11/01/2017

DAS RESENHAS DOS LIVROS QUE CONSEGUI LER

Exercício mental:

Nestes tempos de comunicação eletrônica, assumo a minha perplexidade pelos recursos postos à disposição. Entre esses recursos, predomina o facebook, um misto de alienação e empolgação que abriu a possibilidade a todos de se comunicarem. Considero um meio democrático antes inimaginável.
Pois bem, eu mesmo não nego minha empolgação com o facebook que vem sendo considerado por muitos um veículo que afasta as mentes da leitura tradicional. A charge de John Holcrof abaixo dá esse sentido.



Por causa disso e para não me curvar de modo exacerbado aos recursos impressionantes do facebook e de outros recursos disponíveis é que faço breve resenha dos livros que li nos últimos meses, na verdade um verdadeiro exercício mental.



“Fahrenheit 451” de Ray Bradbury


Desde logo se informe que o grau do “fahrenheit 451” significa o calor suficiente para a queima de papeis.

Quando resenhei em outubro de 2010 os livros "1984" de George Orwell e "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley fizera a seguinte introdução:
“Estes tempos são empolgantes e não deixam de ser preocupantes. Submeto, então, a resenha dos dois livros para reflexão daqueles leitores que não os conhecem e mesmo àqueles que os conhecem.
Haverá pontos que tocam nos dias atuais: o cerceamento da informação em muitas regiões, o controle sobre os atos dos cidadãos, o consumo e a proliferação das drogas, pornografia, como forma de controlar a mente, a “alma”...”

Nunca esquecera, então, a obra de Ray Bradbury, não tão divulgada como esses mencionados acima, embora inspirasse o filme de François Truffault, de 1966 com o mesmo título tendo como atores principais, Julie Christie e Oskar Werner.

Tantos anos depois, li há pouco o livro que alguns tentam colocar ao lado das duas obras acima mencionadas, de Orwell e Huxley.

Não sei se cabível, embora tenha gostado do livro.

A história ocorre num tempo não definido no qual os bombeiros não apagavam incêndio, mas queimavam livros, as casas onde eram encontrados e os próprios moradores.

Afinal, havia um milhão de livros proibidos. E, ademais, para que serve a poesia, uma obra de Tolstoi?

Fora uma jovem, Clarisse McClellan que um dia se encontra com Montag, o personagem principal da história, que o deixou intranquilo desconfiando de sua vida sem sentido, porque ela revelara que conversava em casa, sempre falando do tio, dos jovens que se matavam. E que gostava de ir às florestas olhar os passarinhos.

E certamente não assistia àqueles programas sem conteúdo das televisões nas paredes em todas as casas.

O comandante de Montag, Beatty ao confirmar a morte da jovem pelas suas excentricidades, num dado momento afirma:

“Se não quer que uma pessoa seja politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para se preocupar. Dê-lhe um só. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Será melhor ela esquecer que existe uma coisa como a guerra. Se o governo for ineficiente, autoritário e perdulário, é melhor ser tudo isso sem que as pessoas se preocupem com essas coisas. Paz, Montag.”

E por aí vai o comandantes ensinando como desviar a atenção das pessoas. São princípios reais de uma ditadura até hoje identificada no mundo contemporâneo.

Montag esconde alguns livros em casa, é denunciado pela esposa. Os bombeiros para lá vão. Montag  constata que é a sua própria casa. A esposa escapa e sua casa é incendiada.

Ele se rebela, escapa de implacável perseguição após atingir com um tiro ao comandante Beatty e se une a outros segregados que preservavam obras na memória para reeditá-las nos tempos vindouros com a erradicação da ditadura da ignorância.

Sobre meus comentários aos livros "1984" de George Orwell e "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley acessar:


“Dez contos para canções de Chico Buarque”

Esse livro foi publicado pela Companhia das Letras e patrocinado pela Caixa Econômica Federal.
Edição esmerada que talvez explique o vínculo do compositor – cantor com o lulopetismo.

O livro inclui dez contos tendo como fonte de inspiração o mesmo número de canções de Chico Buarque

No geral o livro é ruim.

Sei que é fácil criticar obras alheias, mas há contos no livro que homenageiam a minha mediocridade.

Salvam-se os contos de Carolla  Saavedra (“Entrelaces”), Luiz Fernando Veríssimo (“Feijoada completa”) e Mia Couto (“Olhos nus: olhos). Talvez um ou dois mais.

