27/02/2011

MISTÉRIOS E MAGIAS TIBETANOS EM EXTINÇÃO

(Esta crônica, fora um artigo mais extenso, “político”, denominado “Tibete: o que teme a China?”, publicado no portal www.votebrasil.com e no blog http://martinsmilton2.blogspot.com/ de 16.04.2009. Nesta crônica agora, foram excluídas referências mais detalhadas sobre à “colonização” da China sobre o Tibete. Meu interesse pelo Tibete se firmou depois que li o livro, há anos, de Chiang Sing, “Mistérios e Magias do Tibete”, com relatos surpreendentes do que lá viu nos mosteiros tibetanos – do seu ocultismo. Dou uma amostra, mais não é possível, por óbvias razões ir além).


Ao enveredar num misto de esoterismo e ocultismo, não houve vez em que o Tibete não chamasse minha atenção pelos relatos miraculosos que alguns monges ou lamas conseguiam realizar através da meditação e da força mental.

Não me refiro nessa linha, a Lobsang Rampa, pseudônimo de um inglês de Dublin, polêmico, sim, que, dizem, nunca teria posto os pés no Tibete, embora despertasse com seus livros, a curiosidade para as magias praticadas naquele país. Li entre outros, o “Terceiro Olho”, não posso negar. Um best seller.

O livro para mim instigante, porém, foi escrito por uma brasileira, Chiang Sing (pseudônimo), falecida em 2002, cuja obra, “Mistérios e Magias do Tibet”, com várias edições li mais de uma vez. (1)

Comprovadamente, conhecera ela o Tibete, mas buscando aqueles redutos mais reservados, herméticos, a ponto de presenciar fenômenos que fogem da aceitação, do sentido comum, neste nosso dia-a-dia atribulado em que os valores, de duvidosa oportunidade, nos apaixonam, porém.

Entre inúmeros fenômenos místicos e as várias materializações que descreve, estes foram filmados, segundo ela:

“Os tambores tocaram com mais força, à medida que iam se materializando os Yadans. Vimos gigantes, gnomos, lindas mulheres pequeninas de asinhas transparentes, delicadas colunatas de fogo de onde saiam salamandras, duendes e ondinas. Nossa emoção era tanta que mal podíamos respirar. O filme de Vasantara provou-nos que não tínhamos sido hipnotizados. Sem dúvida, nada é mais fantástico que a própria realidade...”

Sobre fenômenos dessa natureza, referindo-se nominalmente a Lobsang Rampa, disse o Dalai Lama (= “Oceano de Sabedoria”) que tais relatos são frutos da imaginação, mas deixara no ar depois de reconhecer algumas experiências físicas incomuns que se manifestam pela força mental, a seguinte ambiguidade:

“É também importante manter em mente as limitações impostas pela própria natureza. Por exemplo, enquanto a investigação cientifica não pode apreender meus pensamentos, isso não significa que eles sejam inexistentes, nem que algum outro método de pesquisa não possa descobrir algo a respeito deles, e aí é que entra a experiência tibetana. Através do treinamento mental, desenvolvemos técnicas que a ciência atual não pode ainda explicar adequadamente. Isto, então, é a base da suposto "magia e mistério" do budismo tibetano.” (2)

Esse é, pois, o caldo de cultura da “magia e mistérios” do Tibete.
Mas, antes da invasão chinesa que se deu em 1950, pelas forças de Mao-Tse-Tung, o Tibete era muito atrasado. Eis o que revela a autora citada isso entre 1949/1950:

“Quando ele tinha 14 ou 15 anos (o Dalai Lama), e já era considerado como rei-deus, tomou plena consciência da realidade do mundo moderno ao inaugurar a luz elétrica e a força na cidade medieval de Lhassa. Por essa ocasião, ele pôde assistir a alguns filmes ocidentais, coisa absolutamente inédita no Tibete e notou então o quanto o seu regime era ultrapassado.”


Por livre interpretação, para explicar a mudança que adviria no Tibete mesmo com tanto mistério e magia, eis esta história simbólica que, no fundo, parece questionar essas práticas tão incomuns sugerindo a pergunta: qual a utilidade de tais poderes sem a correspondente espiritualização e obras? Relatado por Chiang Sing:

“Durante suas andanças pela Índia, Sidarta Gautama, o Buda, encontrou um eremita muito cansado, sentado à porta de sua cabana, no final de um bosque:
- Há quanto tempo vives aqui? – perguntou Buda.
- Vinte e cinco anos.
- E qual o resultado desses anos de meditação?
O eremita respondeu orgulhoso:
- Sou capaz de atravessar um rio, andando sobre as águas!
- Pobre amigo – disse Buda -, pouparia muito mais o tempo, se pagasses um barqueiro para atravessar o rio num barco...”

