30/10/2011

ONDE ESTAVA DEUS?

Esta crônica já publicada em outros espaços, até mesmo no meu “Artigos” um blog no qual exponho minha face de zanga por tudo o que vejo em minha volta, não concordo e me revolto (já disse, a minha “face 2”). (1).
Quantas vezes vacilo me questionando o que espero dessas minhas opiniões irresignadas. Mas, quando chega o fim de semana ou uma hora qualquer de alguma reflexão resisto à preguiça e escrevo, se não para ninguém, pelo menos para mim. (2)
Lá fora o meu deserto. E esbravejo.


Volto à crônica. Ela se identifica com este “Temas”, bem mais acessado que aqueloutro.

No imenso “Guerra e Paz”, Leon Tolstoi, ao descrever a barbárie das batalhas de conquista de Napoleão – o romance é todo centrado na invasão à Rússia – defende que também a História não se rege apenas pela só ação do livre-arbítrio do homem, mas por certas leis imperceptíveis. Daí para a História, diz ele, “também é necessário renunciar à liberdade da qual temos consciência e reconhecer uma dependência que não sentimos” e que a História não investiga os “elementos homogêneos, infinitesimais que conduzem as massas”.
Essa crença do autor russo é preocupante ao indicar que os horrores da guerra teriam uma causa transcendente, além das meras “causas imediatas e próximas” como adota a História nos livros para explicar as conflagrações.
Há tempos, vinha meditando sobre tais ideias e me perguntava o que diria Tolstoi sobre a ascensão de Hitler e do nazismo na Alemanha que além das conquistas territoriais, patrocinaram a matança de milhões de judeus – um povo que provém dos remotos tempos bíblicos - algumas minorias e milhões de soldados e civis também vítimas do conflito sem contar a gigantesca destruição de cidades inteiras.
Há uns anos, indagações surpreendentes fez o Papa Bento XVI ao visitar o campo de concentração em Auschwitz, Polônia, local de extermínio e tortura nazista onde exalam os horrores do sofrimento a maioria judia:
- “Onde estava Deus naqueles dias? Por que ele se manteve em silêncio? Como ele permitiu essa opressão sem fim, esse triunfo do mal?” perguntara o papa. E acrescentaria ser “impossível adivinhar o plano de Deus.”
Esse desabafo papal, digamos assim, incomodou-me porque me levara de novo às ideias de Tolstoi. O horror nazista não fora, então, a mera expressão do livre-arbítrio de um louco que convenceu quase um país inteiro do acerto de suas ações criminosas e, pior, amealhou adeptos até mesmo fora dele? Quais leis conduziram, então, a mão assassina do nazismo?
E as bombas atômicas americanas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945 que decretaram a rendição do Japão sob os efeitos de escombros inimagináveis e milhares de mortos? “Impossível adivinhar o plano de Deus”, disse o Papa.
Há um livro que me impressionou, “Mistério e Magias do Tibete”, de Chiang Sing que me levou mesmo a escrever, com base em revelações trazidas na obra, artigo de natureza política explanando sobre a invasão chinesa naquele país.
Essa autora se aproxima de Tolstoi ao revelar que as Divindades “quando a Humanidade estaciona e é incapaz de evoluir de acordo com as leis do Amor” abre a jaula onde mantidos espíritos maléficos, “potências das Trevas”, que encarnam entre os homens: “São elas que fazem as guerras, que desencadeiam os crimes e as baixas paixões, os déspotas e perseguidores”. Nessa jaula estão os Herodes, os Atilas, os Neros, os papa perversos, “todos os que oprimiram e ensanguentaram a terra.” (3)
E eu incluo Hitler nessa súcia.
E nesse passo, “quando a Humanidade para no meio do caminho evolutivo, é preciso sacudi-la, agitá-la, como se faz com um rebanho indolente.” E como decorrência, instala-se o pânico universal por conta “dessas almas más” e “então, a evolução se precipita, os fracos morrem, os fortes lutam e alcançam a evolução”.
Há aqui que se fazer concessões à doutrina reencarnacionista.
Olho para as estrelas à noite e constato a minha pequenez, a pequenez do planeta e me recolho sem pensar nessa imensidão celeste, algo como um primata do início da evolução que não entendia sequer o fogo e a água. Entendo hoje?

As fotos do supertelescópio Hubble dão a dimensão artística do universo. O que mais nos resta dessa imensidão insondável que não seja a ignorância?

