjuna, merecedor desses ensinamentos por causa de sua nobre alma.
A busca é pela santidade, considerando que,
“Aquele que se separou dos efeitos dos desejos, e abandonou os prazeres da carne, tanto em pensamento como em ação, caminha diretamente para a Paz. Quem deixou atrás de si o orgulho, a vanglória e o egoísmo caminha diretamente para a Bem-aventurança”.
E a bem-aventurança pode significar a desnecessidade de renascer na terra, “neste lugar de sofrimentos e limitações”, porque aqueles que se uniram ao Altíssimo, “já atingiram a esfera da Perfeita Sabedoria, Suprema Ventura e Vida imperecível.”
Esse diálogo entre a Divindade e Arjuna, é direto, sem intermediários, sem guias, nem gurus: “desiste de todas as obrigações religiosas, e toma-me como teu único refúgio. Eu te libertarei de todas as dificuldades. Não te aflijas.”
Mas, há esta ressalva:
“Há muitos que não descobriram esta verdade por si mesmos e em si mesmos, mas ouviram a doutrina e os ensinos de outros, e respeitam-nos; também estes, agindo de acordo com a doutrina, vencem a morte pela força da fé”.
Com esses princípios claros na mente, desembarco em Lisboa.
Não demoraria muito, e partiria nos rumos de Évora. Tudo em Portugal é perto. Duas horas de ônibus e se chega a essa cidade cercada por muralhas construídas pelos romanos. Rumo à Igreja de São Francisco. Na sua entrada, numa pequena placa, há uma mensagem atribuída a Santa Tereza de Jesus:
“Nada te perturbe,
Nada te espante
Tudo passa
Deus não muda e a paciência tudo alcança
Quem Deus tem, nada lhe falta
Só Deus basta”
Ainda vivas as mensagens contidas no Bhagavad Gîtâ, achei bastante interessante essa pequena mensagem, porque se “só Deus basta”, o caminho seria, com paciência, que “tudo alcança”, estabelecer um diálogo direto com Ele. Um diálogo franco como relatado no Bhagavad Gîtâ.
Mas, depois de conhecer a sacristia da Igreja mantendo impressões agradáveis, aquelas levezas todas, voltei para o chão duro. Um impacto inesperado contrapondo-se a essas vibrações experimentadas e eis de volta a réstia de uma angústia.
Do lado da Igreja de São Francisco, há a Capela dos Ossos, construída por franciscanos no século XVI na qual, nas paredes, estão incrustados, cobrindo-as totalmente, cerca de cinco mil crânios humanos e, nos pilares, até mesmo ossos de membros inferiores.
Todos esses crânios e ossos foram obtidos em cemitérios precários que existiam ao lado das igrejas. E no pórtico, no alto, se lê: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.”
Claro que tal capela tem por objetivo lembrar a fragilidade do ser humano, concitando-o à humildade, a reflexão, sacudindo-o de sua soberba e da ganância.
Todos esses simbolismos e mensagens das duas capelas têm um sentido: o de chamar a todos à transcendência da alma, da vida e ... da morte.
Saí da Capela dos Ossos não transtornado pelos crânios e ossos, mas por uma indagação que havia relevado até então.
O Bhagavad Gîtâ traz lições de como não voltar a reencarnar neste “lugar de sofrimentos” o que pode se dar com a prática da virtude e a busca de Deus na própria interioridade mas não dá pistas do porquê encarnamos.
Por que temos que estar “neste lugar de sofrimentos e limitações”, seguir uma trilha? Por que certos episódios da vida eclodem sem o nosso controle? Ou são eles eventos insondáveis decorrentes da lei da causa e efeito a que nos propusemos a enfrentar? Ademais, neste mundo, são notórios os semelhantes que transmitem virtudes elevadas e ao seu lado outros que parecem viver num estágio pouco acima da barbárie. Os pós-graduados ao lado dos primitivos, dos penitentes.
E aí surge aquela indagação tão antiga: qual o sentido da vida?
Que mundo é este? E muitos podem até afirmar: “sou feliz neste mundo, pratico virtudes, mas não a ponto de renunciar a tudo em busca da “Vida imperecível.”
Por que terei que fazê-lo?
Há alguns anos, o saudoso papa João Paulo II referira-se ao crescente fenômeno do denominado agnosticismo na Europa, acentuando “que a verdadeira fé foi substituída por “um sentimento vago e pouco comprometido que equivale a um ateísmo prático”.
