17/10/2010

DOS LIVROS QUE NÃO CONSEGUI (AINDA?) LER. E os já lidos

Há livros que vou e volto e não consigo ir em frente na leitura até o epílogo.
Acho que a cultura perdida num livro não lido pode estar em outro qualquer mais palatável, menos rebuscado.
Há autores que sobem tanto o degrau da intelectualidade que são, para mim, inatingíveis. E livros inatingíveis quando assim os considero, não precisam ser lidos.


Aqui me refiro às obras seguintes entre outras:
"Os Sertões" de Euclides da Cunha
"Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa 

"Raízes do Brasil" de Sergio Buarque de Holanda
Friedrich Nietzsche
"Ulisses" de James Joyce
"1984" de George Orwell
"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley

"O Presidente Negro" de Monteiro Lobato


Euclides

Um que estou “devendo” há décadas é o “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Talvez, numa fila imaginária de livros que “preciso” ler eu o inclua para um dia iniciá-lo a partir do capítulo “O Homem”. A edição que me encara desafiante é de 1952 e pertenceu ao meu pai. Lá no canto da abertura do livro, sua assinatura inconfundível.


“Os Sertões”



Depois de décadas ensaiando, consegui ler o grande livro de Euclides da Cunha. Gostei muito.
Tenho que reconhecer, porém, que perde um pouco o prazer da leitura com o vocabulário rebuscadíssimo adotado pelo autor. Vejam esta frase:
“Estas marchavam lutando. Dado um último choque partindo o círculo assaltante, começou a desfilar pelas veredas ladeirantes, sem que se lobrigasse, neste momento gravíssimo, o mais sério das guerras, o mais breve resquício de preceitos táticos, onde avulta a clássica formatura em escalões, permitindo às unidades combatentes alternarem-se na repulsa.”
Eu acredito que a erudição euclidiana tinha a ver com o seu tempo, início do século 20 (a 1ª edição é de 1902), época em os intelectuais constituíam um grupo selecionado. Assim, o livro fora dirigido a ele, a esse grupo, então.
Quanto à “campanha de Canudos” são surpreendentes suas consequências: do lado das forças oficiais destacadas para derrubar a cidadela, registra Euclides, até junho de 1897, a morte de 85 soldados e 315 feridos. Depois até o final da campanha, outubro de 1897, a contagem dá-se por “baixas” (feridos e mortos) atingindo 2038. Entre as baixas e mortos, muitos oficiais.
“Canudos não se rendeu”.
Antônio Conselheiro não foi aprisionado. Morrera pouco antes da destruição do seu reduto, em 27 de setembro, possivelmente de anemia, fraqueza física com uma cruz de prata sob seu corpo. Seu cadáver foi exumado e sua cabeça decepada com troféu.
Muitos foram os jagunços, defensores de Canudos, mortos. A contagem é parcial, até junho de 1897, 535.
Canudos congregava fieis de Antônio Conselheiro, vivendo em extrema miséria. Crítico da república recém-instalada, Antônio Conselheiro teria sido considerado perigosa ameaça a ela dai a campanha para sua destruição.
Euclides dá demonstrações de que sempre esteve ao lado das forças oficiais, mas não deixa de observar nas “duas linhas” finais da obra observa: “É que não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades”.
Henry Maudsley (1835–1918) foi um pioneiro da psiquiatria inglesa, com importantes contribuições à noção de responsabilidade penal e conceito de sociopatia (distúrbio mental pelo qual o indivíduo apresenta conduta antissocial), aliás, defendia exatamente a noção irresponsabilidade, insensibilidade ou imbecilidade moral, sem nenhuma outra alteração das faculdades mentais observadas em alguns infratores o conduziu à noção de "determinação genética" denominda por ele como (tyranny of organisation) tirania de organização. (Fonte: Wikipédia).
(O nome do psiquiatra inglês Maudsley por aqui é sempre lembrado pela sua citação em “Os Sertões”).

Mas, claro que existem os crimes das nacionalidades. Embora sujeita a pesquisa antes de Euclides, um dos maiores exemplos desses crimes está no nazismo, no fascismo e recentemente ditadores que defendem sua permanência vitalícia no poder e, para tanto, assassinam seus concidadãos que protestam.