Tem um conto denominado “A calça branca”, sobre namorados homens muito ruim. Nada contra o namoro homossexual, mas esse conto passou batido na análise da qualidade.

Mesmo com as ressalvas acima, o livro é descartável...












“O Aleph” de Jorge Luiz Borges



É o um livro de contos do consagrado autor argentino. No total são 17 contos.

O livro consagra um estilo de maior erudição o que pode exigir uma segunda leitura. Há um quê de místico nos contos especialmente no último, o Aleph que dá nome ao livro.

Esse conto tem uma característica: o narrador se relaciona, ainda que exista rancor contido entre ambos, o primo de sua musa, Beatriz.

Esse interlocutor passa a escrever um poema interminável, desprezado pelo narrador que era obrigado a ouvir aborrecido estrofes e estrofes.

Mas, onde entra o Aleph?

Naquele círculo de alucinações ou nem tanto, o poeta disse o ter descoberto no porão de sua casa, esclarecendo que um Aleph é “um dos pontos do espaço que contém todos os outros pontos”.

No porão, o próprio narrador acaba captando o Aleph sendo exposto a revelações universais e de si próprio: “...vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham visto aquele objeto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam mas que nenhum homem contemplou: o inconcebível universo.”

Aí eclode aquele sentimento tremendo que afeta e fere todos os seres humanos, num dado momento da vida:  a inveja. O poeta foi premiado pelo longo poema e o narrador, pela sua obra, não recebeu nenhuma referência.

[De acordo com os estudiosos da linguística, o aleph do idioma fenício teria dado origem ao alpha grego que, posteriormente, originou a letra “a” no alfabeto latino.
Para os adeptos das doutrinas cabalísticas, o aleph é interpretado como um símbolo místico e espiritual, responsável por representar Deus como “o começo de tudo”. De: www.significados.com.br] 


“Transplante de menina” de Tatiana Belinky


Tatiana Belinky, juntamente com seu marido Júlio Gouveia fez parte da pré-história da televisão, nos primórdios da Tupi na qual adaptaram entre outras, as obras de Monteiro Lobato, “O sítio do pica-pau amarelo”. Fora escritora, autora de inúmeras obras de literatura infantil.

Neste, a do ”Transplante de menina”, autobiográfico, pode ser considerado “juvenil”.

Russa, nascida em São Petersburgo, com 10 anos de idade, no final da década de 20, quando o país vivia as contradições de conflitos internos graves, viajou com seus pais para o Brasil.

É a partir daí que relata as todas as suas experiências, as dificuldades de adaptação, da língua, de moradia até que residiram em São Paulo, na rua Jaguaribe, no bairro Santa Cecília.

Dai a convivência com outras crianças brasileiras, o bullying que não era assim conhecido, sua coragem e aventuras.

Nas primeiras páginas, ela escreveu isto:

“Hoje – e já há muito tempo – eu não trocaria o Brasil por nenhuma espécie de “paraíso terrestre” em qualquer outra parte do mundo (...). E no Brasil, não gostaria de  viver em qualquer outro lugar a não ser em São Paulo, essa “Pauliceia Desvairada”, essa megalópole caótica, fervilhante, dinâmica – e, sim, muito linda, onde cresci, estudei e lancei minhas raízes. E onde espero descansar quando chegar o meu dia”.

O relato se encerra em 1932, fazendo a Autora referência à revolução constitucionalista de que eclodira naquele ano, com a derrota dos paulistas.

Tatiana Belinky faleceu em 2013.












“O velho e o mar” de Ernest Hemingway



O citado escritor americano é prêmio Nobel de literatura de 1954, autor além de “O velho e o mar”, de obras referenciais como “Por quem os sinos dobram” e “Adeus às armas”.

Vivia em Cuba.

No caso do “velho e o mar”, ele começa assim o livro:

“Ele era um velho que pescava sozinho em seu barco, na Gulf Stream. [“Corrente do Golfo” que tem origem no Golfo do México] Havia oitenta e quatro dias que ele não apanhava nenhum peixe.”

Mas, certo dia, sempre sozinho, o velho Santiago saiu para o mar e, com imenso esforço e sacrifício, conseguiu pescar um peixe de raro tamanho, pesando, talvez , uns 500 quilos ou mais.  Quanto ganharia se vendesse 2/3 dele? Sua luta fora extenuante para dominá-lo, trazer junto ao barco e o levar à terra em condições aproveitáveis.

