27/02/2011

MISTÉRIOS E MAGIAS TIBETANOS EM EXTINÇÃO

(Esta crônica, fora um artigo mais extenso, “político”, denominado “Tibete: o que teme a China?”, publicado no portal www.votebrasil.com e no blog http://martinsmilton2.blogspot.com/ de 16.04.2009. Nesta crônica agora, foram excluídas referências mais detalhadas sobre à “colonização” da China sobre o Tibete. Meu interesse pelo Tibete se firmou depois que li o livro, há anos, de Chiang Sing, “Mistérios e Magias do Tibete”, com relatos surpreendentes do que lá viu nos mosteiros tibetanos – do seu ocultismo. Dou uma amostra, mais não é possível, por óbvias razões ir além).


Ao enveredar num misto de esoterismo e ocultismo, não houve vez em que o Tibete não chamasse minha atenção pelos relatos miraculosos que alguns monges ou lamas conseguiam realizar através da meditação e da força mental.

Não me refiro nessa linha, a Lobsang Rampa, pseudônimo de um inglês de Dublin, polêmico, sim, que, dizem, nunca teria posto os pés no Tibete, embora despertasse com seus livros, a curiosidade para as magias praticadas naquele país. Li entre outros, o “Terceiro Olho”, não posso negar. Um best seller.

O livro para mim instigante, porém, foi escrito por uma brasileira, Chiang Sing (pseudônimo), falecida em 2002, cuja obra, “Mistérios e Magias do Tibet”, com várias edições li mais de uma vez. (1)

Comprovadamente, conhecera ela o Tibete, mas buscando aqueles redutos mais reservados, herméticos, a ponto de presenciar fenômenos que fogem da aceitação, do sentido comum, neste nosso dia-a-dia atribulado em que os valores, de duvidosa oportunidade, nos apaixonam, porém.

Entre inúmeros fenômenos místicos e as várias materializações que descreve, estes foram filmados, segundo ela:

“Os tambores tocaram com mais força, à medida que iam se materializando os Yadans. Vimos gigantes, gnomos, lindas mulheres pequeninas de asinhas transparentes, delicadas colunatas de fogo de onde saiam salamandras, duendes e ondinas. Nossa emoção era tanta que mal podíamos respirar. O filme de Vasantara provou-nos que não tínhamos sido hipnotizados. Sem dúvida, nada é mais fantástico que a própria realidade...”

Sobre fenômenos dessa natureza, referindo-se nominalmente a Lobsang Rampa, disse o Dalai Lama (= “Oceano de Sabedoria”) que tais relatos são frutos da imaginação, mas deixara no ar depois de reconhecer algumas experiências físicas incomuns que se manifestam pela força mental, a seguinte ambiguidade:

“É também importante manter em mente as limitações impostas pela própria natureza. Por exemplo, enquanto a investigação cientifica não pode apreender meus pensamentos, isso não significa que eles sejam inexistentes, nem que algum outro método de pesquisa não possa descobrir algo a respeito deles, e aí é que entra a experiência tibetana. Através do treinamento mental, desenvolvemos técnicas que a ciência atual não pode ainda explicar adequadamente. Isto, então, é a base da suposto "magia e mistério" do budismo tibetano.” (2)

Esse é, pois, o caldo de cultura da “magia e mistérios” do Tibete.
Mas, antes da invasão chinesa que se deu em 1950, pelas forças de Mao-Tse-Tung, o Tibete era muito atrasado. Eis o que revela a autora citada isso entre 1949/1950:

“Quando ele tinha 14 ou 15 anos (o Dalai Lama), e já era considerado como rei-deus, tomou plena consciência da realidade do mundo moderno ao inaugurar a luz elétrica e a força na cidade medieval de Lhassa. Por essa ocasião, ele pôde assistir a alguns filmes ocidentais, coisa absolutamente inédita no Tibete e notou então o quanto o seu regime era ultrapassado.”


Por livre interpretação, para explicar a mudança que adviria no Tibete mesmo com tanto mistério e magia, eis esta história simbólica que, no fundo, parece questionar essas práticas tão incomuns sugerindo a pergunta: qual a utilidade de tais poderes sem a correspondente espiritualização e obras? Relatado por Chiang Sing:

“Durante suas andanças pela Índia, Sidarta Gautama, o Buda, encontrou um eremita muito cansado, sentado à porta de sua cabana, no final de um bosque:
- Há quanto tempo vives aqui? – perguntou Buda.
- Vinte e cinco anos.
- E qual o resultado desses anos de meditação?
O eremita respondeu orgulhoso:
- Sou capaz de atravessar um rio, andando sobre as águas!
- Pobre amigo – disse Buda -, pouparia muito mais o tempo, se pagasses um barqueiro para atravessar o rio num barco...”

Ruim que a China invasora, comunista e truculenta era também atrasada. A força do tacão passa a desdenhar da cultura e dos costumes do Tibete. E agora avança na tentativa de anulá-los.