Grande SER-TÃO: Veredas



A 1ª edição da obra de Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas” completou meio século neste ano, em maio, salvo algum breve engano.
Ouvi falar da obra, há algumas décadas, talvez umas três. Chega uma idade que não se sabe por onde anda o tempo vivido ou perdido. O passado fica meio sem referências no tempo.
Havia na TV Gazeta um programa dominical apresentado pelo professor Ignácio da Silva Telles no qual eram explanados temas filosóficos, de reflexão e atualidades.
Certa feita fez o professor referência ao “Grande Sertão: Veredas”, então não tão conhecido, não tão lido e não tão reverenciado como agora e há bom tempo se dá.
Já pelo título, se bem me lembro, o citado professor interpretava um significado a mais nele, algo transcendente. Assim: “Grande SER-TÃO: Veredas”.
Teria o professor destacado que o Ser, tão indecifrável como é o ser humano está sempre diante de suas veredas – sua senda, seus estreitos caminhos.
Não demoraria muito a obter o livro. Começo a ler e nada. A linguagem sertaneja, rebuscada me levava à sonolência.
Era o ex-jagunço Riobaldo narrando sua historia. Desisti logo, parando numa frase que me marcaria depois:
“Viver é muito perigoso...Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar”.
Ademais, ao viver “a cada dia a gente aprende uma qualidade nova de medo”.
Meio envergonhado, tempos depois, voltei ao livro. Já bastava não ter conseguido ir em frente com “Os Sertões” de Euclides da Cunha? (...depois fui!)
Numa dada página, a leitura deslancha e se torna empolgante.
Logo, surge a figura de Diadorim. Ora, o jagunço Riobaldo pelo que relata, vai tendo sentimentos amorosos por outro jagunço, o Diadorim?
Uma tendência assim estranha, comprometedora, em pleno sertão?
“Bem-querer de minha mulher foi o que me auxiliou, reza dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é minha neblina...”
Enquanto a trama segue num crescendo desse amor, uma reflexão mística sobre Deus, segundo Riobaldo:
“... um outro doutor (...) discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra.”
E sobre a saudade? Diz Riobaldo: “Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço toda saudade é uma espécie de velhice.”
Não sei qual saudade será essa externada pelo autor, essa palavra tão saudada da língua portuguesa.
Talvez, Guimarães Rosa se refira à saudade nostálgica, saudade triste, aquela que traz um sentimento de distância do seu solo ou de episódio fundamental da vida que se desvaneceu pelas veredas. Tanto que Riobaldo pergunta no fim da história: “O senhor acha que a vida é tristonha?”
A narração de Riobaldo vai revelando lances de amor entre ele e Diadorim. Num momento da história, ele relata a seguinte declaração a Diadorim:
“Três-tantos impossível, que eu descuidei e falei. - ... Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos...” Diadorim, então, “se pôs para trás, só assustado – o senhor não fala sério.”
Mas, nas lutas com a jagunçada, Diadorim é morto a facadas mas também mata sem oponente o “judas” Hermógenes. Então, “Que trouxessem o corpo daquele rapaz moço, vistoso, o dos olhos verdes...”
Seu corpo ia ser lavado já que embebido de sangue, mas quando despido, Diadorim “era o corpo de uma mulher, moça perfeita...”Estarreci”, lembra Riobaldo. “A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d´arma, da coronha (...) Diadorim era a mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero”
O amor impossível!
Permito-me divagar, já me escusando perante o grande autor: Se no decorrer da narrativa, Riobaldo, cabra-macho se apaixonara por Diadorim outro cabra-macho, a despeito de seu corpo vistoso e seus olhos verdes, o amor de ambos explodiria se tempo houvesse para que a realidade aparecesse - uma mulher “como o sol que acende a água”.
Mas, assim não se deu, nada de final feliz, sabem por quê?
Porque Diadorim, Maria Deodorina, “que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor."
E porque “o sertão é do tamanho do mundo”. O ser-tão na sua essência em que difere do mundo? Daí as veredas.


