16/10/2011

MINHA ENTREVISTA COM SÓCRATES

Há muito, bem me lembro, ameacei estudar filosofia pura numa faculdade do interior de São Paulo. Lá estive mas essa ideia não foi avante porque teria que viajar com alguma regularidade havendo dificuldades em atender meus compromissos profissionais.
Há pouco me debrucei sobre alguns episódios da vida de Sócrates até porque me chamara a atenção comentário de Will Durant no capítulo que trata de Platão. Num certo trecho:
“Mas parece-nos que em boa medida Sócrates deve sua fama à fértil imaginação de Platão que empregava o magnífico perambulador como alto-falante de sua própria filosofia. O quanto do Sócrates de Platão foi realmente Sócrates, é uma coisa que provavelmente nunca o saberemos. Tomemos pois Platão como significado ao mesmo tempo a si próprio e a Sócrates”. (1)
Claro que essa observação me decepcionou um pouco, embora Platão ao se referir ao seu mestre, diria que Sócrates fora “o mais sábio e o mais justo dos homens.” (2)


Já tarde da noite, na minha poltrona, cochilando, sem conseguir me fixar mais na leitura, do modo mais inesperado fiquei frente a frente com uma das imagens mais conhecidas do filósofo. Afinal, com dúvidas, tinha o que lhe indagar. Não me assustei e nem me envaideci pela honra, afinal era Sócrates na sua extrema simplicidade. Seguiu-se o seguinte diálogo:

Sócrates: Eis-me aqui, o que deseja? Novamente me condenar?

- Me diga, Sócrates, com a sua fama merecida de sábio e suas palestras públicas como pôde ser acusado de corromper a juventude e difundir ideias contrárias à religião tradicional?

Sócrates: Foi um certo Meleto quem comandou essas acusações. Pelo jeito ele e seus aliados foram muito convincentes, porque fui condenado à morte bebendo cicuta. Eu tinha inimigos. (3)

- Além dessa falsidade e da injustiça se bem sei, e como sei pouco! – parece que sua sapiência, afirmada pelo oráculo de Delfos (*) que ninguém o superava, também incomodava seus acusadores...

Sócrates: Sim, é verdade, mas na minha defesa eu deixara claro que “o verdadeiro saber consiste em saber que não se sabe”. E mais, proclamara: “Ó homens, é muito sábio entre vós aquele que, igualmente a Sócrates, tenha admitido que sua sabedoria não possui valor nenhum”. Sobre a justiça, nem sempre ela se manifesta, muitos são os que lavam as mãos.

- Mas, eminente e imortal filósofo, seus discípulos propuseram pagar pela sua liberdade...

Sócrates: É verdade, mas disse a Críton que numa outra qualquer cidade poderia ouvir: “eis um velho que, já com pouco tempo para viver e por ser de tal maneira apaixonado pela vida, não hesitou, a fim de conservá-la, em transgredir as leis mais sagradas”. Disse isso a Críton, mas me referia na verdade às próprias cominações que eu mesmo enfrentaria com a fuga.

- Mas, a vida não se sobrepõe a esses comentários populares? Como ressaltou em sua defesa o senhor tinha família e três filhos para criar, um já crescido e duas crianças. Não haveria aí um compromisso com a vida?

Sócrates: Essa sua indagação parece conduzir a minha resignação à morte à qual fui condenado como se fosse um suicídio. Mas, eu disse a Cebes que não aceitava o suicídio, porque “os deuses cuidam dos homens e que os homens são posses dos deuses”. Por isso, “é necessário aguardar que o deus nos envie uma ordem formal para sairmos da vida, como a que hoje me envia.” Mas, disse também que “um homem que se insurge no momento da morte não ama a sabedoria, mas sim o seu corpo, e esse homem amará também as riquezas, as honrarias...”

- Em alguns momentos, acreditando que a alma dos justos tem um lugar entre os justos, seus iguais, não foi o senhor um pouco cruel em se referir ao corpo, ao físico?

Sócrates: O corpo nos enche de amores, de desejos, de receios, de mil ilusões e de toda classe de tolices...”Quem faz nascer as guerras, as revoltas e os combates? Nada mais que o corpo, com todas as suas paixões.” - Essas “guerras têm origem apenas no desejo de acumular riquezas e somos obrigados a acumulá-las, para servi-lo, como escravos, em suas necessidades.”