A escritora e poetisa Tsering Woeser, intelectual tibetana que não sabe escrever em tibetano, porque proibida a sua língua pelos chineses a partir dos anos 60, foi “educada em mandarim”. Em entrevista, eis como coloca as coisas no que se refere à pobreza da China quando da invasão e o Tibete invadido:

“O Tibete não era um paraíso, perfeito, antes da invasão chinesa. Era pobre, muito pobre, uma região despovoada no alto do Himalaia. A China também era pobre. Sim, havia atraso, como em muitas outras partes em 1949. Hoje, 60 anos depois, o Tibete continua pobre.” (3)

E eventos que atestam a exclusão da cultura tibetana no Tibete se constata por esta nota:

“Na obra "Memória Proibida, a Revolução Cultural no Tibete", Woeser mostra 300 fotos feitas por sua família em que mostram a destruição de mais de mil mosteiros budistas pelas tropas chinesas e as torturas contra monges entre 1966 e 1975.”

E também:

“Lhassa, uma cidadezinha suja e bastante atrasada 30 anos atrás, é agora um centro urbano com amplas praças, shoppings centers e altos edifícios, ligada ao restante da China por uma linha férrea de grande velocidade. É verdade que os tibetanos não se beneficiaram tanto quanto a etnia chinesa han, cuja presença em cidades como Lhassa é tão esmagadora que as pessoas temem a extinção da cultura tibetana.” (4)

Claro que esse quadro de aniquilamento, tem provocado a rebelião de monges e lamas, cidadãos tibetanos que buscam, se não o retorno a sua liberdade política plena, pelo menos a autonomia de seu país, de tal modo a preservar o que resta de sua cultura, língua e tradições.

Longe do Tibete desde 1959, após um levante frustrado contra a invasão chinesa dissera o Dalai Lama que seria ele o último, o que pode significar sem sua presença, o esmorecimento

A consequência dessa colonização implacável significará o desaparecimento dessa cultura tibetana pouco conhecida, aí incluídas experiências mentais / espirituais que se estudadas num nível elevado, sem especulação, poderiam revelar alguma coisa a mais para este lado ocidental tão carente.


Referências:

(1) Chiang Sing “Mistério e Magias do Tibete” (Livraria Freitas Bastos (5ª edição /
(2) Fonte: http://www.eurooscar.com/Dalai1/dalai6.htm.
(3) Entrevista à “Folha de São Paulo” de 08.03.2009.
(4) Ian Buruma, “Problema do Tibete é político”, in “O Estado de São Paulo” de 12.04.2009

Imagens / Fotos

1 – China e Tibete
2 – Palácio da Potala em Lhassa, antiga capital do Tibete, verdadeiro monumento, declarado patrimônio da humanidade em 1994, pela UNESCO. Sede do governo, residência do Dalai- Lama, contém áreas que serviam para estudos espirituais. (Foto: Enciclopédia Wikipédia)

3 comentários:

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Milton, destruir uma cultura é coisa muito ruim; qualquer que seja ela. É como antigamente que se matava qualquer cobra que se visse, de medo. Por certo, o ocidente tem muito que aprender e esse pensar paradoxal do oriente influencia a Psicologia e a Física, com suas teorias de partícula-onda e outras variáveis que nem supomos ainda existirem no microcosmo. Amigo, um abraço e parabéns por este texto copioso.

Caio Martins disse...

Milton, há forças e energias que desconhecemos e que muitos - atrevida e aleatoriamente - põem-se não só a nominar, mas, audaciosamente a falar em representação. Vulgarizam aquelas forças e energias ao tentar nivelá-las por baixo em busca de lucros e fama. Igualam-se aos donos da verdade que tentam destruir tudo que possa abalar-lhes as convicções.
Belíssima matéria, que exige reflexão cuidadosa do leitor.
Forte abraço.

Milton Martins disse...

Camilo e Caio
A extinção da cultura e das tradições de um povo por intolerância política é muito ruim, irreparável, embora, rigorosamente, não seja só uma atitude chinesa. No caso do Tibete é pior por tudo que seus monges praticavam de mistério e magia.
Quanto ao livro que menciono, ele é sério e tudo o que é ali relatado, muitas vezes, fiz aquela "célebre" reflexão: "acredite se quiser"("believe or not"). Resolvi acreditar naquelas experiências relatadas pela autora porque, nas linhas e nas entrelinhas do livro não há aquele sentido de especulação, mas de relatos de experiência miraculosas vistas e documentadas por mais de um viajante que com ela estiveram na mesma viagem. Se houve alguma forma de ilusão por conta daquelas magias, não sei. Há, por exemplo, relato de materialização demoníaca que me lembra a mesma materizalização do filme "O bebe de Rosemary" que mexeu demais comigo, por uma semana. A história de revolver o porão da mente. Fico por aqui. Abraços e grato. Milton Martins.