12/04/2014

SOBRE FLORES E IMPRESSÕES IMPRECISAS E NEM TANTO

Nesta crônica falo de uma flor (Chanana) da beleza das crianças (que depois crescem!), trecho da “Onda Verde” obra de Monteiro Lobato e o Comer Carne numa visão da comunicação entre os animais e a sua alma.

SOU A (XA) CHANANA
Sou semeada pelo vento

Floresço em espaços pequenos

Nas frestas das calçadas e guias

Nos terrenos baldios e mal cuidados

De repente, estou em todos os cantos

Minhas flores atraem abelhas

Minhas folhas têm propriedades medicinais

Sob o sol, sob a chuva

Protejam-me, cuidem de minha fragilidade

Sou a (xa) chanana, a flor-guarujá, tantos nomes.

Sou a bela, sou a humildade.



FRASES QUE NÃO CALAM
Há muito, estou numa pizzaria de São Caetano do Sul – o velho Bar Brasil, ainda lá está? – e espero a minha encomenda. Comigo um negrão meio armário, no balcão, como uma cerveja já na meia garrafa.

Crianças entre seus quatro ou cinco anos fazem aqueles ruídos muito próprios, um saltita, o outro grita, e outros ainda falam frases desconexas que só eles entendem. Aquelas vozinhas.

Digo para o meu amigo:

- Olha que beleza essa reunião!

E ele me responde não sem um timbre de ironia:

- São lindos, mesmo, pena que cresçam...e fiquem que nem [tal qual] nós.

Quietamente concordei pelos grilos que me assediavam...


ONDA VERDE” TRECHO REVELADOR DE MONTEIRO LOBATO
Em 1920 Monteiro Lobato escreveu o livro “Onda Verde”. Faz ele referência ao plantio do café no Estado de São Paulo e o modo como o "mataréu virgem" foi derribado para que florescessem os cafezais:

Rasgara-o a facão o bandeirante antigo, por meio de picadas; o bandeirante moderno, machado ao ombro e facho incendiário na mão [sempre o fogo!] vinha agora não penetrá-lo mas destruí-lo.

É a “alma fria do paulista”, como se referiu Lobato, devastando a mata para o plantio dos cafezais, “árvore que dá ouro”:

Para ver estadeada (ostentando) ante os olhos a sua beleza – coisa nova no mundo e criação genuinamente local – derrubou, roçou e queimou a maravilhosa vestimenta verde do oásis. Desfez em decênios a obra prima que a natureza vinha compondo desde a infância da terra.

Confessemos, um espetáculo vale outro. (!)

Nada mais soberbo - e nada desculpa tanto o orgulho paulista – do que o mar de cafeeiros em linha, postos em substituição da floresta nativa.

A devastação das matas em São Paulo para garantia do “orgulho paulista” se fez não só a poder do machado, mas do fogo, nesse processo antiecológico já muito antigo. Hoje, no Estado, há outra lavoura “estéril”, a cana de açúcar.

E raras árvores no entorno dessas plantações como tênue [ou nenhuma] compensação.

Mas, com a quebra das matas, essas lavouras hoje cobram, na sua parcela de responsabilidade a preocupante mudança climática [a quentura do clima] que vemos crescer no dia a dia e começando a afetar a vida de todos.

Hoje, na mesma linha, as imensas áreas de plantio de soja que também derrubaram florestas, mais os pastos, o gado.

É a receita para a catástrofe que vem sendo fermentada por esses cegos mentais: os orgulhosos, não só paulistas.



O COMER CARNE
No “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec à pergunta 594, sobre a linguagem dos animais, a resposta do espírito:

Se pensais numa linguagem formada por palavras e sílabas, não; mas num meio de se comunicar entre si, sim. Eles dizem uns aos outros muito mais coisas que podeis imaginar, mas sua linguagem, assim como suas ideias, são limitadas às suas necessidades.