Gravuras extraídas da edição de "Os Sertões" de 1953 - Livraria Francisco Alves. Autor: artisdta Ib Andersen)


“Raízes do Brasil”

Sérgio Buarque de Holanda, edição da Companhia das Letras de 2004, com 220 páginas (a 1ª edição é de 1936).

Trata-se de uma obra que exige concentração mais apurada na leitura de tal modo que se obtenha o preciso sentido dos conceitos emitidos pelo autor. Creio mesmo que seria bom que fizesse uma segunda leitura do livro  como preciso fazer de “Os Sertões” de Euclides – compromisso que estou em débito.

A referência às raízes do Brasil, significa que o autor voltou aos tempos da colonização portuguesa e bom que se diga que não é ele crítico na medida em que afirma que não é (sempre) possível subestimar a “grandeza dos esforços” de Portugal na exploração das novas terras, embora não nega que tudo se fez “com desleixo e certo abandono”.

Mais, a frente, ao tratar da “persistência da lavoura de tipo predatório”, a exemplo do que denunciara 
Euclides em “Os Sertões”, não deixa o Autor de destacar o uso do fogo na agricultura quando chega aos detalhes de explanar sobre o uso da enxada e do arado:

“Mostra-se nesse trabalho como o recurso às queimadas deve parecer aos colonos estabelecidos em mata virgem de uma patente necessidade que não lhes ocorre, sequer, a lembrança de outros métodos de desbravamento”.

A prática do fogo permanece até hoje, como se sabe, devastando largas extensões de florestas brasileiras.

No livro ainda se descobre que em terras paulistas a língua falada era, predominantemente, a indígena segundo, entre outras fontes citadas pelo autor, as observações do padre Antonio Vieira: “É certo que as famílias dos portugueses e índios de São Paulo, estão tão ligadas hoje umas às outras, que as mulheres e os filhos se criam mística e domesticamente, e a língua que as ditas famílias se fala é a dos índios, e a portuguesa a vão os meninos aprender à escola.”

Aponta no meio do capítulo “novos tempos”, que autores românticos tornaram “possível a criação de um mundo fora do mundo, o amor às letras não tardou em instituir um derivativo cômodo para o horror à nossa realidade cotidiana. Não reagiu contra ela, de uma reação sã e fecunda, não tratou de corrigi-la ou dominá-la; esqueceu-a, simplesmente, ou detestou-a, provocando desencantos precoces e ilusões de maturidade. Machado de Assis foi a flor dessa planta de estufa.”
[Ora, o escritor é assim, tem o direito de sair da realidade e criar situações novas, ficções, inspiradas, suas, ascender à poesia que o afastam do horror da realidade. Toda a literatura de Machado, que está aí até hoje e sempre reverenciada talvez se enfraquecesse se fizesse referência ou descrevesse, por exemplo, à imundice que saltava pelas ruas do Rio de Janeiro. Muitos horrores se foram e Machado de Assis, ficou].

Sobre o Segundo Reinado e da Primeira República, “as constituições feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e de oligarquias, são fenômeno corrente em toda a história da America do Sul” – o significado de tal afirmação no fundo se refere “às primazias das conveniências particulares sobre os interesses de ordem coletiva...”
[Com efetividade o fenômeno do descumprimento da lei e da Constituição por aqueles que detêm influência por causa do seu vigor econômico quando não parte do poder político é uma realidade. Que o digam as milhares de ações que se avolumam nos tribunais há anos e anos e ainda hoje. Todavia, quanto aos tribunais, constata-se que há posicionamentos mais rigorosos  que podem mudar o perfil de país de tal maneira que se consiga a “ordem” proclamada na bandeira].      

Há um sentido crítico à “cordialidade” que sempre prevaleceu por aqui e até hoje visitantes de outros países ressaltam essa característica brasileira que nem sempre seria saudável quando se trata de relações impessoais, do Estado impessoal – separação do público e do privado. A observação é minha trazendo esse aspecto para o presente: o denominado “processo do mensalão” não tem algo da permanência do “estado cordial”?

Mas, ressalte-se que esse conceito, no livro, não é muito claro.