Acho que nessa nossa pequenez mental, olhando para o chão, ciscando, desrespeitando o equilíbrio do planeta com a devastação ambiental impiedosa que se processa, pode significar por conta dos denominados “fenômenos naturais” cada vez mais destruidores, gradual depuração.
E então, não há como invocar Deus pelo que advier daí: “Onde estava Ele?”.
Melhor: “Onde estamos nós hoje neste mundo pequeno que estamos devastando de modo implacável, irresponsável, lançando sem cessar, por essas ações, tal qual bombas com seus efeitos irreparáveis. A linguagem que prevalece acima de tudo é a do dinheiro, da corrupção, do egoismo. Por isso, não precisamos que novas "potências das trevas" sejam desenjauladas. De modo inconsequente estamos fazendo o seu papel.

Referências:
(1) Meu blog “Artigos” de 12.10.2009 e também no www.votebrasil.com
(2) “Preguiça” – “Sete Pecados Capitais” de 16.01.2011
(3) “Tibet: o que teme a China” no meu blog “Artigos” e no www.votebrasil.com. de 16.04.2009. V. também “Mistérios e Magias do Tibet” 27.02.2011

Fotos /Imagens
(1) Google
(2) Hubble: "Pillar of creation"
(3) Fottus.com/sem-categoria/apocalipse

16/10/2011

MINHA ENTREVISTA COM SÓCRATES

Há muito, bem me lembro, ameacei estudar filosofia pura numa faculdade do interior de São Paulo. Lá estive mas essa ideia não foi avante porque teria que viajar com alguma regularidade havendo dificuldades em atender meus compromissos profissionais.
Há pouco me debrucei sobre alguns episódios da vida de Sócrates até porque me chamara a atenção comentário de Will Durant no capítulo que trata de Platão. Num certo trecho:
“Mas parece-nos que em boa medida Sócrates deve sua fama à fértil imaginação de Platão que empregava o magnífico perambulador como alto-falante de sua própria filosofia. O quanto do Sócrates de Platão foi realmente Sócrates, é uma coisa que provavelmente nunca o saberemos. Tomemos pois Platão como significado ao mesmo tempo a si próprio e a Sócrates”. (1)
Claro que essa observação me decepcionou um pouco, embora Platão ao se referir ao seu mestre, diria que Sócrates fora “o mais sábio e o mais justo dos homens.” (2)


Já tarde da noite, na minha poltrona, cochilando, sem conseguir me fixar mais na leitura, do modo mais inesperado fiquei frente a frente com uma das imagens mais conhecidas do filósofo. Afinal, com dúvidas, tinha o que lhe indagar. Não me assustei e nem me envaideci pela honra, afinal era Sócrates na sua extrema simplicidade. Seguiu-se o seguinte diálogo:


Sócrates: Eis-me aqui, o que deseja? Novamente me condenar?

- Me diga, Sócrates, com a sua fama merecida de sábio e suas palestras públicas como pôde ser acusado de corromper a juventude e difundir ideias contrárias à religião tradicional?

Sócrates: Foi um certo Meleto quem comandou essas acusações. Pelo jeito ele e seus aliados foram muito convincentes, porque fui condenado à morte bebendo cicuta. Eu tinha inimigos. (3)

- Além dessa falsidade e da injustiça se bem sei, e como sei pouco! – parece que sua sapiência, afirmada pelo oráculo de Delfos (*) que ninguém o superava, também incomodava seus acusadores...

Sócrates: Sim, é verdade, mas na minha defesa eu deixara claro que “o verdadeiro saber consiste em saber que não se sabe”. E mais, proclamara: “Ó homens, é muito sábio entre vós aquele que, igualmente a Sócrates, tenha admitido que sua sabedoria não possui valor nenhum”. Sobre a justiça, nem sempre ela se manifesta, muitos são os que lavam as mãos.

- Mas, eminente e imortal filósofo, seus discípulos propuseram pagar pela sua liberdade...

Sócrates: É verdade, mas disse a Críton que numa outra qualquer cidade poderia ouvir: “eis um velho que, já com pouco tempo para viver e por ser de tal maneira apaixonado pela vida, não hesitou, a fim de conservá-la, em transgredir as leis mais sagradas”. Disse isso a Críton, mas me referia na verdade às próprias cominações que eu mesmo enfrentaria com a fuga.

- Mas, a vida não se sobrepõe a esses comentários populares? Como ressaltou em sua defesa o senhor tinha família e três filhos para criar, um já crescido e duas crianças. Não haveria aí um compromisso com a vida?

