31/10/2010

A HISTÓRIA DE UMA EDIÇÃO. Errinhos que humilham

Saibam, meus amigos, que nessa história de publicação e artigos, tive meus momentos de glória. Ilusórios, passageiros, mas, momentos!
Desde sempre fui assinante do jornal “O Estado de São Paulo”.
Um dia, já faz tanto tempo, escrevi um artigo de natureza jurídica (“O artigo 581 da CLT”). Eu o achei bom e remeti para o citado jornal.
Umas duas semanas depois, quase tive um desmaio ao vê-lo publicado na página que então havia de artigos jurídicos, ao lado de outros juristas. Salvo engano os temas trabalhistas nessa página eram coordenados pelo saudoso ministro Rezende Puech (do TST).
Alucinado, depois de algumas semanas, remeti outro, também publicado. A “glória” meus amigos.
Naquele primeiro artigo fiz críticas ao posicionamento da prestigiosa Editora LTr a respeito daquele dispositivo numa das suas edições da CLT. A Editora respondeu explicando os seus motivos em boletim próprio.
A partir daí, a aproximação com a Editora fora um passo. Escrevi diversos artigos em seus boletins e mesmo na Revista LTr, na qual só cabiam juristas da área trabalhistas.
Meus artigos lidos hoje, por mim? Modestos!
O principal dono da Editora, Dr. Armando Casimiro Costa, pode ter ido com a minha cara, tanto que me convidou, num dos congressos patrocinados por ela, Editora, para palestrante numa das seções.
Não muitos anos depois, elaborei um programa de treinamento de relações trabalhistas e sindicais para uma multinacional trazendo toda a minha experiência do ABC.
Submeti esse programa à Editora LTr. Foi ela reticente em aceitar a publicação o que determinaria, por mim, o abandono da ideia.
Depois de um cartão de Natal normal que remeti, ele me respondeu solicitando que eu remetesse novamente os originais.
E assim surgiu a primeira edição do meu “Sindicalismo e Relações Trabalhistas”.
A segunda edição não demoraria porque o livro fora adotado por uma amigo meu, Edmir de Freitas Garcez nos seus cursos “Negociando com negociadores”.
A terceira edição foi muito melhorada mas a editora não cuidou bem da revisão, o que me obrigou a responder críticas vindas até da Bahia.
Finalmente, a quarta-edição, que poderia ser a minha contribuição “profissional” para o tema, foi escrita às pressas a despeito do volume imenso de informações que me obrigara a compulsar, saiu com falhas minhas.
Quando isso acontece e você vê os errinhos com o “dedo em riste” apontando em sua direção, impossíveis de serem corrigidos, tudo fica meio deslustrado. Imperdoável, porque toda a edição poderia ser muito melhor.
“Aconselho”, pois, a todos os escritores, às voltas com a edição de seu livro, que deem o máximo e o revisem tantas vezes quantas necessárias. Insiram e completem. Nada de preguiça.

Aonde foi parar toda essa gana de jurista? Já disse alhures que, no fundo no fundo, com suas exigências e metas a alcançar, a empresa de certo modo enterra o talento que se desvia para ela e por conta do salário no fim do mês.
Tudo isso se passou num estalo de dedo. As ilusões.



Errinhos que humilham

A propósito do tema, escrevi alhures uma crônica que transcrevo em parte. Assim,

Esse título não é meu. É do saudoso escritor mineiro Otto Lara Rezende que, numa crônica no jornal “Folha de São Paulo” de 18.01.1992 o utilizou no singular.
Mas, eu já vou logo grafando no plural, “errinhos que humilham”.
Inicia o cronista se queixando de erros de revisão que se davam, eventualmente, nos seus escritos, lembrando que “quando surgiu o computador na imprensa, pensei que vinha para acabar com essa gralha. Qual o quê. Sofisticou-a”.
Com o computador, dizia o escritor, não seria mais possível atribuir a revisor os erros do autor.
E nestes dias, então, com o notório avanço tecnológico e da comunicação? Não sei, não. Há “mistérios insondáveis” nos errinhos que humilham.
Com computador e tudo, ao longo do tempo, já me deparei com empastelamento em textos que escrevi, corte da conclusão, a essência do texto, para caber no espaço do veículo e até mexidas insuportáveis de quem entendera pouco do que nele se debatia.
Como explicar um erro tal num título de artigo no qual “queremismo” foi grafado como “quirimismo”? Ou a expressão “ato contínuo” com o sentido claro que contém e que foi impresso como “um ato contínuo”, significando que a inclusão do numeral “um” estreitou sua abrangência?
Para aqueles que se propõem a escrever publicamente o português é um desafio permanente, porque muitas vezes se sabe que a regra “é assim” mas não “o porquê de ser assim”.
Outro ponto lembrado por Otto são os erros do próprio cronista que insere um dado equivocado, uma desinformação, na crônica. Sem volta porque a eventual correção posteriormente é inócua ou com efeito limitado. E dizia: “Qual! Fica o travo da pequenina humilhação que me convida à humildade.”
Saibam todos, pois, que o cronista se depara com erros ortográficos dele próprio e, pior – afaste de mim esse cálice – erros de concordância. E isso mesmo tendo lido o que escrevera várias vezes.
Saibam mais os leitores que o cronista em cada crônica enfrenta esses vilões e escorregões. Ele cria, escreve e...erra. Um “sofredor”. E muitas vezes paga por erros que não são seus.



Imagem: O coelho de “Alice no país das maravilhas”. É tarde, é tarde! O tempo passou, mas sempre é tempo.

24/10/2010

REGRESSÃO (II): Primeira Comunhão

Situo-me num bairro pobre, num tempo tanto de paz como de simplicidades, lá pelos idos de minha infância já num estágio de compreensão das coisas. Casa simples, quintal no fundo, cerquinha de taipas, portãozinho mal fechado que dava para um terreno desocupado. Nos dias de muita chuva, o rio transbordava, chegando a água imunda até ali perto.
Tinha por hábito atravessar o rio pela ponte de madeira a poucos metros, nos tempos secos e rumar para a casa de um amigo da família que morava morro acima. Um braço de rua à esquerda que terminava numa valeta na qual corria água fétida que desaguava no rio. Quando chovia, transbordava, trazendo todo tipo de objetos varridos das casas ribeirinhas.
Nessa rua, casas humildes, água de poço, muita precariedade mas não percebia amarguras, queixas da vida...
Em muitos domingos recebi balas dos filhos do proprietário de muitas daquelas casas simples que ia receber os aluguéis. Muitas vezes seu carrão não conseguia entrar rua abaixo nos dias de chuva, pelo barro que se formava.


Havia na beira das cercas pés de dálias que cresciam mais de um metro, dando flores enormes.



Giestas viçosas, suas florezinhas amarelas brilhavam ao sol naqueles tempos em que não se falava de poluição. Hoje são raras.



Até hoje procuro por violetas miúdas, que proliferavam cujas flores exalavam, se bem me lembro, leve perfume. Perto da valeta, um pé de “copo de leite” com flores imaculadas o ano todo resistiam a todas as agressões dos moleques e das enchentes.
Muitas tardes ia para essa rua, encontrar a molecada amiga. Ficava um pouco mais até a noitinha quando havia a reza do terço, cada mês numa casa diferente.
Ria muito daquilo tudo e, ansioso, esperava o fim da reza, ao amém, para participar dos refrigerantes que não faltavam nessa hora ou de licorzinho leve de anis ou hortelã.


No último dia de aula daquele ano chovera muito. Fiquei à espreita agarrado no pé de amora, vendo a água se aproximar alegando tudo por ali. Ela chegou mais uma vez perto da cerca do meu quintal, mas não passou dali, como nunca passara.
Saí às pressas para a aula, seria a despedida da professora.
Pela surpresa, aquele dia fora importante. Passara o ano inteiro sem uma falta sequer recebendo da professora, elogios, um livro de presente, lembrança desse feito inédito. Palmas.

Dois dias depois, num domingo, minha mãe falou da primeira comunhão, menos que um ato de fé, um costume que não poderia ser abandonado. Meu pai não interferira porque não se aproximava da Igreja. Meu tio era crítico cáustico da religião. Vez por outra ele chegava até nossa casa, com um caminhão tanque enorme de “querosene jacaré”, com maços enormes de dinheiro à vista de todos.


Interessei-me pela 1ª comunhão até porque não havia outro meio, então. Algum tempo depois comecei a frequentar o catecismo na denominada matriz velha da cidade.
Quando se aproximava a data, a beata que conduzia as aulas constatou que eu não decorara o “Credo” e “Salve rainha” Me ameaçou de ficar fora da comunhão.