Antes uma explicação sobre o “agnosticismo”, baseado na Wikepédia que bem sintetiza o significado: o termo foi cunhado pelo professor Thomas Henry Huxley, “avô paterno do escritor Aldous Huxley (autor de Admirável Mundo Novo) numa reunião da Sociedade Metafísica, em 1876”. O agnóstico nega tanto o Ateísmo como o Teísmo porque “acredita que a questão da existência ou não de um poder superior (Deus) não foi nem nunca será resolvida(...) e que nós não sabemos nem poderemos saber se um deus existe.” Há pouco (2012) o IBGE, revelava que o brasileiro abandonava a religião mas mantinha a fé. O porcentual encontrado para esses que assim se classificaram, "sem religião" é de 8%
A mudança de religião ou o afastamento de qualquer delas pode ter muitas motivações pessoais, mas até mesmo de ordem filosófica, como o da liberdade de pensar, de se autoquestionar sem a influência de dogmas, de religiosos, de doutrinas.
E isso pode ter como causa o desencanto casual com religiões que à exaustão repetem ensinamentos bíblicos literais que não satisfazem nestes tempos de atribulações redobradas ou se desiludem com religiões-negócio, nas quais Deus é mero coadjuvante. Os tempos são o da informação.
E há a falta de respostas nesses mistérios que permeiam a vida, quando pensada. O seu sentido, a partir do nascimento ou dos nascimentos, para os que acreditam na reencarnação.
Com essas indagações muito optam, então, por tentarem um diálogo direto com a Divindade (“Quem Deus tem, nada lhe falta; Só Deus basta”).
Assim esse “contato direto” entre o fiel e a Divindade não é algo novo. Há que lembrar as proposições de Krisnamurti, cujas idéias tiveram repercussão por décadas nesses círculos que meditam sobre as coisas transcendentes da existência.
Antes, algumas informações de quem foi ele: místico-filósofo, nascido na Índia no século 19, rejeitou sua iminente condição de guru como planejava a Sociedade Teosófica que o educara e o iniciara para essa atribuição. Disse ele:
“A mente religiosa difere completamente da mente que crê na religião. Não podeis ser religiosos e ao mesmo tempo hinduístas, muçulmanos, cristãos e budistas.” (cf. Francisco Ayres, “Krisnamurti” – Ed. Soma/1984).
Bom que se esclareça que na nossa visão, Krisnamurti deixa muitas de suas proposições sem resposta.
No meio científico, fiquemos com frases expressivas de Stephen W. Hawking, extraídas do seu livro “Uma Breve História do Tempo”, na sua conclusão ao suscitar o debate “sobre a questão de por que nós e o universo existimos”:
“Se encontrarmos a resposta para isto teremos o triunfo definitivo da razão humana: porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus.” Não deixa de indagar porém: “Mas, se realmente o universo é completamente autocontido, sem limites ou margem, não teria havido começo, nem haverá fim; ele seria simplesmente”. E pergunta: “Que papel estaria reservado ao criador?”
Como aceitar a imensidão do universo em expansão e negar a existência de alguma inteligência Superior que a tudo controla? O papa Bento XVI, recentemente zombou dessa noção científica de um “cosmo matematicamente ordenado”, porque “sem Deus, as contas não fecham para o homem, para o mundo e o universo”.
A questão toda está em imaginar um dia compreender a mente de Deus. Esse Deus-mistério que nos leva a esse nível de perplexidade e ininteligências. Insondável.
Bem, vamos encerrando. Esse “caldo de cultura” deve ser a causa do aumento daqueles que se declaram “sem religião”. Mantém a fé, meditam e podem até partir para a contemplação – “meditação profunda”, segundo o Aurélio - como já sugeriu o mesmo Papa Bento XVI.
Mas, buscando em si mesmos a sua religiosidade. No silêncio de sua interioridade, na sua intuição. E na sua Paz.

25/02/2009

O DESERTO E O MAR (Reflexões sobre a Paz)




Roberto fora um executivo de empresa multinacional que um dia "cansado de ser conduzido pela vida" decidiu abandonar a carreira vitoriosa passando a levar vida modesta no litoral paulista, embora desfrutasse de excelente situação financeira.