- O senhor defendia o renascimento (reencarnação)...

Sócrates: Sempre acreditei que os vivos nascem dos mortos, como estes daqueles, prova incontestável de que as almas dos mortos existem em algum lugar, de que retornam à vida. Quando voltam à vida elas já têm conhecimentos.

- O senhor usufrui ao lado dos seus iguais a tranquilidade de Hades – o mundo invisível dos mortos, como esperava, pelo seu modo justo de viver? Como espírito puro, amante da filosofia? Houve a esperada libertação?

Sócrates: Tenho o que mereço. Nada mais poderei dizer porque não autorizado. Sugiro que medite sobre isso.

- Estou um pouco confuso. Parece que o senhor, nas explanações a Cebes, aceita a metempsicose e ao mesmo tempo assume posições que a contradizem: sim, o senhor dissera que os descomedidos sem pudor, penetram nos corpos de asnos e animais semelhantes e os que cometeram injustiças, tiranias e rapinagens, animam os corpos de lobos, gaviões, falcões...os animais são bons respeitando os seus instintos, penso, mas, então, a contradição: em outro momento o senhor defendeu que se a alma maculada, impura, se afasta do corpo, é ela carregada com esse peso e, com medo do mundo invisível, do Hades, se torna visível, vagando em volta dos túmulos, dos cemitérios, fantasmas medonhos, espectros assustadores...

Sócrates: Sim, há os perdidos, fora do mundo invisível que o temem. No que se refere à metempsicose, seria bom conversar com Platão, mas sei que essa missão é impossível.

- Insisto: as almas que se dedicaram à injustiça, à tirania, e às rapinagens não renasceriam, em vez de  em corpos de lobos e de gaviões, em corpos humanos com traumas e deficiências?

Sócrates:  Acho mesmo que o senhor já tem as respostas...mesmo dos renascimentos.
Estarei me retirando agora. Meu tempo está esgotado.

Pude ainda dizer-lhe antes de acordar:

- Perdoe-me pela minha ignorância, grande filósofo – que até agora nos incita à reflexão. Espero que alguém mais instruído me interpele para esclarecer esses e outros pontos que ainda tenho dúvidas.

Sua imagem foi desaparecendo devagar. Mas, pude ver, num último instante, que naquela sua imagem severa, esculpida, seus olhos límpidos haviam brilhado.


Referências:

(1) Will Durant, “Os grandes pensadores” – Cia. Ed. Nacional (1969);
(2) Platão, “Os pensadores” – Nova Cultural (1999):
“Apologia de Sócrates”
“Criton”
“Fédon”
(3) Veneno extraído de ervas


Imagem:

Busto de Sócrates, escultura grega do século I a.C (Metropolitan Museum of Art – Nova York)

Acima, quadro de Jacquer-Louis David, “A morte de Sócrates” (1787). Sócrates rodeado por seus discípulos – Platão sentado desconsolado na beira da cama e Críton com a mão sobre o joelho do filósofo. Sócrates aponta a mão esquerda, o indicador, para o alto.

(*) Mais informações sobre o Oráculo de Delfos, v. crônica "Valores e pensamentos que desafiam (e até incomodam)" de 03.03.2012.

3 comentários:

ॐ Shirley ॐ disse...

Oi, Mílton, que grande privilégio. Entrevistar Sócrates não é para qualquer mortal,rs... Muito bom o seu texto. Abraços!

Henrique da Costa e Costa disse...

DR Milton parabéns muito bom o ensaio , aparentemente reflete seu pensamento do retorno do homem apos morte que e um grande segredo , que saberemos e esqueceremos permanecendo a duvida , como tantas que cercam a nossa existência , algumas delas que vem com intensidade na adolecencia e se vão agora que estou mais perto da morte , onde a cicuta vem diariamente nas atitudes de familiares e de amigos.

Fuad Sayar disse...


“A filosofia é o tempo capturado no pensamento”. (Hegel)
Caro Amigo,
No seu cochilo, você capturou tudo o tinha pensado sobre a filosofia de Sócrates. Parabéns, excelente entrevista.