Lá fui, então, decorar essas orações e reforçar outras.
O dia da comunhão chegou, um domingo que marcou porque minha mãe fez uns bolos, uns doces uns sanduíches e guaranás.
Se disser que não me senti um pouco acima do chão, depois da comunhão, estarei mentindo.
A partir dali voltei-me religiosamente para a missa dominical e me engajei entre os “congregados marianos” identificados com a fita amarela, passando pelo pescoço e ombros. Ficavam próximos da sacristia acompanhando a missa de perto. Eu recebi uma fita azul – que significava, que me lembre, a condição de aspirante.
Nunca perguntei o que significava aquele grupo dos “congregados marianos”.
Sempre que havia tempo, à tarde, ia para a igreja sabendo-a vazia, na certeza de encontrar linda menina que me fizera perder na paixão, aquele enlevo que só nessa idade se sente.
Ela, porém, tinha nome tradicional na cidade e seus pais estavam muito bem de vida. Esse enlevo perdurou por algum tempo mas havia esses obstáculos, o da pouca idade e diferença social, situação importante naqueles tempos, na cidade.
Esta tão ingênua poesia, remonta àqueles tempos. Vacilo hoje em lembrá-la exatamente pela sua ingenuidade mas me encorajo, imaginando que ela possa explicar esse “encanto” e minhas motivações que não se perderam neste meu mundo de hoje que nele batalho em algumas frentes sem esmorecer e a tudo agradecer!:

Menina
Morena
da cidade
das flores,
alegre
tão meiga
sincera.

Eleva
enleva
encanta
se fala
se olha
se chora
se ri.

Do rosto
lmpidos
olhos
estampam
pureza
sublime
beleza.

Ah! menina
morena
és dona
de tudo
da Natureza
do mundo
e mesmo
de mim...

Um belo dia, não sei explicar bem, esse estado religioso foi abandonado de modo abrupto. Não sei se pelo amadurecimento quando novas informações chegam, o ginasial e os novos amigos, questionamentos de toda ordem, a maturidade sexual que se faz presente...e nessa época converti-me num péssimo aluno. Mas, nada que não recorde tudo com carinho.

Mais tarde, por razões que já revelei, enveredei pelo rosacrucianismo, ocultismo e até rudimentos do espiritismo.
Volto um dia a este assunto, embora já tenha me referido a ele em outras crônicas neste espaço.


Fotos:
Dália
Flor de giesta
Igreja: Matriz "velha" de São Caetano do Sul

17/10/2010

DOS LIVROS QUE NÃO CONSEGUI (AINDA?) LER. E os já lidos

Há livros que vou e volto e não consigo ir em frente na leitura até o epílogo.
Acho que a cultura perdida num livro não lido pode estar em outro qualquer mais palatável, menos rebuscado.
Há autores que sobem tanto o degrau da intelectualidade que são, para mim, inatingíveis. E livros inatingíveis quando assim os considero, não precisam ser lidos.


Aqui me refiro às obras seguintes entre outras:
"Os Sertões" de Euclides da Cunha
"Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa 

"Raízes do Brasil" de Sergio Buarque de Holanda
Friedrich Nietzsche
"Ulisses" de James Joyce
"1984" de George Orwell
"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley

"O Presidente Negro" de Monteiro Lobato


Euclides

Um que estou “devendo” há décadas é o “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Talvez, numa fila imaginária de livros que “preciso” ler eu o inclua para um dia iniciá-lo a partir do capítulo “O Homem”. A edição que me encara desafiante é de 1952 e pertenceu ao meu pai. Lá no canto da abertura do livro, sua assinatura inconfundível.


“Os Sertões”



Depois de décadas ensaiando, consegui ler o grande livro de Euclides da Cunha. Gostei muito.
Tenho que reconhecer, porém, que perde um pouco o prazer da leitura com o vocabulário rebuscadíssimo adotado pelo autor. Vejam esta frase:
“Estas marchavam lutando. Dado um último choque partindo o círculo assaltante, começou a desfilar pelas veredas ladeirantes, sem que se lobrigasse, neste momento gravíssimo, o mais sério das guerras, o mais breve resquício de preceitos táticos, onde avulta a clássica formatura em escalões, permitindo às unidades combatentes alternarem-se na repulsa.”
Eu acredito que a erudição euclidiana tinha a ver com o seu tempo, início do século 20 (a 1ª edição é de 1902), época em os intelectuais constituíam um grupo selecionado. Assim, o livro fora dirigido a ele, a esse grupo, então.
Quanto à “campanha de Canudos” são surpreendentes suas consequências: do lado das forças oficiais destacadas para derrubar a cidadela, registra Euclides, até junho de 1897, a morte de 85 soldados e 315 feridos. Depois até o final da campanha, outubro de 1897, a contagem dá-se por “baixas” (feridos e mortos) atingindo 2038. Entre as baixas e mortos, muitos oficiais.
“Canudos não se rendeu”.
Antônio Conselheiro não foi aprisionado. Morrera pouco antes da destruição do seu reduto, em 27 de setembro, possivelmente de anemia, fraqueza física com uma cruz de prata sob seu corpo. Seu cadáver foi exumado e sua cabeça decepada com troféu.
Muitos foram os jagunços, defensores de Canudos, mortos. A contagem é parcial, até junho de 1897, 535.
Canudos congregava fieis de Antônio Conselheiro, vivendo em extrema miséria. Crítico da república recém-instalada, Antônio Conselheiro teria sido considerado perigosa ameaça a ela dai a campanha para sua destruição.
Euclides dá demonstrações de que sempre esteve ao lado das forças oficiais, mas não deixa de observar nas “duas linhas” finais da obra observa: “É que não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades”.
Henry Maudsley (1835–1918) foi um pioneiro da psiquiatria inglesa, com importantes contribuições à noção de responsabilidade penal e conceito de sociopatia (distúrbio mental pelo qual o indivíduo apresenta conduta antissocial), aliás, defendia exatamente a noção irresponsabilidade, insensibilidade ou imbecilidade moral, sem nenhuma outra alteração das faculdades mentais observadas em alguns infratores o conduziu à noção de "determinação genética" denominda por ele como (tyranny of organisation) tirania de organização. (Fonte: Wikipédia).
(O nome do psiquiatra inglês Maudsley por aqui é sempre lembrado pela sua citação em “Os Sertões”).

Mas, claro que existem os crimes das nacionalidades. Embora sujeita a pesquisa antes de Euclides, um dos maiores exemplos desses crimes está no nazismo, no fascismo e recentemente ditadores que defendem sua permanência vitalícia no poder e, para tanto, assassinam seus concidadãos que protestam.


Grande SER-TÃO: Veredas



A 1ª edição da obra de Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas” completou meio século neste ano, em maio, salvo algum breve engano.
Ouvi falar da obra, há algumas décadas, talvez umas três. Chega uma idade que não se sabe por onde anda o tempo vivido ou perdido. O passado fica meio sem referências no tempo.
Havia na TV Gazeta um programa dominical apresentado pelo professor Ignácio da Silva Telles no qual eram explanados temas filosóficos, de reflexão e atualidades.
Certa feita fez o professor referência ao “Grande Sertão: Veredas”, então não tão conhecido, não tão lido e não tão reverenciado como agora e há bom tempo se dá.
Já pelo título, se bem me lembro, o citado professor interpretava um significado a mais nele, algo transcendente. Assim: “Grande SER-TÃO: Veredas”.
Teria o professor destacado que o Ser, tão indecifrável como é o ser humano está sempre diante de suas veredas – sua senda, seus estreitos caminhos.
Não demoraria muito a obter o livro. Começo a ler e nada. A linguagem sertaneja, rebuscada me levava à sonolência.
Era o ex-jagunço Riobaldo narrando sua historia. Desisti logo, parando numa frase que me marcaria depois:
“Viver é muito perigoso...Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar”.
Ademais, ao viver “a cada dia a gente aprende uma qualidade nova de medo”.
Meio envergonhado, tempos depois, voltei ao livro. Já bastava não ter conseguido ir em frente com “Os Sertões” de Euclides da Cunha? (...depois fui!)
Numa dada página, a leitura deslancha e se torna empolgante.
Logo, surge a figura de Diadorim. Ora, o jagunço Riobaldo pelo que relata, vai tendo sentimentos amorosos por outro jagunço, o Diadorim?
Uma tendência assim estranha, comprometedora, em pleno sertão?
“Bem-querer de minha mulher foi o que me auxiliou, reza dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é minha neblina...”
Enquanto a trama segue num crescendo desse amor, uma reflexão mística sobre Deus, segundo Riobaldo:
“... um outro doutor (...) discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra.”
E sobre a saudade? Diz Riobaldo: “Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço toda saudade é uma espécie de velhice.”
Não sei qual saudade será essa externada pelo autor, essa palavra tão saudada da língua portuguesa.
Talvez, Guimarães Rosa se refira à saudade nostálgica, saudade triste, aquela que traz um sentimento de distância do seu solo ou de episódio fundamental da vida que se desvaneceu pelas veredas. Tanto que Riobaldo pergunta no fim da história: “O senhor acha que a vida é tristonha?”
A narração de Riobaldo vai revelando lances de amor entre ele e Diadorim. Num momento da história, ele relata a seguinte declaração a Diadorim:
“Três-tantos impossível, que eu descuidei e falei. - ... Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos...” Diadorim, então, “se pôs para trás, só assustado – o senhor não fala sério.”
Mas, nas lutas com a jagunçada, Diadorim é morto a facadas mas também mata sem oponente o “judas” Hermógenes. Então, “Que trouxessem o corpo daquele rapaz moço, vistoso, o dos olhos verdes...”
Seu corpo ia ser lavado já que embebido de sangue, mas quando despido, Diadorim “era o corpo de uma mulher, moça perfeita...”Estarreci”, lembra Riobaldo. “A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d´arma, da coronha (...) Diadorim era a mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero”
O amor impossível!
Permito-me divagar, já me escusando perante o grande autor: Se no decorrer da narrativa, Riobaldo, cabra-macho se apaixonara por Diadorim outro cabra-macho, a despeito de seu corpo vistoso e seus olhos verdes, o amor de ambos explodiria se tempo houvesse para que a realidade aparecesse - uma mulher “como o sol que acende a água”.
Mas, assim não se deu, nada de final feliz, sabem por quê?
Porque Diadorim, Maria Deodorina, “que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor."
E porque “o sertão é do tamanho do mundo”. O ser-tão na sua essência em que difere do mundo? Daí as veredas.