Sócrates: Essa sua indagação parece conduzir a minha resignação à morte à qual fui condenado como se fosse um suicídio. Mas, eu disse a Cebes que não aceitava o suicídio, porque “os deuses cuidam dos homens e que os homens são posses dos deuses”. Por isso, “é necessário aguardar que o deus nos envie uma ordem formal para sairmos da vida, como a que hoje me envia.” Mas, disse também que “um homem que se insurge no momento da morte não ama a sabedoria, mas sim o seu corpo, e esse homem amará também as riquezas, as honrarias...”

- Em alguns momentos, acreditando que a alma dos justos tem um lugar entre os justos, seus iguais, não foi o senhor um pouco cruel em se referir ao corpo, ao físico?

Sócrates: O corpo nos enche de amores, de desejos, de receios, de mil ilusões e de toda classe de tolices...”Quem faz nascer as guerras, as revoltas e os combates? Nada mais que o corpo, com todas as suas paixões.” - Essas “guerras têm origem apenas no desejo de acumular riquezas e somos obrigados a acumulá-las, para servi-lo, como escravos, em suas necessidades.”

- O senhor defendia o renascimento (reencarnação)...

Sócrates: Sempre acreditei que os vivos nascem dos mortos, como estes daqueles, prova incontestável de que as almas dos mortos existem em algum lugar, de que retornam à vida. Quando voltam à vida elas já têm conhecimentos.

- O senhor usufrui ao lado dos seus iguais a tranquilidade de Hades – o mundo invisível dos mortos, como esperava, pelo seu modo justo de viver? Como espírito puro, amante da filosofia? Houve a esperada libertação?

Sócrates: Tenho o que mereço. Nada mais poderei dizer porque não autorizado. Sugiro que medite sobre isso. Acho mesmo que o senhor já tem as respostas...mesmo dos renascimentos.

- Estou um pouco confuso. Parece que o senhor, nas explanações a Cebes, aceita a metempsicose e ao mesmo tempo assume posições que a contradizem: sim, o senhor dissera que os descomedidos sem pudor, penetram nos corpos de asnos e animais semelhantes e os que cometeram injustiças, tiranias e rapinagens, animam os corpos de lobos, gaviões, falcões...os animais são bons respeitando os seus instintos, penso, mas, então, a contradição: em outro momento o senhor defendeu que se a alma maculada, impura, se afasta do corpo, é ela carregada com esse peso e, com medo do mundo invisível, do Hades, se torna visível, vagando em volta dos túmulos, dos cemitérios, fantasmas medonhos, espectros assustadores...

Sócrates: Sim, há os perdidos, fora do mundo invisível que o temem. No que se refere à metempsicose, seria bom conversar com Platão, mas sei que essa missão é impossível.
Estarei me retirando agora. Meu tempo está esgotado.

Pude ainda dizer-lhe antes de acordar:

- Perdoe-me pela minha ignorância, grande filósofo – que até agora nos incita à reflexão. Espero que alguém mais instruído me interpele para esclarecer esses e outros pontos que ainda tenho dúvidas.

Sua imagem foi desaparecendo devagar. Mas, pude ver, num último instante, que naquela sua imagem severa, esculpida, seus olhos límpidos haviam brilhado.


Referências:

(1) Will Durant, “Os grandes pensadores” – Cia. Ed. Nacional (1969);
(2) Platão, “Os pensadores” – Nova Cultural (1999):
“Apologia de Sócrates”
“Criton”
“Fédon”
(3) Veneno extraído de ervas


Imagem:

Busto de Sócrates, escultura grega do século I a.C (Metropolitan Museum of Art – Nova York)

Acima, quadro de Jacquer-Louis David, “A morte de Sócrates” (1787). Sócrates rodeado por seus discípulos – Platão sentado desconsolado na beira da cama e Críton com a mão sobre o joelho do filósofo. Sócrates aponta a mão esquerda, o indicador, para o alto.

(*) Mais informações sobre o Oráculo de Delfos, v. crônica "Valores e pensamentos que desafiam (e até incomodam)" de 03.03.2012.

02/10/2011

O VÍCIO DE FUMAR (De quando o médico foi a vítima)

Não serei condescendente!
Muitos são os fumantes que atribuem ao cigarro que sustentam entre os dedos indicador e médio, amarelados pela nicotina, mero “habito de fumar”. (*)
Por favor, que hábito nada! É vício puro. Porque o fumante que um dia assume a luta para deixar de fumar é um sofredor: a fumaça do cigarro por perto o seduz ao penetrar em suas narinas, o cigarro por perto é a sua tentação irresistível. A abstinência para muitos e sofrimento tal qual qualquer outra droga.
Quanto a mim, em quantas reuniões empresariais naqueles dias em que o cigarro era “habito”, não saí delas com a roupa malcheirosa...e dor de cabeça.