O relato a seguir proveio de uma palestra que ministrou há alguns anos, quando deu a conhecer as transformações havidas em sua vida, a partir dessa sua condição de pescador eventual.
A nova forma de viver adotada por ele tinha lá seus momentos de tédio, a despeito de ser ávido ledor e dispor de enorme disposição para apreciar o mar, as paisagens que descobria percorrendo todo o litoral paulista avançando para o norte com seu barco.
Certa feita, só, saiu pelo mar adentro para pescar. O sol do meio-dia estava muito quente, batendo forte em seu rosto. Sentia certo desconforto com aquele calor intenso, o balanço do barco lhe provocava enjoo, por isso meio arrependido por estar ali, naquele momento. Desviou-se para os intensos movimentos na vara de pesca presa numa saliência externa da cabina.
Um peixe de cerca de 60 centímetros mordera o anzol. Era o primeiro do dia. Sem muita dificuldade, o peixe foi trazido para o barco debatendo-se violentamente relutando à morte certa, posto num chão quente sob sol escaldante.
O peixe ferido querendo a vida, Roberto perturbado pelo sol intenso sobre sua cabeça. Uma leve tontura o prostrara. O enjoo se agravava, ele que superara esse sintoma havia muito depois do vexame numa excursão de alto nível num barco moderno: mar agitado, seu estômago não resistiu, resultando no vômito de vento que se prolongou por tempo suficiente para chamar atenção de outros executivos, obrigado a ouvir piadas. Um executivo português: “Está a vomitar seus pecados”.
Fixando-se no movimento do peixe, sua cabeça começou a rodar. Parecia estar próximo de um desmaio. Com a sensação de estar também preso no anzol? Olhou para o mar e não o viu claramente. Quanto mais procurava enxergá-lo mais ele se transformava num ... deserto. As ondas além transformavam-se em dunas e a leve brisa em tempestade de areia violenta. No meio dela, parecia ver vultos humanos mal formados em movimentos apressados, parecendo acenar para ele. Em vias de perder o sentido, recostou-se na cabine do barco. O peixe debatia-se bravamente ao sol, mas dava agora sinais de sua morte iminente. Roberto voltou-se para ele como pôde, com cuidado livrou-o do anzol e o devolveu ao mar.
- Quem sabe ainda sobreviva, pensou confuso, com o estômago na boca. Veio-lhe a frase de Tolstoi em “Ana Karenina” que jamais esquecera: “Gostava de pescar a linha e parecia envaidecer-se com o fato de apreciar um entretenimento tão estúpido.”
Permanecendo quieto na cabina, bebendo água gelada, molhando a testa suada com ela, foi se recompondo. Uma hora depois, mais disposto, voltou ao controle do barco, retornando à terra, embora ainda tonto com o mar e o deserto que eclodira em sua mente.
A noite fora tranquila. Lá pelas tantas da madrugada, levantou-se e permaneceu na varanda ouvindo o marulho, recebendo no rosto, em cheio, a brisa refrescante de uma noite muito quente.
Claro que a "miragem" do deserto lhe martelava a cabeça. Tudo bem que fora um mal-estar provocado pelo calor, pelo enjoo, pelo sol. Mas, porque a imagem do deserto, suas dunas ampliadas de ondas baixas e a tempestade de areia tão autênticas?
Passara, então, a fazer uma autocrítica. O que significava sua vida, desde que passara a residir no litoral, senão uma vida ociosa, mentalmente estéril, a caça predatória de peixes porque nem sempre os consumia? Afinal, não abominava a caça como esporte, a própria pesca esportiva, tão ridícula e as touradas?
A impressão que tivera então de si próprio é de que se encontrava num processo de decadência mental, porque vida interior ele não possuía nenhuma.
Em poucas palavras: o deserto que vira em sua quase insolação era rigorosamente ele próprio, sua alma clamando por mudanças. Voltou para dentro da sala confortável, entrou no pequeno escritório e consultou um mapa da África. Com o dedo "viajou" por todo o Deserto do Saara, começando pelo Atlântico Norte.
Lá estava o Marrocos e a cidade de Casablanca. Viajou mentalmente embarcando no filme do mesmo nome, que ajudou a celebrizá-la, Ingrid Bergman linda, jovem. Em seus ouvidos, a música do filme soava harmoniosa ("As time goes bye"), cantada por "Sam", até que "Rick" (Humphrey Bogart) melancólico o interrompeu. E nesse momento reencontrou sua ex-amada. Quem dera houvesse um bar como aquele, o "Rick’s Café Americain" do filme!
