CRÔNICA
Chaminé de Capuava - Sto. André/Mauá
Morávamos no ABC, entre São Caetano e Santo André; nos últimos anos, num bairro bom, arborizado, de Santo André.
Quando me desliguei da última multinacional automobilística "da vida", advoguei em Santo André e nas demais cidades do ABC por uns três anos.
Pelos lados da avenida Industrial, uma paralela à nossa rua, mas bem lá embaixo, beirando as linhas do trem, havia indústrias de pneus e química que vertiam de vez em quando forte poluição noturna.
Numa madrugada, nas primeiras horas, sentiu-se uma núvem de poluição extrema, simplesmente irrespirável, sufocante.
Nós e os vizinhos saimos à rua perplexos com a dificuldade de respirar naquela hora noite adentro. Aqueles comentários, "como isso é possível?", "isso não pode continuar!"
Todos com lenço molhado cobrindo o nariz.
Ora, duvidareis, mas pela manhã encontraram-se passarinhos mortos!
Da janela de trás do sobrado, víamos ao longe a Refinaria de Capuava, que fica entre Santo André e Mauá, a tocha de sua chaminé que seria um sistema de segurança para queima de gases excedentes evitando a liberação direta na atmosfera.
Advogando com dificuldades, porque começado do zero, sentindo essa poluição, havia um desejo nosso de irmos para o interior.
E isso ocorreu um dia, pelos idos de 1985, ao remeter currículo em resposta a um anúncio fechado que se referia à minha especialidade.
A empresa, descobrimos nos contatos, era de Piracicaba.
Deu-se a contratação e mudamos para cá, longe da poluição do ABC e um certo encanto com um ambiente novo, numa cidade que crescia. Arborizada. Naqueles dias, havia pequena boiada que transitava por perto.
Toda a família de um modo ou outro se adaptou levando a vida pra frente. E longe da poluição.
Tantos anos depois, uma pesquisa não tão divulgada, mas divulgada pelo jornal "O Estado" de 6 de abril último, revelou o "ar poluído até no Interior".
E o comentário explica nas primeiras linhas:
"Uma pesquisa do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP) revelou que o ar do interior paulista pode ser pior que o da capital. Isso porque, segundo o estudo conduzido pela química Aleinnys Yera, pesticidas associados ao risco de câncer foram detectados na zona agrícola de Piracicaba em concentração superior à registrada na cidade de São Paulo e no polo petroquímico de Capuava, entre Mauá e Santo André. E chama a atenção o fato de as substâncias prejudiciais à saúde terem sido encontradas tanto na zona rural como nas áreas urbana e industrial.
O trabalho identificou em Piracicaba um nível mais alto de atrazina, um composto usado para controle de pragas nas culturas de cana-de-açúcar."
Claro que na região de Capuava outros compostos prejudiciais foram detectados, incluíndo os proibidos, mas ao me deparar com a poluição irradiada em Piracicaba, a surpresa foi desagradável, um quadro de perplexidade. Porque em sua volta hà o cultivo da cana de açúcar.
E havíamos fugido, de certo modo, da chaminé de Capuava, aquela vela gigante...
E é legítima a pergunta: desde quando se dá em Piracicaba a incidência desses compostos químicos prejudiciais que se expandem tanto pelas zonas rural como urbana?
Desde sempre?
Essa resposta não virá. Depois de quatro décadas, respirando inseticida na brisa piracicabana vamos sobrevivendo sem saber se a sobrevivência já foi abreviada.
NOTA DE DIVULGAÇÃO
DE SANTO ANDRÉ A PIRACICABA. A POLUIÇÃO SEM CONTROLE
Uma crônica
O dia em que descubrimos que em Piracicaba, ingerior de SP, a poluição e tão ou mais perversa do que nas imediações da Refinaria de Capuava em Santo André/Mauá.
Com a chaminé da Refinaria, vista da janela de trás do sobrado, aquela "vela" acessa de dia e de noite era a imagem da poluição descontrolada.
A poluição foi uma das causas do nosso interesse em sair do ABC.
E isso aconteceu. Eis que, depois de 40 anos, descobrimos que Piracicaba, no "interiorzão" de São Paulo a poluição é severa em níveis equivalentes a Capuava!
Acessar: https://martinsmilton.blogspot.com/2026/04/de-santo-andre-piracicaba-poluicao-sem.html