Bem, paro por aqui, reafirmando a dificuldade do texto do autor Sergio Buarque de Holanda em sua obra “Raízes do Brasil”, um clássico muito citado mas tenho dúvidas se lido na mesma proporção.



Nietzsche

Mas, o autor que mais me incomoda é Friedrich Nietzsche, apenas Nietzsche, para os mais “íntimos”. Tenho aqui comigo, duas edições de “Assim Falou (ou falava) Zaratustra” que não consigo sair das primeiras páginas, pelo seu texto rebuscado, frases que se perdem numa ideia sem sentido.
Na introdução da edição da “Editora Martin Claret” (2007), de autoria de Scarlett Marton, dissera o próprio Nietzsche sobre esse livro:
“É um livro incompreensível, porque remete exclusivamente a experiência que não partilho com ninguém”. E acrescenta: “Se pudesse dar-lhe uma ideia de meu sentimento de solidão! Nem entre os vivos nem entre os mortos tenho alguém de quem me sinta próximo.”
“Assim Falava Zaratustra” é um livro que tem lá suas parábolas e tenta substituir a figura sempre presente de Deus, pela do Super-Homem:
“Eu vos apresento o Super-homem! O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super-homem o sentido da terra.”
E sobre Deus:
“Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfemos. Agora, o mais espantoso é blasfemar contra a terra, e ter em maior conta as entranhas do inescrutável do que o sentido da terra.”
Nietzsche na sua maturidade pelos 44 anos de idade, num grave colapso mental, perdeu a razão. Atribui-se sua loucura ao avanço da sífilis, que adquirira na juventude. Com a doença “viveu” por cerca de 11 anos.
No capítulo “Mater Dolorosa” do velho livro (1948) “A Marcha do Tempo” de Stefan Zweig é relatado o drama de sua mãe, cuidando do doente famoso no dia-a-dia:
“Vê-se agora uma velhinha a conduzir, de vez em quando, o seu doente, como a um urso grande e pesadão, pelas ruas e a longos passeios. Afim (sic) de o distrair, recita-lhe intermináveis poesias, que ele escuta em torpor. Guia-o jeitosamente; fá-lo desviar-se das pessoas que o fitam curiosas e dos cavalos que detesta. Sente-se feliz toda vez que consegue reconduzi-lo à casa, sem que ele desperte a curiosidade popular com sua “voz muito alta” (como a senhora delicadamente classifica seus berros selvagens)”.
A mesma autora da “introdução” à edição referida linhas acima, conclui:
“Pensadores, literatos, jornalistas e homens políticos teriam nele um ponto de referência – atacando ou defendendo sua obra, reivindicando ou exorcizando seu pensamento. Quem julgou compreendê-lo equivocou-se a seu respeito; quem não compreendeu, julgou-o equivocado.”
Esse é Nietzsche!
Aonde entro eu nessa história, que sequer consigo ler “Assim falava Zaratustra? – e se conseguir um dia já me darei por satisfeito por ter lido pelo menos uma obra de Nietzsche.

Joyce
Estão aqui comigo as 900 páginas de “Ulisses” de James Joyce, esta edição com tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. (Editora Objetiva – 2007).
Não há lista de obras “universais” que não esteja “Ulisses” a encimando como leitura obrigatória. A obra de Joyce constitui-se uma paródia à obra clássica “A Odisséia” de Homero.
Cheguei na página 261 e pouco captei. A introdução de cada capítulo explicando onde se insere a saga de Ulisses na obra de Joyce situa-se no final do volume e, do mesmo modo, dezenas de citações dispersas no texto, que só são compreendidas se buscadas as referências também no final do grosso volume.
Melhor estariam no rodapé de cada página.
Esse modo de apresentação cansa e dispersa.
Nesta fase, tendo lido ¼ do livro, já estou em vias de deixá-lo de lado.
Dói a consciência mas seu estilo e essas referências inseridas no final do livro (“Notas”) são, para mim, um entrave.