Decidira que em poucos dias viajaria para o Marrocos, não para encontrar o "Rick’s Café", uma figura de ficção, mas para chegar às margens do Deserto do Saara por aquele país. Viajaria de camelo, conheceria alguns oásis e a vida que neles existia.
Quem sabe, conforme ironicamente pensava, visse o mar no deserto, da mesma forma como vira o deserto no mar. Dois meses depois, viajou para o Marrocos, rumando logo para Casablanca, a principal cidade do país, moderna, sem perder, mesmo com a forte influência européia, o timbre da cultura árabe. Permaneceu algum tempo observando a Praça das Nações Unidas que dá a Casablanca aquele aspecto de cidade desenvolvida. Dali partem diversas avenidas rumando para pontos diferentes da cidade e para os seus bairros. O cenário do filme jamais existira. Talvez nos bairros periféricos pobres afastados do centro da cidade poderia haver alguma semelhança. Só isso. Uma breve troca de impressões no café do aeroporto de Casablanca com um turista chileno que voltava para o seu país, impressionado com o que vira em sua excursão ao Marrocos lhe alertara da possível decepção.
Dois dias depois viajou para a Tunísia, um país pequeno, pouco conhecido, mas com monumentos excepcionais. Gostou de Tunis. Comunicando-se em inglês, nada fácil num país que fala árabe e francês, conseguiu sobreviver com os resquícios da língua que sempre odiara nos tempos da escola. Hospedou-se num hotel quatro estrelas, simples e confortável com talento de três, porém
Uma tarde, desorientado e cansado de ouvir o som de múltiplos idiomas especialmente o árabe e o francês, parando para se recompor ao lado duma loja de tapetes num dos centros comerciais de Tunis, com muitas ruelas e dezenas de lojas, foi abordado por um dos comerciantes que falou em francês e depois um espanhol rudimentar, língua falada nesses centros comerciais, oferecendo-lhe seus artigos. Ao saber que era o visitante, brasileiro, quis saber tudo do país, do futebol ao Carnaval e se era a festa pagã tão imoral como falavam e que vira algumas fotos numa revista. Cheio de “mulher pelada”. Roberto explicara que se tratava dum acontecimento com forte apelo turístico e que os abusos vinham diminuindo. O carnaval de rua era sobretudo uma festa do povo na qual se misturavam ricos e pobres que se deslumbravam com o luxo das fantasias e que as escolas eram constituídas de gente simples e sofrida das favelas, na maioria. Eram seus dias de extravasar e esquecer as dificuldades. Mas, que o Brasil não era só carnaval e futebol, havia cidades de grande projeção, como São Paulo.
Antes de sair, comentara que no dia seguinte, porque nada havia planejado, tentaria fazer uma breve excursão pelo deserto, fora do circuito turístico, passando algumas noites na sua imensidão. O comerciante com muita simpatia, de pronto apontou para um homem próximo, de pé, do lado oposto da galeria, numa loja de artesanato, alto, pele morena queimada de sol, rosto fino, barba trabalhada. Roberto percebeu que ele os observava. O comerciante chamou-o e ele se aproximou.
- Ele é um excelente guia, você aprenderá muito com ele se quiser que ele o acompanhe. Isso se o senhor abrir mão do luxo. Pode confiar, ele organizará tudo. Ele conhece tudo. Ele speak English.
Ao encará-lo percebeu que seus olhos transmitiam algo diferente, talvez serenidade. Comunicava-se num inglês razoável. Quis saber Roberto de onde era, de que região, se tunisiano o seu possível guia, ele desconversou apenas fazendo um gesto girando a mão direita apontando o indicador para o alto, dando um sentido de que poderia ser daquela região. Revelara-se de poucas palavras.
Dois dias depois, preparado, com as informações precisas e a ajuda do guia taciturno aproximou-se do deserto do Saara enfrentando na viagem algo em torno de 800 quilômetros dentro de um jipão. Embora existindo opções mais modernas, ao adentrarem no deserto boa parte do trajeto foi vencido no dorso de camelos, esses animais admiráveis, mal humorados, nascidos para servir os habitantes e os visitantes do deserto.