Gravuras extraídas da edição de "Os Sertões" de 1953 - Livraria Francisco Alves. Autor: artisdta Ib Andersen)


“Raízes do Brasil”

Sérgio Buarque de Holanda, edição da Companhia das Letras de 2004, com 220 páginas (a 1ª edição é de 1936).

Trata-se de uma obra que exige concentração mais apurada na leitura de tal modo que se obtenha o preciso sentido dos conceitos emitidos pelo autor. Creio mesmo que seria bom que fizesse uma segunda leitura do livro  como preciso fazer de “Os Sertões” de Euclides – compromisso que estou em débito.

A referência às raízes do Brasil, significa que o autor voltou aos tempos da colonização portuguesa e bom que se diga que não é ele crítico na medida em que afirma que não é (sempre) possível subestimar a “grandeza dos esforços” de Portugal na exploração das novas terras, embora não nega que tudo se fez “com desleixo e certo abandono”.

Mais, a frente, ao tratar da “persistência da lavoura de tipo predatório”, a exemplo do que denunciara 
Euclides em “Os Sertões”, não deixa o Autor de destacar o uso do fogo na agricultura quando chega aos detalhes de explanar sobre o uso da enxada e do arado:

“Mostra-se nesse trabalho como o recurso às queimadas deve parecer aos colonos estabelecidos em mata virgem de uma patente necessidade que não lhes ocorre, sequer, a lembrança de outros métodos de desbravamento”.

A prática do fogo permanece até hoje, como se sabe, devastando largas extensões de florestas brasileiras.

No livro ainda se descobre que em terras paulistas a língua falada era, predominantemente, a indígena segundo, entre outras fontes citadas pelo autor, as observações do padre Antonio Vieira: “É certo que as famílias dos portugueses e índios de São Paulo, estão tão ligadas hoje umas às outras, que as mulheres e os filhos se criam mística e domesticamente, e a língua que as ditas famílias se fala é a dos índios, e a portuguesa a vão os meninos aprender à escola.”

Aponta no meio do capítulo “novos tempos”, que autores românticos tornaram “possível a criação de um mundo fora do mundo, o amor às letras não tardou em instituir um derivativo cômodo para o horror à nossa realidade cotidiana. Não reagiu contra ela, de uma reação sã e fecunda, não tratou de corrigi-la ou dominá-la; esqueceu-a, simplesmente, ou detestou-a, provocando desencantos precoces e ilusões de maturidade. Machado de Assis foi a flor dessa planta de estufa.”
[Ora, o escritor é assim, tem o direito de sair da realidade e criar situações novas, ficções, inspiradas, suas, ascender à poesia que o afastam do horror da realidade. Toda a literatura de Machado, que está aí até hoje e sempre reverenciada talvez se enfraquecesse se fizesse referência ou descrevesse, por exemplo, à imundice que saltava pelas ruas do Rio de Janeiro. Muitos horrores se foram e Machado de Assis, ficou].

Sobre o Segundo Reinado e da Primeira República, “as constituições feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e de oligarquias, são fenômeno corrente em toda a história da America do Sul” – o significado de tal afirmação no fundo se refere “às primazias das conveniências particulares sobre os interesses de ordem coletiva...”
[Com efetividade o fenômeno do descumprimento da lei e da Constituição por aqueles que detêm influência por causa do seu vigor econômico quando não parte do poder político é uma realidade. Que o digam as milhares de ações que se avolumam nos tribunais há anos e anos e ainda hoje. Todavia, quanto aos tribunais, constata-se que há posicionamentos mais rigorosos  que podem mudar o perfil de país de tal maneira que se consiga a “ordem” proclamada na bandeira].      

Há um sentido crítico à “cordialidade” que sempre prevaleceu por aqui e até hoje visitantes de outros países ressaltam essa característica brasileira que nem sempre seria saudável quando se trata de relações impessoais, do Estado impessoal – separação do público e do privado. A observação é minha trazendo esse aspecto para o presente: o denominado “processo do mensalão” não tem algo da permanência do “estado cordial”?

Mas, ressalte-se que esse conceito, no livro, não é muito claro.

Bem, paro por aqui, reafirmando a dificuldade do texto do autor Sergio Buarque de Holanda em sua obra “Raízes do Brasil”, um clássico muito citado mas tenho dúvidas se lido na mesma proporção.



Nietzsche

Mas, o autor que mais me incomoda é Friedrich Nietzsche, apenas Nietzsche, para os mais “íntimos”. Tenho aqui comigo, duas edições de “Assim Falou (ou falava) Zaratustra” que não consigo sair das primeiras páginas, pelo seu texto rebuscado, frases que se perdem numa ideia sem sentido.
Na introdução da edição da “Editora Martin Claret” (2007), de autoria de Scarlett Marton, dissera o próprio Nietzsche sobre esse livro:
“É um livro incompreensível, porque remete exclusivamente a experiência que não partilho com ninguém”. E acrescenta: “Se pudesse dar-lhe uma ideia de meu sentimento de solidão! Nem entre os vivos nem entre os mortos tenho alguém de quem me sinta próximo.”
“Assim Falava Zaratustra” é um livro que tem lá suas parábolas e tenta substituir a figura sempre presente de Deus, pela do Super-Homem:
“Eu vos apresento o Super-homem! O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super-homem o sentido da terra.”
E sobre Deus:
“Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfemos. Agora, o mais espantoso é blasfemar contra a terra, e ter em maior conta as entranhas do inescrutável do que o sentido da terra.”
Nietzsche na sua maturidade pelos 44 anos de idade, num grave colapso mental, perdeu a razão. Atribui-se sua loucura ao avanço da sífilis, que adquirira na juventude. Com a doença “viveu” por cerca de 11 anos.
No capítulo “Mater Dolorosa” do velho livro (1948) “A Marcha do Tempo” de Stefan Zweig é relatado o drama de sua mãe, cuidando do doente famoso no dia-a-dia:
“Vê-se agora uma velhinha a conduzir, de vez em quando, o seu doente, como a um urso grande e pesadão, pelas ruas e a longos passeios. Afim (sic) de o distrair, recita-lhe intermináveis poesias, que ele escuta em torpor. Guia-o jeitosamente; fá-lo desviar-se das pessoas que o fitam curiosas e dos cavalos que detesta. Sente-se feliz toda vez que consegue reconduzi-lo à casa, sem que ele desperte a curiosidade popular com sua “voz muito alta” (como a senhora delicadamente classifica seus berros selvagens)”.
A mesma autora da “introdução” à edição referida linhas acima, conclui:
“Pensadores, literatos, jornalistas e homens políticos teriam nele um ponto de referência – atacando ou defendendo sua obra, reivindicando ou exorcizando seu pensamento. Quem julgou compreendê-lo equivocou-se a seu respeito; quem não compreendeu, julgou-o equivocado.”
Esse é Nietzsche!
Aonde entro eu nessa história, que sequer consigo ler “Assim falava Zaratustra? – e se conseguir um dia já me darei por satisfeito por ter lido pelo menos uma obra de Nietzsche.