Ruim que a China invasora, comunista e truculenta era também atrasada. A força do tacão passa a desdenhar da cultura e dos costumes do Tibete. E agora avança na tentativa de anulá-los.

A escritora e poetisa Tsering Woeser, intelectual tibetana que não sabe escrever em tibetano, porque proibida a sua língua pelos chineses a partir dos anos 60, foi “educada em mandarim”. Em entrevista, eis como coloca as coisas no que se refere à pobreza da China quando da invasão e o Tibete invadido:

“O Tibete não era um paraíso, perfeito, antes da invasão chinesa. Era pobre, muito pobre, uma região despovoada no alto do Himalaia. A China também era pobre. Sim, havia atraso, como em muitas outras partes em 1949. Hoje, 60 anos depois, o Tibete continua pobre.” (3)

E eventos que atestam a exclusão da cultura tibetana no Tibete se constata por esta nota:

“Na obra "Memória Proibida, a Revolução Cultural no Tibete", Woeser mostra 300 fotos feitas por sua família em que mostram a destruição de mais de mil mosteiros budistas pelas tropas chinesas e as torturas contra monges entre 1966 e 1975.”

E também:

“Lhassa, uma cidadezinha suja e bastante atrasada 30 anos atrás, é agora um centro urbano com amplas praças, shoppings centers e altos edifícios, ligada ao restante da China por uma linha férrea de grande velocidade. É verdade que os tibetanos não se beneficiaram tanto quanto a etnia chinesa han, cuja presença em cidades como Lhassa é tão esmagadora que as pessoas temem a extinção da cultura tibetana.” (4)

Claro que esse quadro de aniquilamento, tem provocado a rebelião de monges e lamas, cidadãos tibetanos que buscam, se não o retorno a sua liberdade política plena, pelo menos a autonomia de seu país, de tal modo a preservar o que resta de sua cultura, língua e tradições.

Longe do Tibete desde 1959, após um levante frustrado contra a invasão chinesa dissera o Dalai Lama que seria ele o último, o que pode significar sem sua presença, o esmorecimento

A consequência dessa colonização implacável significará o desaparecimento dessa cultura tibetana pouco conhecida, aí incluídas experiências mentais / espirituais que se estudadas num nível elevado, sem especulação, poderiam revelar alguma coisa a mais para este lado ocidental tão carente.


Referências:

(1) Chiang Sing “Mistério e Magias do Tibete” (Livraria Freitas Bastos (5ª edição /
(2) Fonte: http://www.eurooscar.com/Dalai1/dalai6.htm.
(3) Entrevista à “Folha de São Paulo” de 08.03.2009.
(4) Ian Buruma, “Problema do Tibete é político”, in “O Estado de São Paulo” de 12.04.2009

Imagens / Fotos

1 – China e Tibete
2 – Palácio da Potala em Lhassa, antiga capital do Tibete, verdadeiro monumento, declarado patrimônio da humanidade em 1994, pela UNESCO. Sede do governo, residência do Dalai- Lama, contém áreas que serviam para estudos espirituais. (Foto: Enciclopédia Wikipédia)

20/02/2011

SETE PECADOS CAPITAIS / LUXÚRIA

Explicação:

Quando iniciei esta série, a partir do “pecado da Gula”, fiz referência a duas autoridades cristãs, ao teólogo e monge João Cassiano (370-435) e ao papa Gregório Magno (540-604), que viveram nos primórdios do cristianismo. (1)
São considerados sábios. Os elementos de que me valho para fundamentar as conclusões que agora faço sobre a luxúria, um dos sete pecados capitais – talvez na sua concepção original, um dos mais graves – porque naqueles idos já havia defensores do celibato entre os sacerdotes - foram inicialmente obtidos nos dicionários, o seu significado corrente:

LUXÚRIA:

Dic. Caudas Aulete: “Sensualidade, lascívia, dissolução dos costumes, corrupção”; Dic. Aurélio: os mesmo sinônimos, incluindo “libertinagem”; Dic. Houaiss “interesse incansável por prazeres carnais”.