Roberto passou a habitar uma tenda e lá, naquele ambiente tão precioso para os nativos, tão simples, convivendo com golfadas de vento forte e tempestades de areia, finíssima, começou a ter impressões do deserto, especialmente ouvindo o seu silêncio.
Numa noite fria do Saara depois de um dia de alta temperatura que o fizera suar em bicas, tivera a primeira sensação da imensidão do universo sem fim, sem começo, sem data, habitado no alto por milhões de corpos celestes. Como tudo aquilo poderia ser possível? Que forças administravam aquele universo cadenciado? Casualidades é que não poderiam ser. Um susto: sob aquela imensidão, tivera despertado, tão marcantemente, a consciência de sua mortalidade. Ou de sua imortalidade...
À medida que insistia em contemplar aquele paisagem, aquela formação de areia a perder de vista e especialmente o teto inatingível do deserto mais reforçava a idéia de sua fragilidade, de sua humilde condição humana. Com dificuldades de comunicação, tendo pouco contato com os demais habitantes, solitário, sentiu-se aliviado ao voltar, saindo do deserto com aquele seu guia que sempre estivera por perto e chegara para acompanhá-lo no retorno. Na viagem depois de um longo silêncio, já se aproximando de Tunis, Roberto comentou:
- Permanecer no deserto, no seu imenso silêncio e imensidão, fez-me mais humilde, mais resignado. Vou pensar muito no que vi e senti. A resposta seca de seu guia:
- O primeiro passo para a sabedoria, porque você se despoja da vaidade e da arrogância mundanas que para nada servem, só atrapalham aquilo que você parece estar buscando.
- Mas o que “parece” que eu estou buscando, explique-se?
O guia manteve-se em silêncio, olhando a frente pelo parabrisa do veículo, sem se voltar deu uma resposta enigmática:
- Creio que um oásis verdadeiro em sua vida onde você se prostrará, nem tanto o mar e sua brisa, nem tanto o deserto e sua quentura. Roberto ficara atônito com a resposta pela referência "ao mar", mas silenciou, até porque seu interlocutor fizera o mesmo. No dia em que Roberto se dispôs a voltar ao Brasil, esse seu guia, com a mesma atitude silenciosa despediu-se com alguma simpatia, falando em português, língua que desconhecia, uma única palavra: PAZ !
Por uma dessas coincidências inexplicáveis, o advogado, que já ouvira algo sobre o executivo que abandonara a carreira para viver de modo simples no litoral de São Paulo, ocioso para alguns, convidado por um amigo, num domingo de manhã, com relutância foi ouvir uma palestra da qual pouco sabia, apenas que se tratava de ex-diretor de multinacional que falaria de suas experiências e buscas interiores.
Num primeiro momento não ligara os pontos. Eis que era ele, o tal executivo, um sujeito alto, barba rente, grisalha, rosto escurecido pelo sol, atrás de uma mesa simples, numa pequena sala de sociedade de bairro, propondo-se a falar para não mais do que 30 pessoas, algumas humildes que nas fábricas em que fora diretor jamais dele se aproximariam. Seu semblante apagara aquela imagem altiva e mesmo arrogante que transmitia nas fotos estampados nos jornais e revistas de negócios de outros tempos.
Sua palestra fora até simples, enfatizando os aspectos ecológicos que cada um tinha o dever de se preocupar diante do enfraquecimento das potencialidades da Terra tal a devastação que se processava, o respeito aos animais que são seres vivos em evolução, a busca pela paz interior, meditar como forma de ampliar a consciência, melhorar como indivíduo e o próprio mundo.
Foi bastante didático. Fixou num tripé uma mapa da Europa e do norte da África que trouxera debaixo do braço e com uma varinha de bambu envernizada, parecendo parte de vara de pescar, explicou a localização do Marrocos e da Tunísia e circulou com o indicador todo o imenso deserto do Saara.
Encerrada a palestra, no momento das perguntas Roberto fora mais preciso nas suas idéias:
- O seu destaque à palavra paz, deixou-me na dúvida. Qual o significado que ela contém, até pelo fato de seu guia do deserto, ao se despedir, tê-la pronunciado em português.