Joyce
Estão aqui comigo as 900 páginas de “Ulisses” de James Joyce, esta edição com tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. (Editora Objetiva – 2007).
Não há lista de obras “universais” que não esteja “Ulisses” a encimando como leitura obrigatória. A obra de Joyce constitui-se uma paródia à obra clássica “A Odisséia” de Homero.
Cheguei na página 261 e pouco captei. A introdução de cada capítulo explicando onde se insere a saga de Ulisses na obra de Joyce situa-se no final do volume e, do mesmo modo, dezenas de citações dispersas no texto, que só são compreendidas se buscadas as referências também no final do grosso volume.
Melhor estariam no rodapé de cada página.
Esse modo de apresentação cansa e dispersa.
Nesta fase, tendo lido ¼ do livro, já estou em vias de deixá-lo de lado.
Dói a consciência mas seu estilo e essas referências inseridas no final do livro (“Notas”) são, para mim, um entrave.

"1984" e "Admirável mundo novo"

Estes tempos são empolgantes e não deixam de ser preocupantes. Submeto, então, a resenha dos dois livros para reflexão daqueles leitores que não os conhecem e mesmo àqueles que os conhecem.
Haverá pontos que tocam nos dias atuais: o cerceamento da informação em muitas regiões, o controle sobre os atos dos cidadãos, o consumo e a proliferação das drogas, pornografia, como forma de controlar a mente, a “alma”...

"1984" de George Orwell

Escrito no fim da década de 40, ainda sob a influência dos horrores dos crimes nazistas e mesmo do stalinismo, engendrou Orwell um mundo no qual o ser humano estaria controlado, manipulado e submisso aos desígnios do "Grande Irmão".
O sistema era constituído por um "tratamento psiquiátrico" aos que se rebelavam e aos que caiam "em desgraça", ameaça que expandia a autocensura, uma voz insuportável que reprimia a manifestação, já que eram nebulosos os limites permissíveis da expressão do pensamento. Pois, o herói de "1984" não tremeu diante de um simples volume de folhas em branco e, em pânico, começou a escrever?
Ao homem tornara-se proibido indagar e mesmo amar. Apagara-se para sempre sua interioridade que, alimentada, poderia levá-lo a pensar "inadequadamente" numa existência transcendente. Esse espaço interior fora preenchido pela máxima presente sempre: "O Grande Irmão zela por ti". Orwell não dá esperança a Winston, o herói "dissidente". Submetido a todas as torturas e sofrimentos, "espontaneamente", com "convicção", se convence que "dois e dois são cinco" (o seu axioma antes fora: "A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Admitindo-se isto, tudo o mais decorre") e no auge de sua "recuperação" passa a amar o "Grande Irmão".
Uma tênue esperança alimentada por Winston até ser "recuperado" era a revolta dos "proles", uma sociedade à margem do poder e desorganizada, mas também controlada por intensa espionagem e, quanto aos divertimentos, um dos mais comuns era a proliferação de filmes pornográficos. Os "proles", todavia, no percurso todo do livro, permaneceram alienados e impotentes.

É inequívoco que o quadro negro pintado por Orwell se assentara num clima político de extrema violência, embora hoje ainda haja o autoritarismo desmedido como forma de busca ou da manutenção do poder, além de outras formas de deturpação (a subnutrição e a fome, a baixa educação, especialmente) que ameaçam a vida humana e a desqualificam.
Os abusos dos grandes irmãos políticos que fazem da política o meio da ambição e do acúmulo de riquezas sem a preocupação em melhorar a vida dos...”proles”.
Assim, os eventos de "1984" podem até ser identificados em pontos demarcados do planeta, hoje e no passado próximo, nos quais a desobediência ou a contestação podem significar a privação da liberdade individual ou risco à própria vida.
Hoje, a televisão tem muita força de comunicação e pode – já não ocorre? - desviar a atenção, a inteligência. Afinal, não é ela que projeta a violência, constrói e destrói ídolos, nos faz pensar ou nos condiciona de certa forma segundo os desígnios de poucos?
De um modo geral, há sim manifestações de "não cultura".
Afinal, por outra, não há uma crise nas religiões? Algumas não se excedem, diminuindo a capacidade individual, a vontade dos seus seguidores?
Estejamos atentos, pois.

"Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley

E o que dizer do instigante "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, consumidor declarado de LSD?
Trata-se de uma obra muito atual, mesmo escrita há quase 70 anos, precisamente em 1932.
O denominado "mundo novo "situa-se no ano 600 da era de Ford (referindo-se a Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística nos Estados Unidos). Feitas as contas, chega-se ao ano de 2.500 da nossa era.
Mas, do que trata o livro de Huxley ?
Um novo mundo onde os seres humanos eram produzidos em série em laboratórios e, pela manipulação nos embriões, pertenceriam à elite dominante ou simplesmente à massa que fazia trabalhos braçais ou desagradáveis, o controle da individualidade pelo condicionamento no que denominou Centro de Incubação. Nesses centros de condicionamento, certas "mensagens" eram repetidas milhares de vezes, para que se constituíssem verdadeiros valores da vida.
Mesmo sendo "imoral" a procriação natural, havendo por isso cuidados especialíssimos para evitar a gravidez, havia no "novo mundo" total liberdade sexual. A monogamia era objeto de repúdio e deboche. O casamento e o sentimento pais/filhos, uma vergonha.
O "soma" era a droga contra todos os males da "alma": da angústia, da depressão, da tristeza, da dúvida. Uma dose da droga anestesiava a mente do usuário, sobrevindo um estado de euforia sem os malestares de outras drogas, quando passasse seu efeito.
Num diálogo entre um selvagem – assim considerado porque nascera naturalmente – e o dirigente máximo da história de Huxley, à indagação da existência de Deus, este dissera que talvez Ele existisse, mas manifestando-se como "ausência; como se não existisse absolutamente". Porque Deus "não é compatível com as máquinas, a medicina científica e a felicidade universal".


O PRESIDENTE NEGRO de Monteiro Lobato


Por ocasião da última campanha presidencial americana na qual se sobressaíra Barack Hussein Obama e depois eleito Presidente, foi lembrada por aqui uma antiga obra de Monteiro Lobato, “O Presidente Negro”, escrita em 1926.
“Por linhas tortas”, previra Lobato a possibilidade de elegerem os Estados Unidos, naqueles idos de forte segregação racial, um presidente negro.
A história se desenrola no ano de 2228.
Para tal vaticínio, se valera Lobato dos seguintes argumentos:
. Os partidos Republicano e Democrata uniram-se como Partido Masculino contando com o apoio dos negros;
. O Partido Feminino contava com a liderança de “miss” Evelyn Astor, rica de todos os dotes de Inteligência, de cultura e da “maquiavélica sagacidade feminina”, se juntava um elemento perturbador no novo jogo político presidencial: “a sua rara beleza”.
Ademais, “nesse ano de 2228 já a mulher vencera o seu estágio de inferioridade política e cultural...”
Com a divisão dos brancos, já que os negros não apoiaram o Partido Masculino, foi eleito seu líder Jim Roy, com 54 milhões de votos. E assim, fora eleito o primeiro presidente negro; “miss” Astor obtivera 50,5 milhões de votos e Kerlog 50 milhões. “Apesar de disporem de um eleitorado quase o dobro do contrário, os brancos perderiam a presidência graças à cisão entre os dois sexos provocado pelo “elvinismo.” (de “miss” Elvin, na história feminista radical).
Claro que esse “erro” de exatos 200 anos em suas previsões, deve-se ao fato de que, nos tempos em que Lobato escrevera a história, o preconceito racial nos Estado Unidos era exacerbado. Essa intolerância se manifestara de modo intenso na década de 60, relembrando-se os conflitos violentos havidos em 1962, na cidade de Los Angeles nos quais negros praticaram saques, depredações e agressões, depois da absolvição de policiais que covardemente haviam espancado um negro a ponto de provocar fratura craniana. A absolvição dos policiais fora decidida por um júri composto de brancos.
Dentre todos esses conflitos e mortes, mencione-se o assassinato de Martin Luther King, ativista negro, religioso e pacifista, então com forte influência política, morto em 04.04.1968. Há dúvidas sobre sua morte, o mandante e as motivações; há até mesmo menção a uma “teoria conspiratória”. Ele tinha um sonho:
“Eu tenho um sonho de que um dia esta nação vai se levantar e viver o verdadeiro significado de sua crença: 'Consideramos essas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados iguais'. Eu tenho um sonho de que um dia, nas montanhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentarem-se juntos à mesa da fraternidade. Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter.”
Registre-se que na época da morte de Luther King já vigorava nos Estados Unidos, desde 1964, a lei dos direitos civis – de cuja luta participara – que proibia discriminação no que se refere à religião, à nacionalidade, inclusive no âmbito profissional. Pouco tempo depois, a proibição de discriminação se estendeu a indivíduos com mais de 40 anos e de práticas salariais diferenciadas entre homens e mulheres, que exerçam trabalhos iguais ou semelhantes.
Tudo isso sistematizado na denominada “ação afirmativa”, que garantiria “oportunidades iguais de emprego entre os americanos”, indica que os negros de lá, de um modo ou outro, conquistaram e conquistam oportunidades efetivas de ascensão social e profissional. No cinema, os negros deixaram de ser coadjuvantes para se tornarem protagonistas. O cinema é uma espécie de vitrina da sociedade americana o que de bom e ruim. Mas, esses avanços não significam que se estabeleceu o paraíso com a “ação afirmativa”.
O fato significativo é que a vitória do mulato Barack Obama, com o nome que tem à presidência dos Estados Unidos, foi sufragado por brancos, negros, hispânicos, incluindo nomes influentes. Todos acreditavam que a vitória de Obama significaria uma guinada necessária nos padrões americanos. A realização do sonho do Martin Luther King. Os Estados Unidos neste ano de 2011 ainda enfrenta sérios problemas econômicos fatos que deslustram o governo de Obama.
O nosso Monteiro Lobato que “previra” a possibilidade de um presidente negro nos Estados Unidos para daqui a dois séculos não poderia, no seu tempo de tantos conflitos raciais, imaginar todas essas mudanças, o avanço tecnológico vertiginoso e a “inacreditável” internet.
E sob as condições daqueles tempos engendrara na sua história um crime dos brancos para neutralizar o poder negro. Mas, essa patifaria não comentarei por irrelevante e por ter sido imaginado num outro contexto. No atual estágio, seria impensável qualquer ato que maculasse esse processo de conquistas e de iguailadades, mesmo se considerando a trágica violência destes tempos.