Pode-se concluir, então, que a luxúria, numa definição mais atual, seriam os “excessos carnais”?
Se sim, tudo em excesso não transborda da racionalidade?
Assim a gula, o desejo descontrolado de se alimentar; a avareza, aquele sentido de reter bens e dinheiro como se pudessem ser transportados além túmulo e a preguiça que se transforma em indolência, apatia.
Pois aqueles religiosos citados não teriam sido moderados em condenar os prazeres sexuais, apenas os excessos, hoje tão comuns que nos assombra no dia-a-dia? A pedofilia, a homossexualidade (nesta crônica me refiro à relação homem-mulher que eu conheço), a pornografia nos seus estágios mais abusados...

Porque, fora da luxúria, há relatos bíblicos de admirável beleza sensual como se constata no capítulo “Cânticos dos cânticos” (capítulo 7):

1 Quão formosos são os teus pés nas sandálias, ó filha de príncipe! Os contornos das tuas coxas são como jóias, trabalhadas por mãos de artista.

2 O teu umbigo, como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre como monte de trigo, cercado de lírios.

3 Os teus dois seios são como dois filhos gémeos de gazela.

4 O teu pescoço como a torre de marfim; os teus olhos como as piscinas de Hesbom, junto à porta de Bate-Rabim; o teu nariz como torre do Líbano, que olha para Damasco.

5 A tua cabeça sobre ti é como o monte Carmelo, e os cabelos da tua cabeça como a púrpura; o rei está preso dos teus encantos.

6 Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!

7 A tua estatura é semelhante à palmeira; e os teus seios, os teus seios são semelhantes aos cachos de uvas.

8 Dizia eu: Subirei à palmeira, pegarei em seus ramos; e então os teus seios serão como os cachos na vide, e o cheiro da tua respiração como o das maçãs.

9 E a tua boca como o bom vinho para o meu amado, que se bebe suavemente, e faz com que falem até os lábios dos que dormem.

10 Eu sou do meu amado, e ele é para mim.

11 Vem, ó meu amado, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias.

12 Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se aparecem as tenras uvas, se já brotam as romãzeiras; ali te darei o meu amor.

13 As mandrágoras exalam o seu perfume, e às nossas portas há todo o género de excelentes frutos, novos e velhos; eu os guardei para ti, ó meu amado!


Com as ressalvas da minha interpretação “poética”, essa declaração mútua de amor no texto transcrito constitui-se numa linda peça de sedução, da realidade entre homem-mulher quando apaixonados e livres.

Alguém pode me explicar o prazer intenso e desejado de um casal que se dá ao amor e ao sexo? Aquela explosão? Que fenômeno é esse? Ele instiga a relação, o encontro dos sexos opostos. Pode significar a felicidade
Mas, e a tragédia?
A luxúria desceria à libertinagem, aos excessos onde a mulher se submete e o homem a submete e se submete. Se esses excessos forem pecado, ambos não escapam.
Na imaginação de Dante Alighieri contida na obra “A Divina Comédia” os luxuriosos no inferno têm o seguinte castigo:

“Logo comecei a ouvir as lamúrias da infernal geena (*): aproximava-me já do lugar em que padecia ferozmente. Era um local privado de toda luz, que rugia como mar assolado por ventos furiosos. O furor da tormenta, nunca apoucado, flagelava eternamente as almas, agitava-as e as espicaçava, sem nunca parar. Quando à beira do abismo as precipitava, ais, choros e lamentos rompiam. A multidão de malditos blasfemava contra Deus. Ouvi dizer que sofriam de modo horrendo os que se dedicavam aos vícios carnais, submetendo a eles o discernimento.”
(...)
“Então, disse: “Mestre, que almas são aquelas que o vendaval castiga enfurecido?
Respondeu Virgílio: “A primeira entre as sombras das quais desejas ter notícias regeu nações. Decretou que a lascívia seria lícita e agradável, a fim de legitimar as torpes práticas nas quais se excedia. (...)”
(2).