Fico meditando no imenso sofrimento que se dá na comunicação entre os animais na hora da crueldade e do abate naquele ambiente medonho dos matadouros.
Mas, ainda não tenho uma solução 'psíquica' para a imensa procriação desses animais brutalizados nos matadouros ainda que incentivada [nesses pastos imensos] para o lucro, antes de tudo.
O livro também se refere à alma dos animais (pergunta 598) e se conserva ela, a alma, a individualidade e a consciência de si mesma, após a morte:

Sua individualidade, sim, mas não a consciência de seu eu. A vida inteligente permanece em estado latente.

A despeito da alma dos animais o consumo de carne deve se dar “segundo o que exige seu organismo” (do homem), porque

(...) Em sua constituição física, a carne nutre a carne, do contrário o homem perece. A lei da conservação torna um dever, para o homem, manter as energias e a saúde para o cumprimento da lei do trabalho. (Pergunta 723).

Mas, ali está a ressalva, o alimento “segundo o que exige seu organismo”.

E o organismo do homem precisa da carne?

Hoje são muitos os que negam. E não a comem.

No livro “Conceito Rosacruz do Cosmos” de Max Heinde, esse autor místico afirma que a dieta vegetariana exige menos energia para ser assimilada pelo organismo e assim,

Por tal razão a energia obtida de uma dieta vegetariana ou de frutas é muito mais duradoura do que a derivada de uma dieta de carne, além de permitir comer-se com menos frequência.

O Livro dos Espíritos” reconhece a existência da alma dos animais. Na obra Heindel ao comer carne ele assim se refere à alma do animal abatido:

(...) Há uma alma celular individual, que é compenetrada pelas paixões e desejos do animal. É preciso uma energia considerável primeiro para dominá-la, depois para assimilá-la, e ainda assim não se incorpora totalmente ao sistema do corpo... o que não se dá com os vegetais.

Paixões e desejos do animal: com o poder de comunicação e sentimento entre eles quais toxinas do sofrimento, da dor e da morte violenta impregnam em seu corpo antes e durante o sacrifício?

Pintura: 
"No cafezal", 1930. Obra de Georgina de Albuquerque (Pinacoteca de São Paulo) 

Crônicas relacionadas ao tema:

"Renúncia à carne" de 03.03.2009
"Fábula: a vaca e o leão" de 07.07.2010
"Resenha ecológica e ambiental" de 10.12.2013 

04/04/2014

QUEIMADAS e DEVASTAÇÕES



Este artigo é de 30.08.2010 publicado no extinto VOTE BRASIL portal que trazia notícias e artigos políticos que foi descontinuado. Sinal dos Tempos...mas uma lacuna que ficou.

O artigo foi transcrito nas páginas do CPTEC – Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos / INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Talvez seja o único que mantém o formato original do referido Vote Brasil ainda no Google.

Desde há muito não consigo deixar de relatar minhas preocupações e angústias, mesmo, com a degradação ambiental que compreende as devastações florestais pelo corte implacável ou pelo fogo, o monóxido de carbono exalado por milhões de carros e motores poluindo o ar, elevando a temperatura do clima do planeta, a industrialização que não se ocupa, ainda, de purificar suas emanações e, principalmente, a poluição dos rios que tornam imundas e inservíveis as águas – elemento essencial - que por eles correm. A pesca predatória, a poluição dos mares e até mesmo a crueldade contra os animais

Hoje, me vejo num ambiente pré-apocalíptico. Que digam de meus exageros.

Endereço do artigo na página do CNPEC / INPE: http://queimadas.cptec.inpe.br/~rqueimadas/material3os/queimadas_e_devastacoes.htm 
[É, também, uma lembrança ao Vote Brasil]






Advogado militante, formado na PUC-SP com artigos de interesse geral e poesias em diversos órgãos de imprensa, profissional de relações trabalhistas em empresas do ramo automotivos, autor do livro     “Sindicalismo e Relações Trabalhistas” – 4ª edição (1996) LTr



As queimadas, provocadas deliberadamente ou não, são as nossas tragédias diárias que se propagam pela incompetência oficial em coibi-las e combatê-las. Dai o agravamento da situação ambiental e a ampliação da desertificação em imensas áreas. 