Brown

Li há algum tempo o livro “comercial” de Dan Brown, “O Símbolo Perdido”. Não gostei!
O que há de interessante são as referências positivas à maçonaria no desenvolvimento da trama, além de enaltecer possíveis mensagens cifradas e herméticas que estariam presente no texto da Bíblia, cujos sentidos haveriam que ser objeto de meditação para melhor interpretá-las.
(Sobre esse tema, tenho a crônica “Intuição desvendada” de 20.09.2009).
Como é do estilo do autor, a história se desenrola sob muitos símbolos e simbolismos.
Vale-se o autor Brown de conceitos até elementares de origem esotérica, como aquele que diz “como é encima é embaixo”, significando que o Universo “lá no alto” com seus fenômenos mal compreendidos, inclui a Terra e nós que fazemos parte dela, aliás, este planeta um corpo minúsculo nessa imensidão que se perde sem fim numa noite estrelada.
Curioso que quando escrevia a crônica “Stephen W. Hawking e minhas implicâncias” de 05.09.2010 usava esse mesmo conceito (“como é encima é embaixo”). Mas, num dado momento deu-se um colapso “inexplicável” no computador e o texto foi todo perdido. Para mim, a primeira versão é sempre a melhor. Reescrevi tudo de novo perdendo qualidade e sem usar mais esse conceito.
São aquelas coisas difíceis de entender. Pensei que, com a perda do texto já integralmente escrito, em fase de “salvamento”, não devesse usar mais essa expressão porque não estaria preparado para me referir sobre ela do alto da minha ignorância.
Mas, eis aí.

Lidos ou quase:

• “Memorial do Convento” de José Saramago – português de Portugal, meio rebuscado. Para quem gosta do autor e do seu estilo.

• “A Cabana” de William P. Young

Comecei a ler este livro e não o conclui. O começo fora eletrizante, mas depois de ter o personagem principal recebido um bilhete do "Papai", algumas páginas à frente desisti da leitura. E do livro, é claro. É, todavia, um best seller.


• “1822” de Laurentino Gomes

Um bom livro muito documentado que causa perplexidade ao revelar fatos incríveis da nossa história.

Outros livros

Pipas

Ler livros que caem no gosto popular, podem significar decepções. É que geralmente há pieguices que encobrem um nível de mediocridade na idéia central da história.
Livro com essa característica é o “Caçador de Pipas” de Khaled Hosseini que vendeu e vende ainda aos milhares.
A história se desenvolve num ritmo vibrante. No seu âmago o personagem principal é um covarde que não consegue se redimir nem mesmo quando, delirando, corre atrás de uma pipa que surge pelos ares no final da história.
Inclui uma luta severa – um dos momentos mais destacados do livro – entre esse personagem e um nazista ligado aos talibans, cujo final, inverossímil, poderia ter sido inspirado num filme americano B, daqueles em que John Wayne salva a mocinha da boca do leão ou é salvo pela cavalaria num massacre aos índios. Aliás, o livro explica que esses filmes eram assistidos nos bons tempos do Afeganistão.
O mal do país é, pois, caracterizado por um alemão nazista que, aceito pelos talibans pratica todas as maldades. Afinal, o quê pretendera o autor com esse desvio? Deixar a ideia de que os talibans não eram tão crueis e que a truculência era um fato isolado no país ficando por conta de um nazista tresloucado o serviço sujo? Ou quisera comparar os talibans aos nazistas? Ou quisera ficar bem com os talibans?
Por tudo isso o livro, para mim, é ruim, embora a história seja contada num ritmo vibrante, tanto que é (ou foi) um best seller.
Outro dia o filme baseado nesse livro passou na TV. Tentei assisti-lo mas também não suportei esperar o final. Coisas de best seller.

Cegueira

O best seller "Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago também faço restrições.
Porque, para mostrar a miséria humana, não será preciso nestes tempos e há muito, que todos fiquem cegos. Essa a proposta do autor. Mas, as misérias inimagináveis em todos os escalões sociais se dão entre os que bem enxergam. Nesse passo, para diferenciar ou tentar inseri-las num contexto extremo, sem mais nem menos todos ficam cegos. Somente a heroína, é claro, não é afetada.
E por aí vai a história descrevendo os horrores sob a cegueira. Se assistirei ao filme de Fernando Meirelles inspirado no livro? Dificilmente.

Ressalvo de Saramago, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” escrito em 1991 que lançara, então, Maria Magdalena como mulher de Jesus, mas uma prostituta recuperada, na melhor doutrina da Igreja, bem antes do best seller “O Código Da Vinci” de Dan Brown. Como se sabe esse e outros autores erigem Maria Magdalena, não como prostituta, mas a discípula preferida e angelical de Jesus.

Tenho que explicar, sem qualquer presunção até porque Saramago é Nobel, essas minhas impressões tão negativas sobre esses livros: talvez tenha sido influenciado pelos livros de Dostoievski que lera na mesma época: “Os Imãos Karamazovi” e “O Idiota”.
É injusto comparar, mas Dostoievski está disponível há mais de 150 anos. O autor russo tende a rebaixar outros quando suas obras são lembradas. O que fazer?

Imagens / Fotos:

1. Euclides da Cunha, estampa do livro "Os Sertões", edição de 1952 (Livraria Francisco Alves);
2. Nietzsche ao lado de sua genitora (Wikipédia - Google);
3. Retrato de James Joyce (ebooks.adelaide.edu.au)
4. Cena do filme "Ensaio sobre a cegueira" de Fernando Meirelles, da obra de José Saramago

10/10/2010

REAVALIAÇÕES E RENÚNCIAS

REPUBLICAÇÃO: Resolvi republicar esta longa crônica, chamemo-la assim, por conta de um desses momentos de reflexão e desinteligências em que as respostas não vêm para aquelas mesmas perguntas que se perdem no vazio do insondável. A frase não é, para mim, de efeito...

Estava num momento de humildade e ansiedade, olhando para aquelas paredes brancas, sem nenhum atrativo. Havia que me consolar com algumas experiências, que foram tantas na minha vida profissional.
Lembro de Roberto, nome fictício, porque não poderia usar seu nome verdade.
Esse cara fora um caso excepcional de mudança de caráter e de rumo, eu sempre pensei assim.
Roberto fora um executivo de empresa multinacional que um dia "cansado de ser conduzido pela vida" decidiu abandonar a carreira vitoriosa passando a levar vida modesta no litoral paulista, embora desfrutasse de excelente situação financeira.
Lembro-me bem do relato que ouvi numa palestra, naquele dia que me escondi no fundo do modesto auditório, como se pudesse ser reconhecido por todos aqueles a quem não conhecia. E não me conheciam.
Uma certa presunção de minha parte porque, afinal, era gerente médio de multinacional. Bobagem.
A nova forma de viver adotada por ele tinha lá seus momentos de tédio, a despeito de ser ávido ledor e dispor de enorme disposição para apreciar o mar, as paisagens que descobria percorrendo todo o litoral paulista avançando para o norte com seu barco.
Certa feita, só, saiu pelo mar meio sem rumo para pescar. O sol do meio-dia estava muito quente, batendo forte em seu rosto. Sentia certo desconforto com aquele calor intenso, o balanço do barco lhe provocava enjoo, por isso meio arrependido por estar ali, naquele momento. Desviou-se para os intensos movimentos na vara de pesca presa numa saliência externa da cabina.
Um peixe de cerca de 60 centímetros mordera o anzol. Era o primeiro do dia. Sem muita dificuldade, o peixe foi trazido para o barco debatendo-se violentamente relutando à morte certa, posto num chão quente sob sol escaldante.
O peixe ferido querendo a vida, Roberto perturbado pelo sol intenso sobre sua cabeça. Uma leve tontura o prostrara. O enjoo se agravava, ele que superara esse sintoma havia muito depois do vexame numa excursão de alto nível num barco moderno.