Sempre soube que o celibato imposto pela Igreja Católica aos seus bispos, prática que estaria institucionalizada em definitivo e obrigatório pelo Concílio de Trento (1545-1563), se dera por conta de melhor se dedicarem à própria Igreja e à espiritualidade.
Nessa linha de idéias eis as referências contidas em Gálatas (16 -19):

16. Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne.
17. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis.
18. Mas, se sois guiados pelo Espírito não estais debaixo da lei.
19. Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia,


Para atingir este comunhão do Espírito há que contar com grande força sempre, mas muito mais nestes tempos de sexualidade exposta em qualquer meio de comunicação. Por isso valho-me mais uma vez de outra fonte que analisa a abstinência do sexo em relação à espiritualidade e os que a praticam ser estar preparados. De Max Heindel, místico-filósofo no seu “Conceito Rosacruz do Cosmos”:

“Por outro lado, se a pessoa se dedica a pensamentos espirituais a tendência para empregar a força sexual na propagação é mínima, de forma que qualquer parte dela que não se use nesse propósito pode ser transmutada em força espiritual. Por tal razão o iniciado, em certo grau de desenvolvimento, faz o voto de celibato. Não é uma resolução fácil de tomar, nem pode ser feita à ligeira por qualquer pessoa que deseja desenvolver-se espiritualmente. Muitas pessoas ainda imaturas para a vida superior sujeitam-se, ignorantemente, a uma vida ascética. Tais pessoas são tão perigosas à comunidade e a si mesmas quanto o são os maníacos sexuais imbecis.” (3)

O livro de Heindel foi escrito no começo do século passado, quando havia recato e até mesmo a demonização do sexo. Imaginem nestes tempos em que o pêndulo solto sem controle, com violência foi para o lado oposto dos costumes, gerando a sua total erotização.
Tudo está indicando que há um apelo à moderação. Mas, eu não tenho autoridade para nada recomendar (imaginem!) até porque não sei onde ela, a moderação, se situa. Que cada um medite se está no sexo o pecado e nesse caso, qual o seu limite até a luxúria. A luz está apagada.


Referências:

1)“Gula”, 1ª crônica dos “sete pecados capitais”, publicada em 26.12.2010 neste “Temas”;
(2)“Divina Comédia” - Edição em prosa da Coleção L&PM Pocket (2006);
(3)“Conceito Rosacruz do Cosmos” – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz (3ª Edição – 1993)

(*) Geena (significado): “Local de suplício eterno, inferno” (Dic. Caudas Aulete)

Fotos:

1. Cena do filme “A um passo da eternidade” (1953) entre Burt Lancaster e Deborah Keer
2. Cena do filme “007 contra o satânico dr. No” (1962) – Ursula Andress

13/02/2011

FRAGMENTOS PATERNOS

(Esta cônica, registro de memórias tem ligação estreita entre outras, especialmente com “Amarguras e Ternuras contidas” de 22.05.2009)