O meio ambiente pede ajuda:                                              

"Esquecemo-nos, todavia, de um agente geológico notável – o homem. Este, de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente assumiu, em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos. Começou isto por um desastroso legado indígena. Na agricultura primitiva dos silvícolas era instrumento fundamental – o fogo."

A citação acima, refere-se aos desertos provocados na região do nordeste com as queimadas praticadas de modo desastroso que, ao longo do tempo, foram devastando imensas áreas de "flora estupenda".


Não foi ela extraída de algum manual recente de entidade ecológica, entre tantas nacionais e internacionais que criticam a omissão brasileira na questão das queimadas havidas na floresta amazônica. Ela é de autoria de ninguém menos que Euclides da Cunha, ao estudar "a terra" em seu livro "Os Sertões", cuja primeira edição apareceu em 1902.

                     [Imagem infernal na floresta sob fogo sem controle]

Esse consagrado autor, já então no início do século passado, demonstrando certa perplexidade e amargura, apontava o absurdo das queimadas para abrir espaços para a atividade pastoril ou, "ao mesmo tempo o sertanista ganancioso e bravo, em busca do silvícola e do ouro".

Décadas e décadas se passaram e a prática do fogo continua destruindo desordenadamente as florestas brasileiras, quase que extinguindo a mata atlântica e agora, em proporções assustadoras, vai predando própria selva amazônica e o cerrado.

É brutal a omissão oficial a essa calamidade, cuja fumaça das queimadas – provocadas ou não - cega transeuntes, fecha aeroportos e dificulta a respiração de crianças, exatamente na região antes conhecida como o "pulmão do mundo", qualificativo que fora um orgulho para nós brasileiros, pelo menos para os que pensam um pouco mais à frente.

À omissão, aliam-se o absoluto desrespeito à vida, pela natureza e pelo mistério das matas virgens, com as milhares de vidas que sustentam, levadas de roldão, inapelavelmente, pelo fogo.

Esses indivíduos gananciosos e irresponsáveis que exploram madeira na Amazônia e outros biomas, não respeitam árvores centenárias, salvo pelo seu valor econômico, põem fogo na mata para abrir espaços para pastagens do modo mais desordenado e criminoso possível, de ordem a manter o maior rebanho bovino do mundo.

Nos dias de hoje, ensinam-se os princípios da ecologia e da preservação da natureza nas escolas, praticam-se solenidades simbólicas de plantio de árvores perante alunos que aplaudem e se comprometem com a idéia. Para o futuro. Mas, o futuro já corre sérios riscos. O grave problema se verifica no presente. Ações devem ser tomadas agora, energicamente, de tal maneira que sobre algo para ser cuidado no futuro.

“Diminuiu a devastação na Amazônia: em vez de sabe lá quantos campos de futebol por dia, a predação agora é apenas a metade.”

E há quem comemore esse engodo. É degradante.

Essa realidade é assustadora.

As autoridades que poderiam reverter esse processo criminoso omitem-se, fecham os olhos ao se depararem com a fumaça das queimadas e se voltam para ao dar de ombros, as desculpas de sempre: falta de estrutura de fiscalização e de combate às queimadas e, torcem para que de seus gabinetes não sejam afetados pelos seus resíduos.

O desrespeito chegou ao insuportável. O despreparo das entidades oficiais em enfrentar tais crimes é desanimador. Chega a ser patético.

Há algumas décadas, a publicação "O Correio da Unesco", reportava-se ao "Avanço do Deserto" na Terra, esclarecendo uma das reportagens:

"Muitos acreditam que os desertos do Oriente Médio e da região mediterrânea foram criados pelo homem. Há dois ou três mil anos, as vertentes e as planícies do Líbano, da Síria, o litoral do Egito e da Tunísia eram cobertos por rica vegetação (lembremos os famosos cedros do Líbano) e forneciam a Roma grandes quantidades de madeira, cereais, azeitonas, vinho e outros produtos.

O abate de árvores, a destruição das florestas e da vegetação herbácea e o pisoteio das pastagens, juntamente com a erosão pelo vento e pela água, transformaram esses territórios em semi-desertos".