Mar agitado, seu estômago não resistiu, resultando no vômito de vento que se prolongou por tempo suficiente para chamar atenção de outros executivos, obrigado a ouvir piadas. A reação de um executivo português debochado:“Estas a vomitar seus pecados”.

Fixando-se no movimento do peixe, sua cabeça começou a rodar. Parecia estar próximo de um desmaio. Com a sensação de estar também preso no anzol? Olhou para o mar e não o viu claramente. Quanto mais procurava enxergá-lo mais ele se transformava num ...deserto. As ondas além transformavam-se em dunas e a leve brisa em tempestade de areia violenta. No meio dela, parecia ver vultos humanos mal formados em movimentos apressados, parecendo acenar para ele. Em vias de perder o sentido, recostou-se na cabine do barco. O peixe debatia-se bravamente ao sol, mas dava agora sinais de sua morte iminente. Roberto voltou-se para ele como pôde, com cuidado livrou-o do anzol e o devolveu ao mar.
- Quem sabe ainda sobreviva, dissera confuso, com o estômago na boca. Veio-lhe a frase de Tolstoi em “Ana Karenina” que jamais esquecera: “Gostava de pescar a linha e parecia envaidecer-se com o fato de apreciar um entretenimento tão estúpido.”
Permanecendo quieto na cabina, bebendo água gelada, molhando a testa suada com ela, foi se recompondo. Uma hora depois, mais disposto, voltou ao controle do barco, retornando à terra, embora ainda tonto com o mar e o deserto que eclodira em sua mente.
A noite fora tranquila. Lá pelas tantas da madrugada, levantou-se e permaneceu na varanda ouvindo o marulho, recebendo no rosto, em cheio, a brisa refrescante de uma noite muito quente.
Mas, claro que a "miragem" do deserto lhe martelava a cabeça. Tudo bem que fora um mal-estar provocado pelo calor, pelo enjoo, pelo sol. Mas, porque a imagem do deserto, suas dunas ampliadas de ondas baixas e a tempestade de areia tão autênticas?
Passara, então, a fazer uma autocrítica. O que significava sua vida, desde que passara a residir no litoral, senão uma vida ociosa, mentalmente estéril, a caça predatória de peixes porque nem sempre os consumia? Afinal, não abominava a caça como esporte, a própria pesca esportiva, tão ridícula e as touradas?
A impressão que tivera então de si próprio é de que se encontrava num processo de decadência mental, porque vida interior ele não possuía nenhuma.
Em poucas palavras: o deserto que vira em sua quase insolação era rigorosamente ele próprio, sua alma clamando por mudanças. Voltou para dentro da sala confortável, entrou no pequeno escritório e consultou um mapa da África. Com o dedo "viajou" por todo o Deserto do Saara, começando pelo Atlântico Norte.
Lá estava o Marrocos e a cidade de Casablanca. Viajou mentalmente embarcando no filme do mesmo nome, que ajudou a celebrizá-la, Ingrid Bergman linda, jovem. Em seus ouvidos, a música do filme soava harmoniosa ("As time goes bye"), cantada por "Sam", até que "Rick" (Humphrey Bogart) melancólico o interrompeu. E nesse momento reencontrou sua ex-amada. Quem dera houvesse um bar como aquele, o "Rick’s Café Americain" do filme!
Decidira que em poucos dias viajaria para o Marrocos, não para encontrar o "Rick’s Café", uma figura de ficção, mas para chegar às margens do Deserto do Saara por aquele país. Viajaria de camelo, conheceria alguns oásis e a vida que neles existia.
Quem sabe, conforme ironicamente pensava, visse o mar no deserto, da mesma forma como vira o deserto no mar.

Dois meses depois, viajou para o Marrocos, rumando logo para Casablanca, a principal cidade do país, moderna, sem perder, mesmo com a forte influência européia, o timbre da cultura árabe. O cenário do filme jamais existira. Talvez nos bairros periféricos pobres afastados do centro da cidade poderia haver alguma semelhança. Só isso.


Uma breve troca de impressões no café do aeroporto de Casablanca com um turista chileno que voltava para o seu país, impressionado com o que vira em sua excursão ao Marrocos lhe alertara da possível decepção.
Dois dias depois viajou para a Tunísia, um país pequeno, pouco conhecido, mas com monumentos excepcionais. Gostou de Tunis. Comunicando-se em inglês, nada fácil num país que fala árabe e francês, conseguiu sobreviver com os resquícios da língua que sempre odiara nos tempos da escola. Hospedou-se num hotel quatro estrelas, simples e confortável com talento de três, porém

Uma tarde, desorientado e cansado de ouvir o som de múltiplos idiomas especialmente o árabe e o francês, parando para se recompor ao lado duma loja de tapetes num dos centros comerciais de Tunis, com muitas ruelas e dezenas de lojas, foi abordado por um dos comerciantes que falou em francês e depois um espanhol rudimentar, língua falada nesses centros comerciais, oferecendo-lhe seus artigos.

Ao saber que era o visitante, brasileiro, quis saber tudo do país, do futebol ao Carnaval e se era a festa pagã tão imoral como falavam e que vira algumas fotos numa revista. Cheio de “mulher pelada”. Roberto explicara que se tratava dum acontecimento com forte apelo turístico e que os abusos vinham diminuindo. O carnaval de rua era sobretudo uma festa do povo na qual se misturavam ricos e pobres que se deslumbrava com o luxo das fantasias e que as escolas eram constituídas de gente simples e sofrida das favelas, na maioria. Eram seus dias de extravasar e esquecer as dificuldades. Mas, que o Brasil não era só carnaval e futebol, havia cidades de grande projeção, como São Paulo.
Antes de sair, comentara que no dia seguinte, porque nada havia planejado, tentaria fazer uma breve excursão pelo deserto, fora do circuito turístico, passando algumas noites na sua imensidão, despojando-se quanto possível do seu “status”. O comerciante com muita simpatia, de pronto apontou para um homem próximo, de pé, do lado oposto da galeria, numa loja de artesanato, alto, pele morena queimada de sol, rosto fino, barba trabalhada. Roberto percebeu que ele os observava. O comerciante chamou-o e ele se aproximou.
- Ele é um excelente guia, você aprenderá muito com ele se quiser que ele o acompanhe. Isso se o senhor abrir mão do luxo. Pode confiar, ele organizará tudo. Ele conhece tudo. Ele speak English.
Ao encará-lo percebeu que seus olhos transmitiam algo diferente, talvez serenidade. Comunicava-se num inglês razoável. Quis saber Roberto de onde era, de que região, se tunisiano o seu possível guia, ele desconversou apenas fazendo um gesto girando a mão direita apontando o indicador para o alto, dando um sentido de que poderia ser daquela região. Revelara-se de poucas palavras.
Dois dias depois, preparado, com as informações precisas e a ajuda do guia taciturno aproximou-se do deserto do Saara enfrentando na viagem algo em torno de 800 quilômetros dentro de um jipão.

Embora existindo opções mais modernas, ao adentrarem no deserto, boa parte do trajeto foi vencido no dorso de camelos, assim preferira Roberto, esses animais admiráveis, mal humorados, nascidos para servir os habitantes e os visitantes do deserto.

Roberto passou a habitar uma tenda e lá, naquele ambiente tão precioso para os nativos, tão simples, convivendo com golfadas de vento forte e tempestades de areia, finíssima, começou a ter impressões do deserto, especialmente ouvindo o seu silêncio.
Numa noite fria do Saara depois de um dia de alta temperatura que o fizera suar em bicas, tivera a primeira sensação da imensidão do universo sem fim, sem começo, sem data, habitado no alto por milhões de corpos celestes. Como tudo aquilo poderia ser possível? Que forças administravam aquele universo cadenciado? Casualidades é que não poderiam ser. Um susto: sob aquela imensidão, tivera despertado, tão marcantemente, a consciência de sua mortalidade. Ou de sua imortalidade...
À medida que insistia em contemplar aquele paisagem, aquela formação de areia a perder de vista e especialmente o teto inatingível do deserto mais reforçava a idéia de sua fragilidade, de sua humilde condição humana. Com dificuldades de comunicação, tendo pouco contato com os demais habitantes, solitário, sentiu-se aliviado ao voltar, saindo do deserto com aquele seu guia que sempre estivera por perto e chegara para acompanhá-lo no retorno. Na viagem depois de um longo silêncio, já se aproximando de Tunis, Roberto comentou:
- Permanecer no deserto, no seu imenso silêncio e imensidão, fez-me mais humilde, mais resignado. Vou pensar muito no que vi e senti.
A resposta seca de seu guia:
- O primeiro passo para a sabedoria, porque você se despoja da vaidade e da arrogância mundanas que para nada servem, só atrapalham aquilo que você parece estar buscando.
- Mas o quê “parece” que eu estou buscando, eu não disse que estivesse buscando algo.
O guia manteve-se em silêncio, olhando a frente pelo parabrisa do veículo, sem se voltar deu uma resposta enigmática:
- Creio que um oásis verdadeiro em sua vida onde você se prostrará, nem tanto o mar e sua brisa, nem tanto o deserto e sua quentura.
Roberto ficara atônito com a resposta pela referência "ao mar", mas silenciou, até porque seu interlocutor fizera o mesmo. No dia em que Roberto se dispôs a voltar para o Brasil, esse seu guia, com a mesma atitude silenciosa despediu-se com alguma simpatia, falando em português, língua que desconhecia, uma única palavra: PAZ !