- Porque a paz contem perdão e amor. Talvez seja o perdão a maior de todas as virtudes, porque pode significar a resignação, até mesmo uma renúncia, diante de uma ofensa ou de uma traição. Vejam que a traição é de tal ordem devastadora, que muitos traidores são tão célebres quanto os traídos ilustres. O perdão sepulta o ódio, o rancor e a vingança, que são forças destrutivas que nos levam a contrair dívidas à luz da balança universal. Ofensor pela sua ofensa e ofendido pela vingança, têm a mesma culpa que permanece registrada na alma de cada um para ser purgada no momento propício. Só o perdão ameniza a culpa do ofensor que pode se arrepender. Eis porque se constitui num gesto tão difícil de ser praticado. O perdão é manifestação de amor. Um chavão muito utilizado em campanhas ou algo assim é profundamente verdadeiro: o amor é construtivo, a antítese do egoísmo, da indiferença e do ódio. Ele pode significar um gesto, um sorriso, uma palavra de estímulo e até mesmo renúncias para ser oferecido em toda a sua plenitude aos semelhantes. Aí está a paz. Foi Cristo quem recomendou aos seus apóstolos: encontrando alguém digno na cidade, ao "entrardes na casa, saudai-a dizendo: Paz seja nesta casa". Vejam! PAZ como saudação cristã.
- O Sr. falou muito em contemplação, meditação, etc. Sei de religiosos que passam a vida meditando. Tal prática não significa uma posição inútil em relação ao mundo que precisa tanto de ações objetivas?
- O homem é muito poderoso pela força de seu pensamento. Há alguns semelhantes nossos que são de extremo brilhantismo e desvendam coisas maravilhosas. O pensamento é uma força poderosa. Formularei uma imagem talvez até já tenham ouvido algo semelhante: já não passaram os senhores nas proximidades de um local fétido e, no meio da deterioração dos elementos, uma flor aparece linda, exalando um perfume que todos aspiraram com prazer e alívio, amenizando a podridão em volta? Todos perguntam: como é possível isso? Pois bem. Esses religiosos, com esse tipo de vida que escolheram, propagando pensamentos de paz, amor, caridade e perdão isolados em suas celas longínquas, são como o perfume da flor a que me referi, expandindo pelo mundo. Muitos captam essas vibrações que permanecem em sintonia própria na nossa esfera mental e, por vezes, como se falassem à própria consciência, mudam repentinamente para melhor a atitude do receptor em relação ao semelhante. Muitos são os perfumes que melhoram o mundo. A oração do devoto pode surtir o mesmo efeito. E infelizmente, os sentimentos de ódio, imagens de ódio, também, mas em sentido contrário.
- Parece que, para buscar o autoconhecimento, é preciso ser rico. O Sr. fez uma viagem cara aos desertos. E para os que não têm dinheiro para essas viagens ?
- Li nalgum lugar uma fábula mais ou menos assim: o discípulo abordava seu mestre, um sábio, insistente, dizendo-lhe que queria conhecer a verdade. Certo dia, convidou o sábio o discípulo para irem a uma lagoa próxima na qual explicaria sobre a busca da verdade. Lá chegando, o sábio num gesto rápido levou a cabeça do discípulo para baixo da água deixando-o assim, por alguns instantes. Quando o discípulo se recompôs da surpresa, o mestre lhe perguntou: - O que você mais desejava quando estava com a cabeça sob a água? Ar, respirar, respirar, respondeu o discípulo ainda atordoado. Com a mesma intensidade de respirar deverá partir em busca da verdade, ensinou-lhe o mestre. Claro que esse tipo de "busca da verdade" escapa de nossa vontade imediata. Uma forma alternativa de conseguir alguma maturidade no caminho do conhecimento são exatamente as viagens aos locais conhecidos como sagrados ou julgados inspiradores. Pelas suas vibrações ou por nossa própria receptividade mental em lá estar, podem nos inspirar e nos abrir frestas importantes no nosso auto-conhecimento. Mas, mesmo esse recurso é limitado. O aspirante prega a iluminação interior, o encontro da paz, mas num dado momento ele próprio não avança. As revelações interiores estancam. A partir daí, com todo o cuidado no rumo a seguir, talvez seja necessário buscá-la com a mesma intensidade que tinha o discípulo em respirar quando com a cabeça sob as águas do lago. E essa busca dispensa viagens exteriores, só interiores.
- O Senhor foi um homem poderoso e é rico. Por que agora assume posição tão modesta, vindo falar para pessoas tão simplórias, operários e operárias como nós?