"1984" e "Admirável mundo novo"

Estes tempos são empolgantes e não deixam de ser preocupantes. Submeto, então, a resenha dos dois livros para reflexão daqueles leitores que não os conhecem e mesmo àqueles que os conhecem.
Haverá pontos que tocam nos dias atuais: o cerceamento da informação em muitas regiões, o controle sobre os atos dos cidadãos, o consumo e a proliferação das drogas, pornografia, como forma de controlar a mente, a “alma”...

"1984" de George Orwell

Escrito no fim da década de 40, ainda sob a influência dos horrores dos crimes nazistas e mesmo do stalinismo, engendrou Orwell um mundo no qual o ser humano estaria controlado, manipulado e submisso aos desígnios do "Grande Irmão".
O sistema era constituído por um "tratamento psiquiátrico" aos que se rebelavam e aos que caiam "em desgraça", ameaça que expandia a autocensura, uma voz insuportável que reprimia a manifestação, já que eram nebulosos os limites permissíveis da expressão do pensamento. Pois, o herói de "1984" não tremeu diante de um simples volume de folhas em branco e, em pânico, começou a escrever?
Ao homem tornara-se proibido indagar e mesmo amar. Apagara-se para sempre sua interioridade que, alimentada, poderia levá-lo a pensar "inadequadamente" numa existência transcendente. Esse espaço interior fora preenchido pela máxima presente sempre: "O Grande Irmão zela por ti". Orwell não dá esperança a Winston, o herói "dissidente". Submetido a todas as torturas e sofrimentos, "espontaneamente", com "convicção", se convence que "dois e dois são cinco" (o seu axioma antes fora: "A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Admitindo-se isto, tudo o mais decorre") e no auge de sua "recuperação" passa a amar o "Grande Irmão".
Uma tênue esperança alimentada por Winston até ser "recuperado" era a revolta dos "proles", uma sociedade à margem do poder e desorganizada, mas também controlada por intensa espionagem e, quanto aos divertimentos, um dos mais comuns era a proliferação de filmes pornográficos. Os "proles", todavia, no percurso todo do livro, permaneceram alienados e impotentes.

É inequívoco que o quadro negro pintado por Orwell se assentara num clima político de extrema violência, embora hoje ainda haja o autoritarismo desmedido como forma de busca ou da manutenção do poder, além de outras formas de deturpação (a subnutrição e a fome, a baixa educação, especialmente) que ameaçam a vida humana e a desqualificam.
Os abusos dos grandes irmãos políticos que fazem da política o meio da ambição e do acúmulo de riquezas sem a preocupação em melhorar a vida dos...”proles”.
Assim, os eventos de "1984" podem até ser identificados em pontos demarcados do planeta, hoje e no passado próximo, nos quais a desobediência ou a contestação podem significar a privação da liberdade individual ou risco à própria vida.
Hoje, a televisão tem muita força de comunicação e pode – já não ocorre? - desviar a atenção, a inteligência. Afinal, não é ela que projeta a violência, constrói e destrói ídolos, nos faz pensar ou nos condiciona de certa forma segundo os desígnios de poucos?
De um modo geral, há sim manifestações de "não cultura".
Afinal, por outra, não há uma crise nas religiões? Algumas não se excedem, diminuindo a capacidade individual, a vontade dos seus seguidores?
Estejamos atentos, pois.

"Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley

E o que dizer do instigante "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, consumidor declarado de LSD?
Trata-se de uma obra muito atual, mesmo escrita há quase 70 anos, precisamente em 1932.
O denominado "mundo novo "situa-se no ano 600 da era de Ford (referindo-se a Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística nos Estados Unidos). Feitas as contas, chega-se ao ano de 2.500 da nossa era.
Mas, do que trata o livro de Huxley ?
Um novo mundo onde os seres humanos eram produzidos em série em laboratórios e, pela manipulação nos embriões, pertenceriam à elite dominante ou simplesmente à massa que fazia trabalhos braçais ou desagradáveis, o controle da individualidade pelo condicionamento no que denominou Centro de Incubação. Nesses centros de condicionamento, certas "mensagens" eram repetidas milhares de vezes, para que se constituíssem verdadeiros valores da vida.
Mesmo sendo "imoral" a procriação natural, havendo por isso cuidados especialíssimos para evitar a gravidez, havia no "novo mundo" total liberdade sexual. A monogamia era objeto de repúdio e deboche. O casamento e o sentimento pais/filhos, uma vergonha.
O "soma" era a droga contra todos os males da "alma": da angústia, da depressão, da tristeza, da dúvida. Uma dose da droga anestesiava a mente do usuário, sobrevindo um estado de euforia sem os malestares de outras drogas, quando passasse seu efeito.
Num diálogo entre um selvagem – assim considerado porque nascera naturalmente – e o dirigente máximo da história de Huxley, à indagação da existência de Deus, este dissera que talvez Ele existisse, mas manifestando-se como "ausência; como se não existisse absolutamente". Porque Deus "não é compatível com as máquinas, a medicina científica e a felicidade universal".