Incluindo as queimadas que em muito aumenta a gravidade da tragédia, estamos seguindo há muito exatamente essa receita. A de construirmos desertos na região mais exuberante do planeta: a Amazônia.

É chegada a hora da urgência, sim, de encararmos a que ponto estamos e parar para pensar sobre o futuro e para nossas crianças, de tal ordem que vivam num mundo melhor e mais respeitoso com a natureza. Que se inspirem na simpatia que deve existir entre a árvore e o homem. Entre os animais e os homens e entre estes e a água, um elemento vital, preocupante, também descurado.

Há tanto por fazer e a cada ano, quando as coisas se acomodam após as crises constantes como esta que agora se assiste – esse circo de horrores – os projetos vão sendo postergados.

E o jogo da política menor, sórdida, volta a prevalecer com o mesmo ímpeto das queimadas.



A propósito:

MATA ATLÂNTICA EM MINAS VIRA CARVÃO PARA OS FORNOS DE SIDERÚRGICAS. 

[Artigo de 15.06.2013. Origem:  http://martinsmilton2.blogspot.com.br/2013/06/mata-atlantica-em-minas-vira-carvao.html]


Ainda que escrevendo somente para mim, nos veículos restritos que tenho disponível, inclusive neste, escrevi, entre outros, dezenas de artigos revelando minha angústia com a devastação ambiental.
Essa devastação no Brasil é dolorosa e preocupante, mas a grande maioria dos povos se fecha num casulo principalmente por estas plagas, vibrando com novelas, com o futebol em particular, ficando ao “Deus dará” a providência para esses abusos ambientais inomináveis.
Afinal de contas, ouve-se – e há literatura de autoajuda recomendando isso -, “eu vivo o presente – o futuro a Deus pertence”; mas nesse futuro insondável há o conjunto familiar, filhos e netos.
Há dias voltei a me escandalizar, porque já estive revoltado antes, com esta notícia e mesma notícia:

“(...) É a quarta vez consecutiva que o Estado [Minas Gerais] lidera o ranking de perda da floresta [Atlântica].”
“Sozinho, o Estado foi responsável por metade do desmatamento do período, ali realizado principalmente para fazer carvão para abastecer fornos de siderúrgicas. Considerando somente as florestas (e não outros tipos de vegetação da Mata Atlântica), houve perda de 10.7512 ha. no Estado entre 2011 e 2013 – um crescimento de70% em relação ao ano anterior.”(Jornal “O Estado de São Paulo” de 05.06.2013).
É isso
Árvores nobres, de uma reserva diminuta, algo em torno de 8% de sua extensão original, sendo convertidas em carvão para sustentar, ainda hoje, com tanta tecnologia disponível, siderúrgicas mineiras. Trata-se de insanidade inacreditável, um crime que se mantem impune. Por quais interesses essa prática se mantem é bem fácil entender: a linguagem do dinheiro que a poucos beneficia.

E a impunidade é tanta que o governo federal comemora, no que se refere à Amazônia ainda cheia de elementos a desvendar, tantas vidas selvagens sendo ceifadas, os quantos quilômetros foram devastados de um ano para outro. Trata-se de postura enganosa porque de ano para ano, num mais noutro menos, a floresta vai desaparecendo mesmo que todos saibam que é ela que tempera o clima.
Há com efetividade um círculo de incompetência e irresponsabilidade porque os atos insanos se referem ao aqui de agora.
O futuro, ora, a Deus pertence.

No trajeto do estado de São Paulo para Minas Gerais, via Anhaguera e na sua continuação no território mineiro, são imensas as áreas devastadas, largas extensões abandonadas. Há um misto de plantação de cana e milho. Nessas áreas a perder de vista, não houve, de regra, a preservação pequena que fosse, da vegetação nativa ou replantio de árvores, de micro bosques.
Claro que não adentrei em tais áreas, mas nada me convence que minas foram levadas de roldão pela mesma devastação que aumenta a incidência da seca.

O que adianta se referir a tais omissões e insanidades? Se a ninguém, serve a mim. Não serei eu quem se conformará. Não sou omisso.