Roberto era alto, naquela manhã apresentara-se com barba trabalhada grisalha, cabelos também grisalhos, com fios ainda resistindo, rosto escurecido pelo sol, atrás de uma mesa simples, numa pequena sala de sociedade de bairro, propondo-se a falar para não mais do que 30 pessoas, algumas humildes que nas fábricas nas quais fora diretor jamais dele se aproximariam. Seu semblante apagara aquela imagem altiva e mesmo arrogante que transmitia nas fotos estampadas nos jornais e revistas de negócios de outros tempos.
Sua palestra fora até simples, enfatizando os aspectos ecológicos que cada um tinha o dever de se preocupar diante do enfraquecimento das potencialidades da Terra tal a devastação que se processava, o respeito aos animais que são seres vivos em evolução, a busca pela paz interior, meditar como forma de ampliar a consciência, melhorar como indivíduo e o próprio mundo.
Foi bastante didático. Fixou num tripé uma mapa da Europa e do norte da África que trouxera debaixo do braço e com uma varinha de bambu envernizada, parecendo parte de vara de pescar, explicou a localização do Marrocos e da Tunísia e circulou com o indicador todo o imenso deserto do Saara.
Encerrada a palestra, no momento das perguntas Roberto fora mais preciso nas suas ideias.

De uma mulher negra, simpática, cabelos desgrenhados:
- O seu destaque à palavra paz, deixou-me na dúvida. Qual o significado que ela contém, até pelo fato de seu guia do deserto, ao se despedir, tê-la pronunciado em português.
- Porque a paz contem perdão e amor. (Roberto falando de perdão e amor?). Talvez seja o perdão a maior de todas as virtudes, porque pode significar a resignação, até mesmo uma renúncia, diante de uma ofensa ou de uma traição. Vejam que a traição é de tal ordem devastadora, que muitos traidores são tão célebres quanto os traídos ilustres. O perdão sepulta o ódio, o rancor e a vingança, que são forças destrutivas que nos levam a contrair dívidas à luz da balança universal. Ofensor pela sua ofensa e ofendido pela vingança, têm a mesma culpa que permanece registrada na alma de cada um para ser purgada no momento propício. Só o perdão ameniza a culpa do ofensor que pode se arrepender. Eis porque se constitui num gesto tão difícil de ser praticado. O perdão é manifestação de amor. Um chavão muito utilizado em campanhas ou algo assim é profundamente verdadeiro: o amor é construtivo, a antítese do egoísmo, da indiferença e do ódio. Ele pode significar um gesto, um sorriso, uma palavra de estímulo e até mesmo renúncias para ser oferecido em toda a sua plenitude aos semelhantes. Aí está a paz. Não foi Cristo quem recomendou aos seus Apóstolos: encontrando alguém digno na cidade, ao "entrardes na casa, saudai-a dizendo: Paz seja nesta casa"? Vejam! PAZ como saudação cristã.

De um homem com fortes rugas no rosto, cabelos grisalhos, camisa vermelha desbotada:
- O Sr. falou muito em contemplação, meditação, etc. Sei de religiosos que passam a vida meditando. Tal prática não significa uma posição inútil em relação ao mundo que precisa tanto de ações objetivas?
- O homem é muito poderoso pela força de seu pensamento. Há alguns semelhantes nossos que são de extremo brilhantismo e desvendam coisas maravilhosas. O pensamento é uma força poderosa. Formularei uma imagem talvez até já tenham ouvido algo semelhante: já não passaram os senhores nas proximidades de um local fétido e, no meio da deterioração dos elementos, uma flor aparece linda, exalando um perfume que todos aspiraram com prazer e alívio, amenizando a podridão em volta? Todos perguntam: como é possível isso? Pois bem. Esses religiosos, com esse tipo de vida que escolheram, propagando pensamentos de paz, amor, caridade e perdão isolados em suas celas longínquas, são como o perfume da flor a que me referi, expandindo pelo mundo. Muitos captam essas vibrações que permanecem em sintonia própria na nossa esfera mental e, por vezes, como se falassem à própria consciência, mudam repentinamente para melhor a atitude do receptor em relação ao semelhante. Muitos são os perfumes que melhoram o mundo. A oração do devoto pode surtir o mesmo efeito. E infelizmente, os sentimentos de ódio, imagens de ódio, também, mas em sentido contrário.

De um jovem que ouvira tudo de pé, num canto do auditório, rosto redondo com aquele ar cético:
- Parece que, para buscar o autoconhecimento, é preciso ser rico. O Sr. fez uma viagem cara aos desertos. E para os que não têm dinheiro para essas viagens?
- Li em algum lugar uma fábula mais ou menos assim: o discípulo abordava seu mestre, um sábio, todos os dias, dizendo-lhe que queria conhecer a verdade. Depois de muita insistência, certo dia, o sábio convidou o discípulo para irem a uma lagoa próxima. Lá chegando, o sábio num gesto rápido levou a cabeça do discípulo para baixo da água deixando-o assim, por alguns instantes. Quando o discípulo se recompôs da surpresa, o mestre lhe perguntou: - O que você mais desejava quando estava com a cabeça sob a água? Ar, respirar, respirar, respondeu o discípulo ainda atordoado. Com aquela mesma intensidade de respirar deverá partir em busca da verdade, ensinou-lhe o mestre. Claro que esse tipo de "busca da verdade" escapa de nossa vontade imediata. Uma forma alternativa de conseguir alguma maturidade no caminho do conhecimento são exatamente as viagens aos locais conhecidos como sagrados ou julgados inspiradores. Pelas suas vibrações ou por nossa própria receptividade mental em lá estar, podem nos inspirar e nos abrir frestas importantes no nosso autoconhecimento. Mas, mesmo esse recurso é limitado. O aspirante prega a iluminação interior, o encontro da paz, mas num dado momento ele próprio não avança. As revelações interiores estancam. A partir daí, com todo o cuidado no rumo a seguir, talvez seja necessário buscá-la com a mesma intensidade que tinha o discípulo em respirar quando com a cabeça sob as águas do lago. E essa busca dispensa viagens exteriores, só interiores.