- Tá aqui outro livro. Você vai gostar. E policial e refinado.
- Mas...
- Dê uma folga nos “bang-bangs”. Afinal, você não conseguiu ler “Os Sertões” do Euclides? Esse aí vai ser fichinha.
Fanático por “bang-bang” naquelas sessões da tarde na televisão, lúcido porque sóbrio, creio que tenha adquirido esse “amor” por esses filmes, após assistir, mais de uma vez, “Os brutos também amam” (“Shane”). Se bem me lembro, uma tarde-noite, enfrentamos o trem da extinta “Santos a Jundiaí” para assistir esse filme no também extinto cine Windsor, na avenida Ipiranga, São Paulo. Chegamos em cima da hora, o cinema estava lotado. Sentamos nos degraus. Deu para ver bem o filme.
A avenida Ipiranga não era tão atribulada e até perigosa como é hoje. Nem por liberdade poética, vejo encantos na esquina da avenida Ipiranga com São João.
Lá se punha o velho na sala, na mesinha que ele mesmo fez, na frente da televisão com os pés postos numa geringonça para esquentá-los naqueles dias mais frios: uma caixa de papelão com uma lâmpada bem instalada sobre ela. O calor da lâmpada era irradiado por uma abertura esquentando seus pés.
Escrevia bem. Gostava de música clásica.
Era exímio marceneiro para objetos pequenos: a escada de 1,5 metro de peroba que durou “uma eternidade” – quando ainda havia peroba - caixas bem feitas nos detalhes –até hoje tenho caixas de documentos e uns recipientes de bambu feitos por ele onde guardo brocas de furadeira.
As inumeráveis carriolinhas que fez para seus netos, meus filhos, os caleidoscópios e, principalmente, tabuleiros de jogo de damas, cujas “pedras”, também de peroba, foram torneadas, pelo que sei, no canivete. E o jogo com dados que os jogadores avançam ou recuam nas casas do tabuleiro segundo os desígnios dos números sorteados.
Tudo no capricho total na sua minioficina, um quartinho no fundo. Ao lado umas bananeiras muito “produtivas”.
Era muito vaidoso com o relógio Rolex que ostentava com orgulho; quando dizia as horas, mencionava até os segundos. Esse relógio está comigo. Há décadas esquecido, há pouco providenciei revisão total, mas ele não vale muito, quer pelo seu modelo simples quer pela sua antiguidade. Além desse relógio, uns poucos livros foram a herança ou o meu quinhão.
No ginasial fui péssimo aluno. Não poucas vezes, minha mãe foi chamada na diretoria do colégio para ouvir as ameaças que representava seu filho para a sociedade.
Embora ele sempre incentivasse que eu estudasse, a verdade é que praticamente tudo o que estudei foi opção minha e pago por mim, inclusive, pelos resquícios do mau aluno de sempre, penei demais para me formar em direito na PUCSP.
Mais tarde, muito menos pela renda e zero de patrimônio, mas talvez pelo "crédito" que teria obtido na minha atividade estudantil e na imprensa na cidade de São Caetano do Sul fui seu avalista em valor importante o que lhe permitiu comprar a sua casa. (Ou por outra, o banco entendesse que com ele o empréstimo seria pago rigorosamente, exigindo avalista apenas para atender aos seus procedimentos).
Já com meu fusca vermelho, num descampado, dei-lhe as primeiras aulas de direção. Muito difícil, mas era ambição maior dele ter um carro e dirigir. Depois de uma dezena de tentativas obteve a carta de habilitação. Até hoje desconfio que o delegado a concedeu por puro dó.
Já bem idoso, então, não foi capaz de dirigir com um mínimo de segurança o seu carrinho. E desistiu.
Muitas vezes, ao entardecer quando passava em sua casa, lá estava minha mãe preparando algum prato que ele gostava, geralmente de carne, e escondia o chocolate dos netos vorazes, a guloseima preferida do velho.
Já começava a apresentar os primeiros sintomas respiratórios pelas décadas em que fumou.
Todas essa lembranças conservo com muito carinho e quão forte fora minha mãe que, como dizia um tio, fora ela a luz do meu pai. E de todos nós.


CARTA DE DESPEDIDA


Em 06 de setembro de 1987
Ilmos. Srs. Diretores da
Cia. Antarctica Paulista
São Paulo
Prezados Senhores:
Faleceu no último dia 4, no Hospital Santa Helena, o Sr. Dario Martins, com pouco mais de 81 anos de idade, meu pai.
Na Antarctica, ele trabalhou por mais de três décadas, de onde se aposentou há cerca de 20 anos.
Em todos esses anos, mais de meio século, essa Cia. sempre esteve presente em sua vida. Amparando-o na condição de empregado quando sofreu a terrível doença do alcoolismo, dando-lhe apoio sempre. Depois, durante todos os anos da aposentadoria com um pequeno, mas significativo auxílio e agora, no fim da vida, no Hospital Santa Helena.
Saibam que meu pai amava muito essa empresa, chamando-a, sempre que passávamos na Presidente Wilson, de “mãe”. Para ele, fora um privilégio ter a Antarctica como motivadora da maior parte de sua vida.
Para quem, como eu, com um conceito próprio sobre o mistério da vida e da morte, que o visitei, só, nos últimos instantes na UTI do Hospital Santa Helena, na cena triste e final de uma existência atribulada, mas essencialmente honesta, sensível e mesmo feliz, não pude conter a emoção pois que houve ali, um momento doce de despedida, com um leve gesto de cabeça de quem, ainda lúcido, reconhecia seu estado crítico, prestes a seguir para um estágio reparador e transcendente.
Esse momento, que se relaciona intimamente com o Hospital Santa Helena, levarei comigo para sempre.
Eis porque escrevo esta a V. Sas. para registrar meu agradecimento, sincero, emocionado, a uma entidade de comprovada grandeza a quem meu pai, ao longo de quase toda sua vida, só soube exaltar.




Foto 1: Esses lírios por muitos anos enfeitaram nosso jardim, quando morávamos em Santo André. É um símbolo daqueles tempos inesquecíveis. Por isso ele ilustra esta crônica porque infelizmente, raro, nunca encontrei bulbos e pior, não os trouxe quando mudamos.
Foto 2: São Caetano do Sul aérea, de minha juventude, onde tanta coisa vivi, fiz acontecer e aconteceu.