Ao longo dos anos em que trabalhei na indústria automobilística, em duas delas, convivi com um mesmo médico – já devo ter me referido a ele em alguma outra crônica - que, sem nenhuma influência da profissão, tinha ideias interessantes.
Por exemplo: estudante que era de temas espirituais, fazendo até palestras e conferências, costumava dizer que há dois tipos de homens: o ser humano inteligente, subjetivo, intuitivo e o "humanóide", aquele objetivista, materialista que faz da vida, sobretudo, uma operação matemática.
Os subjetivistas, para ficar no menos, segundo ele, seriam aqueles que espontaneamente prestam atenção a uma árvore, na beleza de uma planta, de uma flor, na amizade de um cão, possuem interioridade onde cabem certos valores éticos dos quais não abrem mão. Poetas. Os outros, isto é, os "humanóides", mesmo com elevada cultura, olhariam uma árvore pelo seu valor econômico, são indiferentes a certas belezas que o mundo oferece, porque não mensuráveis economicamente, calculistas, monetaristas, mantendo apenas os princípios básicos daqueles mesmos valores éticos, porque vivem em sociedade e dela dependem. Pouca ou nenhuma “interioridade” possuem porque eles são do mundo e a ele pertencem. Preocupam-se em acumular riquezas como se fossem imortais.
Evidentemente que essa classificação feita pelo meu amigo médico é muito radical, porque todos nós temos nossas contradições, claro que alguns mais que os outros.
O homem é contraditório e ponto final. Claro que também esse médico, meu amigo.

Pois bem, esse médico era fumante. Para “negar” o seu vício, chegou mesmo a escrever um artigo no jornalzinho da empresa explanando sobre os perigos do fumo para a saúde, destacando os malefícios aos pulmões: "O grande problema não está na absorção da nicotina e sim na inalação dos demais produtos do fumo que realizam uma obstrução nos brônquios e alvéolos pulmonares trazendo portanto uma diminuição na circulação cardiopulmonar (chamada pequena circulação)", escrevera ele.

Alguns anos depois, recebendo proposta vantajosa de outra empresa, viu-se instado a fazer um exame radiográfico de rotina. A chapa revelou um ponto suspeito exatamente...nos seus pulmões.
A despeito dessa tumor, conforme se confirmou depois, foi admitido na outra empresa. Fez uma cirurgia, sendo necessário extirpar parte do órgão afetado. Recomendação básica de seus (colegas) médicos: jamais voltar a fumar !
Voltou à vida normal, com alguma moderação. Atendeu prontamente ao conselho vital: nunca mais fumou !
Que eu saiba, depois que abandonou o cigarro, nunca teve desejos secretos de fumar, nem "delírios" pela abrupta ausência da nicotina. Talvez porque houvesse agora uma imperiosa necessidade em largar o vício: a preservação da vida. Claro que cada um reage de uma maneira, mas como o cigarro reage igualmente sobre todos, fumantes e não fumantes, dia virá que tal vício será definitivamente uma postura anti-social, "marginal" (já não é?).
E nessa nova situação de sobrevivência, mais comedido, esse meu amigo viveu ainda muitos anos, tendo ainda prestado bons serviços à área de medicina do trabalho.
Tenho certeza que, esteja em que plano estiver, esse meu amigo não estará magoado pela confidência que agora faço sobre sua experiência. Porque, antes de tudo, ele não era um "humanóide", apenas um ser humano com suas contradições e fraquezas, como nós todos que, felizmente, apesar dos pesares, deixou de fumar e sobreviveu, certamente, alguns anos a mais.

Legendas:

(*) Esta crônica não é nova, mas não perdeu a atualidade. Já escrevi sobre o vício do cigarro no portal www.votebrasil.com e no blog http://martinsmilton2.blogspot.com (“A (in) tolerância ao tabagismo” de 14.06.2009)
(1) Cigarros Macedônia, velha marca, quebra-peitos e detonadores, como tantas outras, de milhares de pulmões
(2) Figura das drogas contidas no cigarro. Fonte: portaldoprofessor.mec.gov.br

(3) Imagem impressionante num maço de cigarros "Free" advertindo sobre os seus efeitos maléficos à saúde dos pulmões.