O PRESIDENTE NEGRO de Monteiro Lobato


Por ocasião da última campanha presidencial americana na qual se sobressaíra Barack Hussein Obama e depois eleito Presidente, foi lembrada por aqui uma antiga obra de Monteiro Lobato, “O Presidente Negro”, escrita em 1926.
“Por linhas tortas”, previra Lobato a possibilidade de elegerem os Estados Unidos, naqueles idos de forte segregação racial, um presidente negro.
A história se desenrola no ano de 2228.
Para tal vaticínio, se valera Lobato dos seguintes argumentos:
. Os partidos Republicano e Democrata uniram-se como Partido Masculino contando com o apoio dos negros;
. O Partido Feminino contava com a liderança de “miss” Evelyn Astor, rica de todos os dotes de Inteligência, de cultura e da “maquiavélica sagacidade feminina”, se juntava um elemento perturbador no novo jogo político presidencial: “a sua rara beleza”.
Ademais, “nesse ano de 2228 já a mulher vencera o seu estágio de inferioridade política e cultural...”
Com a divisão dos brancos, já que os negros não apoiaram o Partido Masculino, foi eleito seu líder Jim Roy, com 54 milhões de votos. E assim, fora eleito o primeiro presidente negro; “miss” Astor obtivera 50,5 milhões de votos e Kerlog 50 milhões. “Apesar de disporem de um eleitorado quase o dobro do contrário, os brancos perderiam a presidência graças à cisão entre os dois sexos provocado pelo “elvinismo.” (de “miss” Elvin, na história feminista radical).
Claro que esse “erro” de exatos 200 anos em suas previsões, deve-se ao fato de que, nos tempos em que Lobato escrevera a história, o preconceito racial nos Estado Unidos era exacerbado. Essa intolerância se manifestara de modo intenso na década de 60, relembrando-se os conflitos violentos havidos em 1962, na cidade de Los Angeles nos quais negros praticaram saques, depredações e agressões, depois da absolvição de policiais que covardemente haviam espancado um negro a ponto de provocar fratura craniana. A absolvição dos policiais fora decidida por um júri composto de brancos.
Dentre todos esses conflitos e mortes, mencione-se o assassinato de Martin Luther King, ativista negro, religioso e pacifista, então com forte influência política, morto em 04.04.1968. Há dúvidas sobre sua morte, o mandante e as motivações; há até mesmo menção a uma “teoria conspiratória”. Ele tinha um sonho:
“Eu tenho um sonho de que um dia esta nação vai se levantar e viver o verdadeiro significado de sua crença: 'Consideramos essas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados iguais'. Eu tenho um sonho de que um dia, nas montanhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentarem-se juntos à mesa da fraternidade. Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter.”
Registre-se que na época da morte de Luther King já vigorava nos Estados Unidos, desde 1964, a lei dos direitos civis – de cuja luta participara – que proibia discriminação no que se refere à religião, à nacionalidade, inclusive no âmbito profissional. Pouco tempo depois, a proibição de discriminação se estendeu a indivíduos com mais de 40 anos e de práticas salariais diferenciadas entre homens e mulheres, que exerçam trabalhos iguais ou semelhantes.
Tudo isso sistematizado na denominada “ação afirmativa”, que garantiria “oportunidades iguais de emprego entre os americanos”, indica que os negros de lá, de um modo ou outro, conquistaram e conquistam oportunidades efetivas de ascensão social e profissional. No cinema, os negros deixaram de ser coadjuvantes para se tornarem protagonistas. O cinema é uma espécie de vitrina da sociedade americana o que de bom e ruim. Mas, esses avanços não significam que se estabeleceu o paraíso com a “ação afirmativa”.
O fato significativo é que a vitória do mulato Barack Obama, com o nome que tem à presidência dos Estados Unidos, foi sufragado por brancos, negros, hispânicos, incluindo nomes influentes. Todos acreditavam que a vitória de Obama significaria uma guinada necessária nos padrões americanos. A realização do sonho do Martin Luther King. Os Estados Unidos neste ano de 2011 ainda enfrenta sérios problemas econômicos fatos que deslustram o governo de Obama.
O nosso Monteiro Lobato que “previra” a possibilidade de um presidente negro nos Estados Unidos para daqui a dois séculos não poderia, no seu tempo de tantos conflitos raciais, imaginar todas essas mudanças, o avanço tecnológico vertiginoso e a “inacreditável” internet.
E sob as condições daqueles tempos engendrara na sua história um crime dos brancos para neutralizar o poder negro. Mas, essa patifaria não comentarei por irrelevante e por ter sido imaginado num outro contexto. No atual estágio, seria impensável qualquer ato que maculasse esse processo de conquistas e de iguailadades, mesmo se considerando a trágica violência destes tempos.