Ao conseguir alojar o peixe junto ao barco num esforço redobrado, cansado, mãos feridas iniciou, então, a volta ao porto.

[Esses episódios consomem a maior parte do pequeno livro]

Mas, ele não contava com tubarões famintos e estes começaram a atacar o peixe tirando sem parar pedaços de sua carne reduzindo cada vez mais seu peso. Não adiantavam os arpões improvisados e remos para espantá-los. E o peixe foi sendo consumido. Ao chegar ao porto, restava apenas a espinha.

O filme “O velho e o mar” foi lançado em 1958.

Resumo de animação dublada em português (de Portugal), muito bom, acessar: https://www.youtube.com/watch?v=34x6URjrrfM

 .//. 

Ernest Hemingway suicidou-se em 1961. Filme recente, “Papá”, revela sua intimidade nos últimos anos de sua vida atribulada.

Era um suicida em potencial, diga-se.

Poucos anos antes do gesto extremo que consumou em 1961, ele se queixava de que não conseguia mais escrever e que se tornara um impotente sexual.

Recebia carinho dos amigos e da esposa, embora esta muitas vezes se revelasse agressiva e irascível comportamento que poderia ter-lhe enfraquecido a “força do seu espírito”.

A vida de Hemingway é fascinante.











O homem que calculava” de Malba Tahan (Julio Cesar de Mello e Souza)



Quem não ouviu alguma coisa sobre esse livro clássico do educador e matemático Malba Tahan?

Mas, o título já revela, por si só, a que se refere: fórmulas matemáticas, algumas interessantes que o brilhante Bereniz, “o homem que calculava”, as usava com sabedoria, resolvendo todas as questões e desafios que lhe eram submetidos. Sempre pela matemática.

A história se situa no século XI e Bagdá era a célebre cidade, “a pérola do Oriente”.

As narrativas se dão entre personagens árabes-muçulmanos.

A história começa com o encontro do seu narrador e o “homem que calculava”, quando “voltava eu, certa vez, ao passo lento do meu camelo, pela Estrada de Bagdá, de uma excursão à famosa cidade de Samarra, nas margens do Tigre, quando avistei, sentado numa pedra, um viajante, modestamente vestido, que parecia repousar das fadigas de alguma viagem.”

Era Bereniz. “o homem que calculava”. Nasceria naquele encontro uma forte amizade entre eles.

Uma primeira disputa que Bereniz resolveu deu-se com a divisão de 35 camelos herdados por três irmãos: ao mais velho caberia a metade(17,5 camelos), ao irmão do meio a terça parte (11,67)  e ao caçula, a nona parte (3,15 camelos).

A divisão não seria exata, dai os desentendimentos entre os irmãos.

O que fez o “homem que calculava”?

Tomou emprestado o camelo do narrador e amigo, inteirando 36 camelos.

A divisão:
Ao herdeiro mais velho, coube 50%, 18 camelos: (em vez de 17,5);
Ao herdeiro do meio: 1/3, 12 camelos (em vez de 11,67)
Ao herdeiro mais moço: a 9° parte, 4 camelos (em vez de 3,88)

Todos foram beneficiados pela divisão. A soma: 18 + 12 + 4 = 34

Sobraram 2 camelos: um  foi devolvido ao amigo-narrador e o outro,  aquele um que sobrou, Bereniz se apossou como seu.

Os irmãos ficaram contentes com a fórmula da divisão praticada pelo “homem que calculava” e não se opuseram em entregar o camelo que “sobrou”.

Outras formulações matemáticas ocupam todo o livro.

Bereniz se casou com Telassim, que era cristã (filha de 17 anos do poeta Iezid Abul Hamid). Bereniz repudiou a religião de Maomé e adotou integralmente o Evangelho de Jesus [complicado nos dias de hoje essa opção naquelas plagas nas quais  os muçulmanos se matam e matam os cristãos]. 
Fez questão de ser batizado por um bispo que sabia a Geometria de Euclides.

[Em 1258, relata o livro, “uma horda de bárbaros e mongóis atacou a cidade de Bagdá.” (...) A cidade foi saqueada e cruelmente arrasada.”

“A gloriosa Bagdá, que durante 500 anos fora um centro de ciências, letras e artes, ficou reduzida z um montão de ruínas.”]