- Qual a primeira ou a principal das virtudes do ser humano? Amor ao próximo? A honestidade? A lealdade? A amizade? O altruísmo? Se fosse feita essa pergunta a qualquer dos senhores, talvez uma dessas ou todas as mencionadas fossem de pronto citadas. Mas, e a modéstia? Não seria, também, uma destacada virtude? A própria palavra vibra simplória: MODÉSTIA. Ela pode ser usada como algo de pouca expressão: "aquela casa é modesta". Mas, a sua existência como virtude humana, parece agregar um pouco de todas as outras: o amor ao próximo, porque a modéstia respeita o semelhante, a honestidade, porque a modéstia se encaminha para o desprendimento de certos valores normalmente aproveitados pela soberba, a lealdade e a amizade, porque a modéstia tende a não reconhecer a perfídia e defende o altruísmo, porque ela vê pelos seus próprios olhos um semelhante que pode necessitar de ajuda, sem esperar reconhecimento. Tanto que o dicionário a define utilizando palavras como "simplicidade", "reserva", "pudor", "decência", "gravidade", "compostura". Ela contém um pouco de todas as outras virtudes ou tem afinidades com elas. Eis porque parece difícil ser-se modesto sempre, desprendido. Nos textos filosóficos a modéstia ocupa lugar especial. Assim, Jesus Cristo, no "Sermão da Montanha", na versão de São Mateus (5, 3), "abrindo a boca" disse: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus." Costuma ser aceito como correto significado para "pobres de espírito", os humildes. No "O Evangelho Segundo o Espiritismo" de Allan Kardec: "Por pobres de espírito, entretanto, Jesus não entende os tolos, mas os humildes, e diz que o Reino dos Céus é destes e não dos orgulhosos." Um dos significados de "humildade", no mesmo dicionário, é exatamente a modéstia. Mas, muitas vezes aquele humilde, desprovido de bens, não é necessariamente modesto, mas revoltado, amargo. Pode até ser compreensível esse estado destrutivo pela sua existência dura. A modéstia contempla, também, certa serenidade. Daí ser uma virtude tão excepcional. No "I Ching – O Livro das Mutações", um livro de conhecimento da antiga China, surgido "no período anterior à dinastia Chou (1.150-249 a. C.)", na tradução do sinólogo alemão Richard Wilhelm, o hexagrama 15 denominado "modéstia", tem posição destacada. Um trecho: "O destino dos homens segue leis imutáveis que têm de ser cumpridas. Mas o homem tem o poder de moldar seu destino, na medida em que sua conduta o expõe à influência de forças benéficas ou destrutivas. Quando um homem está numa posição elevada e é modesto, ele brilha com a luz da sabedoria. Quando ele está numa posição inferior e é modesto, não pode ser ignorado". Essa é a modéstia que me empolga. Aquela que, em vez de enfraquecer, fortalece. Que não pode ser ignorada, porque sobretudo corajosa, um paradigma que às vezes incomoda os circunstantes. Ela é, pois, um referencial. E continuou, depois de um gole de água:
- Mas, o que parece certo é que a soberba é mais agressiva, mais ambiciosa, assustadora e predomina no mundo. Eu sei disso porque convivi nesse mundo de competição e posso dizer que combati a soberba com a soberba. Sendo a soberba uma não virtude ela tende a manter as desigualdades subestimando ou minimizando as virtudes do respeito ao próximo, da honestidade, da lealdade, do altruísmo. A modéstia contrapõe-se à arrogância e à violência. Proponho, pois, um mundo "modesto"? Uma utopia? Trazer o céu para a terra? Não é bem isso. Seria uma impossibilidade. Sabemos que nosso mundo é naturalmente o mundo das desigualdades. Com ela, a modéstia, cultivada numa permanente autocrítica do indivíduo, possivelmente fizéssemos o mundo apenas um pouco menos desigual, um pouco menos doente. Com mais amor, mais amizade, mais lealdade, mais altruísmo.
Depois de uma pausa, olhando fixamente para seus ouvintes, em cada rosto, solenemente:
- Mas, não pensem os senhores que cheguei a esse nível de "modéstia". O que acabei de lhes relatar é apenas uma aspiração pessoal que tenho em mente. Não sei se chegarei um dia a tanto.
Essa foi a última resposta que Roberto deu. Acenou para todos e exclamou: Paz! Ao sair foi rodeado pelos seus ouvintes, recebendo-os com um sorriso e apertos de mão.