De um homem idoso, calvo e sorridente:
- O Senhor é um homem poderoso e rico. Por que agora assume posição tão modesta, vindo falar para pessoas tão simplórias, operários e operárias como nós?
- Certa vez, há muitos anos esbocei algumas poesias e, numa delas, muito antes de saber que seria um "poderoso" - para usar seu qualificativo - escrevi um verso com esta mensagem: "respeitemos o homem que é rei e modesto". Qual a primeira ou a principal das virtudes do ser humano? Amor ao próximo? A honestidade? A lealdade? A amizade? O altruísmo? Se fosse feita essa pergunta a qualquer dos senhores, talvez uma dessas ou todas as mencionadas fossem de pronto citadas. Mas, e a modéstia? Não seria, também, uma destacada virtude? A própria palavra vibra simplória: MODÉSTIA. Ela pode ser usada como algo de pouca expressão: "aquela casa é modesta". Mas, a sua existência como virtude humana, parece agregar um pouco de todas as outras: o amor ao próximo, porque a modéstia respeita o semelhante, a honestidade, porque a modéstia se encaminha para o desprendimento de certos valores normalmente aproveitados pela soberba, a lealdade e a amizade, porque a modéstia tende a não reconhecer a perfídia e defende o altruísmo, porque ela vê pelos seus próprios olhos um semelhante que pode necessitar de ajuda, sem esperar reconhecimento. Tanto que o dicionário Aurélio a define utilizando palavras como "simplicidade", "reserva", "pudor", "decência", "gravidade", "compostura". Ela contém um pouco de todas as outras virtudes ou tem afinidades com elas. Eis porque parece difícil ser-se modesto sempre, desprendido. Nos textos filosóficos a modéstia ocupa lugar especial. Assim, Jesus Cristo, no "Sermão da Montanha", na versão de São Mateus (5, 3), "abrindo a boca" disse: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus." Costuma ser aceito como correto significado para "pobres de espírito", os humildes. No "O Evangelho Segundo o Espiritismo" de Allan Kardec: "Por pobres de espírito, entretanto, Jesus não entende os tolos, mas os humildes, e diz que o Reino dos Céus é destes e não dos orgulhosos." Um dos significados de "humildade", no mesmo dicionário, é exatamente a modéstia. Mas, muitas vezes aquele humilde, desprovido de bens, não é necessariamente modesto, mas revoltado, amargo. Pode até ser compreensível esse estado destrutivo pela sua existência dura. A modéstia contempla, também, certa serenidade. Daí ser uma virtude tão excepcional. No "I Ching – O Livro das Mutações", um livro de conhecimento da antiga China, uma espécie de oráculo com tem um método próprio de consulta e há dificuldade de interpretação das mensagens formuladas, surgido "no período anterior à dinastia Chou (1.150-249 a. C.)", na tradução do alemão Richard Wilhelm (*), o hexagrama 15 denominado "modéstia", tem posição destacada: "O destino dos homens segue leis imutáveis que têm de ser cumpridas. Mas o homem tem o poder de moldar seu destino, na medida em que sua conduta o expõe à influência de forças benéficas ou destrutivas. Quando um homem está numa posição elevada e é modesto, ele brilha com a luz da sabedoria. Quando ele está numa posição inferior e é modesto, não pode ser ignorado". Disse tudo aquilo de memória. Essa é a modéstia que me empolga. Aquela que, em vez de enfraquecer, fortalece. Que não pode ser ignorada, porque sobretudo corajosa, um paradigma que às vezes incomoda os circunstantes. Ela é, pois, um referencial. E continuou, depois de um gole de água:
- Mas, o que parece certo é que a soberba é mais agressiva, mais ambiciosa, assustadora e predomina no mundo. Eu sei disso porque convivi nesse mundo de competição e posso dizer que combati a soberba com a soberba. Mas, os tempos mudaram. Sendo a soberba uma não virtude ela tende a manter as desigualdades subestimando ou minimizando as virtudes do respeito ao próximo, da honestidade, da lealdade, do altruísmo. A modéstia contrapõe-se à arrogância e à violência. Proponho, pois, um mundo "modesto"? Uma utopia? Trazer o céu para a terra? Não é bem isso. Seria uma impossibilidade. Sabemos que nosso mundo é naturalmente o mundo das desigualdades. Com ela, a modéstia, cultivada numa permanente autocrítica do indivíduo, possivelmente fizéssemos o mundo apenas um pouco menos desigual, um pouco menos doente. Com mais amor, mais amizade, mais lealdade, mais altruísmo.

Tudo aquilo Roberto dissera sem consultar nenhum texto. Essa agilidade mental poderia explicar sua ascensão profissional invejável.
Depois de uma pausa, olhando fixamente para seus ouvintes, em cada rosto, solenemente:
- Mas, não pensem os senhores que cheguei a esse nível de "modéstia". O que acabei de lhes relatar é apenas uma aspiração pessoal que tenho em mente. Não sei se chegarei um dia a tanto.
Esse foi o último comentário de Roberto.. Acenou para todos e exclamou: Paz! Ao sair foi rodeado pelos seus ouvintes, recebendo-os com um sorriso e apertos de mão.

Eu lá no fundo, perplexo com tudo aquilo, com a transformação daquele que fora espécie de ídolo no meio profissional, retirei-me cabisbaixo. Orgulhosinho ferido, havia uma dorzinha de cotovelo pelas minhas impossibilidades.

(*) Refere-se, creio, à edição da Editora “O Pensamento” – não houve questionamentos da platéia sobre detalhes do I Ching.

Fotos:
1. Mar (Google)
2. Casablanca – centro “Boulevard de Paris” (Wikipédia)
3. Mercado da Medina – Tunis / Tunísia (http://desciclo.pedia.ws/wiki/)
4. Camelos no Deserto do Sahara (http://ilustracoesbiblicas.blogspot.com/

03/10/2010

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE BEM-TE-VIS E MIMOS

A manhã começara mal-humorada
Não bastara o café adocicado
Algo no jornal me deprimira
Uma notícia cruel e malvada.

Mas, ai um bem-te-vi
Na janela me avisou que me vira
Eu também te vi, vigilante passarinho.



Diante da minha voz que se perde a um metro à frente do meu nariz, um apelo que se perde na areia fina do deserto que me perturba a alma, passei a ignorar as tragédias humanas nas quais se destaca a devastação ambiental e os maus tratos aos bichos. Se não ignorasse mais sentiria o murro no estômago.
Não me venham com essa de que o ser humano também sofre, é abandonado, as crianças se perdem, são molestadas. Essa é a tragédia humana que nada mais é do que o reflexo concreto de sua própria crueldade que não poupa nem os semelhantes. Ela se expande pelo que fazemos aos animais e à flora como uma nuvem espectral ampliada, captada pelas mentes inferiores.

Um desses dias em que não me senti confortável no desempenho do meu cotidiano referiu-se à notícia de que o bioma denominado “Cerrado”, aqui no Brasil, já foi devastado em 50%. Até 2004, 60 fornos de carvão – no que se converteu a vegetação do Cerrado – abasteciam siderúrgicas de Lagoa Santa, em Minas Gerais.”
É possível se imaginar uma coisa grotesca dessas?
O Cerrado, “pode ser chamado de “caixa d’água do continente sul-americano”, por captar águas pluviais que abastecem nascentes e formam rios nas bacias do Amazonas, São Francisco, Paraná e Tocantins...” (1)
E embora os tais fornos fossem desativados, a agropecuária constitui-se numa ameaça ao desmatamento continuado do Cerrado e o risco à fauna rica que lá (sobre) vive.
Essas barbaridades não são um despautério apenas brasileiro, porque
“Olhando uma imagem de satélite da Rússia, pode-se ver uma vasta extensão de terra áridas onde há décadas havia uma vegetação luxuriante. Eu me refiro à República da Calmúquia, que abriga o primeiro deserto produzido pela ação humana da Europa e reconhecido como tal nos anos 90.” (2)
Isso para ficar apenas num caso no Exterior para ser “solidário” com nossa inconseqüência continuada.

Mas, a despeito disso e da minha voz tão sem eco, já fiz campanha e continuo fazendo, de enfeitar as estradas na sua área divisória de pistas, como é o caso da maioria das estradas do Estado de São Paulo, plantando em espaços regulares mudas de hibisco (mimo) nas suas várias cores como forma de, também, “humanizar” o trajeto.

Mas, o que me levou a nocaute naquela manhã foi esta notícia:
“Uma queimada para renovação de pasto no Pantanal de Mato Grosso do Sul carbonizou um número ainda não estimado de ninhos com filhotes de araras, papagaios, periquitos e maritacas que, nesta época do ano, estão nos primeiros dias de vida. Também morreram queimados mamíferos, cobras e lagartos, conforme constataram soldados da Polícia Militar Ambiental em uma área de 2240 hectares consumidas pelo fogo.”
Diz a mais a notícia que a queimada de mato seco ficou sem controle, esclarecendo que “a maior destruição da fauna e da flora aconteceu em áreas de preservação permanente”
O proprietário, mais que irresponsável, foi multado em R$2 milhões, “a maior multa aplicada a uma única ocorrência do gênero pelo Estado até agora.” (3)

Pasto, sempre o pasto! O Universal Channel num documentário recente mostrou como são preparados os hambúrgueres nos Estados Unidos. Claro que a par da matança monstruoso dos bois, a mistura do produto contém toda aquela gordura, aquele sebo misturado à carne moída. Pois são esses “ingredientes” que dão o sabor ao hambúrguer. Argh!

Naquela manhã depressiva, relembrando os estragos do fogo criminoso na reserva ambiental de Mato Grosso do Sul, me questionando, afinal, o que eu fazia por aqui, neste mundo entre o sublime e o pavoroso, cada vez mais, sem nenhuma vontade de renunciar a todos os meus valores e tarefas, porém, um pequeno evento me alertou: um bem-te-vi empoleirou-se na janela do meu escritório no 5° andar e pipilou aquele som estridente que lhe batizou: bem-te-vi!
Eu me volto e dou nos seus olhinhos entre as tiras da cortina.
Creio que há algum ninho nos vãos de ar condicionado, por ali.
A vida ainda se renova, bem vi. Até quando, meu querido amarelinho gritador, até quando?


Rodapé
1. Jornal “O Estado de São Paulo” de 02.09.2010
2. Idem de 03.10.2010, artigo de Kwame Anthony Appiah, “Pecados de longo Alcance”.
3. Idem de 29.09.2010

Imagens / Fotos:
i.) Mapa IBGE: localização dos biomas no território brasileiro (clicando no mapa, dá-se a ampliação)
2.) Hibisco (mimo) - fonte: http://multiflorafernandopolis.blogspot.com/
3.) Bem-te-vi - fonte: http://flog.clickgratis.com.br/