Brown

Li há algum tempo o livro “comercial” de Dan Brown, “O Símbolo Perdido”. Não gostei!
O que há de interessante são as referências positivas à maçonaria no desenvolvimento da trama, além de enaltecer possíveis mensagens cifradas e herméticas que estariam presente no texto da Bíblia, cujos sentidos haveriam que ser objeto de meditação para melhor interpretá-las.
(Sobre esse tema, tenho a crônica “Intuição desvendada” de 20.09.2009).
Como é do estilo do autor, a história se desenrola sob muitos símbolos e simbolismos.
Vale-se o autor Brown de conceitos até elementares de origem esotérica, como aquele que diz “como é encima é embaixo”, significando que o Universo “lá no alto” com seus fenômenos mal compreendidos, inclui a Terra e nós que fazemos parte dela, aliás, este planeta um corpo minúsculo nessa imensidão que se perde sem fim numa noite estrelada.
Curioso que quando escrevia a crônica “Stephen W. Hawking e minhas implicâncias” de 05.09.2010 usava esse mesmo conceito (“como é encima é embaixo”). Mas, num dado momento deu-se um colapso “inexplicável” no computador e o texto foi todo perdido. Para mim, a primeira versão é sempre a melhor. Reescrevi tudo de novo perdendo qualidade e sem usar mais esse conceito.
São aquelas coisas difíceis de entender. Pensei que, com a perda do texto já integralmente escrito, em fase de “salvamento”, não devesse usar mais essa expressão porque não estaria preparado para me referir sobre ela do alto da minha ignorância.
Mas, eis aí.

Lidos ou quase:

• “Memorial do Convento” de José Saramago – português de Portugal, meio rebuscado. Para quem gosta do autor e do seu estilo.

• “A Cabana” de William P. Young

Comecei a ler este livro e não o conclui. O começo fora eletrizante, mas depois de ter o personagem principal recebido um bilhete do "Papai", algumas páginas à frente desisti da leitura. E do livro, é claro. É, todavia, um best seller.


• “1822” de Laurentino Gomes

Um bom livro muito documentado que causa perplexidade ao revelar fatos incríveis da nossa história.