06/02/2011

JOANA D’ARC, A PUCELA


Tenho aqui comigo e vez por outra a consulto mais como curiosidade, quatro vlumes da hoje rara “Encyclopedia pela Imagem”, herança do meu pai. (1)

Por não constar uma data sequer nas suas tantas páginas, creio que sua publicação, em fascículos, tenha se dado no início da década de 40, até pela ortografia adotada.
Sabem o significado de pucela? Respondo: virgem, donzela.
E nessa linguagem rebuscada que, em muitos textos explanados pela Enciclopédia, se encontra o capítulo de Joana D’Arc, história relativamente conhecida com dezenas de portais na internet.
Sempre que me deparo com fenômenos incomuns, digamos, paranormais (milagres?) sou, de regra, remetido àqueles séculos de alto (e auto) fervor religioso, até por conta da perigosa inquisição patrocinada pela Igreja Católica.
Nos dias de hoje há tanto tumulto que esse fervor se perde ou se perdeu.
Tenho para mim que essa Enciclopédia, tão bem estruturada, tão cheias de fotos (imagens) que quando li sobre Joana D’Arc, me deu a impressão de que estava me inteirando de documento oficial, da época mesmo.
Nascida em Domrèmy, na França, em 6 de fevereiro de 1412, na guerra entre França e Inglaterra, há o seguinte trecho que dá conta de sua primeira visão:
“Na Bassigny, os aldeões são proibidos de acender o lume, para não fornecerem ao inimigo o fogo com que eles queimem as choupanas. O que não impede os ingleses de invadirem o Barrois (junho de 1425) e incendiarem Revigny. Os bandidos devastam Domrémy e a aldeia de Creux.”
E a visão de Joana:
“Nesses dias de verão, um domingo, à hora em que os sinos tocam a completa, Joana vê o arcanjo S. Miguel aparecer ‘junto com o coro de anjos do céu”. Ele diz-lhe a grande lástima em que o reino se encontra, fala-lhe do socorro que é necessário levar ao rei legítimo. Joana conta treze anos; fica perturbada. Sua mãe não a mandou aprender a ler e somente lhe ensinou as suas orações...” (2)
A partir dai a história de suas façanhas são exaltadas:
Nessas mensagens e visões, lhe fora passada a missão: libertar a França do jugo inglês, que dominava quase todo o país e proclamando rei, Carlos VII, o verdadeiro monarca francês.
Resistindo inicialmente à ideia porque uma menina ainda e ainda mais naqueles tempos, não sabendo como cumprir a missão, mas demonstrando muita força interior, acabou convencendo líderes militares franceses, a ponto de comandar exércitos e vencer batalhas impressionantes sobre os ingleses, algumas consideradas milagrosas, como a que resultou na libertação de Orleans, em 1429.
Outras vieram, até ser capturada pelos ingleses, sofrendo grandes sacrifícios e privações na prisão, além de tripudiada pelos soldados que a vigiavam. Um ano depois, em 30 de maio de 1430 quando comunicada que morreria na fogueira acusada de heresia e bruxaria:
“Ai de mim! gemeu ela. Tratar-me-ão assim horrível e cruelmente, sendo preciso que todo o meu corpo, que jamais foi corrompido seja hoje consumido e reduzido a cinzas! Protesto diante de Deus, o grande juiz, contra as injustiças e agravos que me fazem...”
E nesse dia deu-se o terrível sacrifício. As vozes falavam em libertação. Ela entendera o sentido.

Depois de um processo de reabilitação que teve início em 1456, a Igreja Católica que a havia condenado a beatifica em 1909. Em 1920 e declarada santa pelo Papa Bento XV.
É a santa Joana. É a heroína da França.

(Sempre há menções sobre sua indumentária, de corte masculino. Ela usava essas roupas, de guerra, para não constranger os soldados comandados por uma menina adolescente, virgem. E cortou o cabelo, deixando-o curto para não parecer tanto aquela menininha adolescente. E havia sempre o risco do atentado sexual entre aqueles soldados bárbaros)


Referências:

(1) Livraria Chardron – Lello & Irmãos, Lda – Editores – Porto - Portugal
(2) Usei a ortografia atual
Imagem / Foto
(1) Imagem de abertura do verbete de Joana D’Ar na Enciclopédia
(2) Monumento (dourado) a Joana D’Arc no centro do Paris (desde 1874) na praça de Rivoli.