Outros livros

Pipas

Ler livros que caem no gosto popular, podem significar decepções. É que geralmente há pieguices que encobrem um nível de mediocridade na idéia central da história.
Livro com essa característica é o “Caçador de Pipas” de Khaled Hosseini que vendeu e vende ainda aos milhares.
A história se desenvolve num ritmo vibrante. No seu âmago o personagem principal é um covarde que não consegue se redimir nem mesmo quando, delirando, corre atrás de uma pipa que surge pelos ares no final da história.
Inclui uma luta severa – um dos momentos mais destacados do livro – entre esse personagem e um nazista ligado aos talibans, cujo final, inverossímil, poderia ter sido inspirado num filme americano B, daqueles em que John Wayne salva a mocinha da boca do leão ou é salvo pela cavalaria num massacre aos índios. Aliás, o livro explica que esses filmes eram assistidos nos bons tempos do Afeganistão.
O mal do país é, pois, caracterizado por um alemão nazista que, aceito pelos talibans pratica todas as maldades. Afinal, o quê pretendera o autor com esse desvio? Deixar a ideia de que os talibans não eram tão crueis e que a truculência era um fato isolado no país ficando por conta de um nazista tresloucado o serviço sujo? Ou quisera comparar os talibans aos nazistas? Ou quisera ficar bem com os talibans?
Por tudo isso o livro, para mim, é ruim, embora a história seja contada num ritmo vibrante, tanto que é (ou foi) um best seller.
Outro dia o filme baseado nesse livro passou na TV. Tentei assisti-lo mas também não suportei esperar o final. Coisas de best seller.

Cegueira

O best seller "Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago também faço restrições.
Porque, para mostrar a miséria humana, não será preciso nestes tempos e há muito, que todos fiquem cegos. Essa a proposta do autor. Mas, as misérias inimagináveis em todos os escalões sociais se dão entre os que bem enxergam. Nesse passo, para diferenciar ou tentar inseri-las num contexto extremo, sem mais nem menos todos ficam cegos. Somente a heroína, é claro, não é afetada.
E por aí vai a história descrevendo os horrores sob a cegueira. Se assistirei ao filme de Fernando Meirelles inspirado no livro? Dificilmente.

Ressalvo de Saramago, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” escrito em 1991 que lançara, então, Maria Magdalena como mulher de Jesus, mas uma prostituta recuperada, na melhor doutrina da Igreja, bem antes do best seller “O Código Da Vinci” de Dan Brown. Como se sabe esse e outros autores erigem Maria Magdalena, não como prostituta, mas a discípula preferida e angelical de Jesus.

Tenho que explicar, sem qualquer presunção até porque Saramago é Nobel, essas minhas impressões tão negativas sobre esses livros: talvez tenha sido influenciado pelos livros de Dostoievski que lera na mesma época: “Os Imãos Karamazovi” e “O Idiota”.
É injusto comparar, mas Dostoievski está disponível há mais de 150 anos. O autor russo tende a rebaixar outros quando suas obras são lembradas. O que fazer?

Imagens / Fotos:

1. Euclides da Cunha, estampa do livro "Os Sertões", edição de 1952 (Livraria Francisco Alves);
2. Nietzsche ao lado de sua genitora (Wikipédia - Google);
3. Retrato de James Joyce (ebooks.adelaide.edu.au)
4. Cena do filme "Ensaio sobre a cegueira" de Fernando Meirelles, da obra de José Saramago

3 comentários:

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Milton, já li muito sobre Euclides da Cunha, mas o livro Os Sertões... ainda estou pelas veredas de Guimarães. Pode? Vi o filme, mas o livro...
Uma dica, leia a Consciência de Zeno, de Italo Svevo e para alegrar a alma Dom Camilo e seu Pequeno Mundo ou outro da série de Giovanni Guaresqui (só dica). No Seminário Seráfico São Fidélis tem esses clássicos à disposição dos leitores com comprovantes de endereço e cadastro.
Um abraço e feliz natal.
Camilo.

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Milton, já li muito sobre Euclides da Cunha, mas o livro Os Sertões... ainda estou pelas veredas de Guimarães. Pode? Vi o filme, mas o livro...
Uma dica, leia a Consciência de Zeno, de Italo Svevo e para alegrar a alma Dom Camilo e seu Pequeno Mundo ou outro da série de Giovanni Guaresqui (só dica). No Seminário Seráfico São Fidélis tem esses clássicos à disposição dos leitores com comprovantes de endereço e cadastro.
Um abraço e feliz natal.
Camilo.

Camilo disse...

Milton, tem também O Efeito Espacial de 53 páginas, muito bom para leitor vagabundo como eu e o autor sou eu mesmo. A fonte é tamanho 14 e custa...R$14,00.