29/03/2009

POETAS

EXPLICAÇÃO

Há anos, escrevi uma série de crônicas sobre “tipos notáveis” que conheci, que soube da história e alguns inventei a partir de fragmentos de fatos "reais".
Entre os "tipos notáveis", insere-se "O Solitário" que tem muito de delírio e nos seus discursos, a despeito de sua vida incomum, um modo de encontrar inspirações, as respostas que dá não são conclusivas, significando imensa dificuldade para compreender esta existência de nexos, conexos e desconexos.
Também entre os notáveis, o relato em "O deserto e o mar". Esses "tipos" estão publicados aqui.
Os "poetas" estão, também, entre os "tipos notáveis".
São crônicas longas que podem desincentivar a leitura mas afirmo, como já se disse, que não houve tempo de serem mais curtas.


I – Poeta falsificado que rima rosa com prosa.


Vivia-se naqueles tempos mágicos em que não se falava de abominações como pedofilia e outras aberrações humanas de hoje. Não havia preocupação com a devastação ambiental. Os tempos eram mais lúcidos e limpos.

No domingo, as missas eram até obrigatórias. A das 10h40 na matriz mais ainda porque desfilavam garotas perfumadas e encantadoras. E que não fumavam...

E nesses tempos, havia espaço para a boemia. Para se ser boêmio, havia que se ter uma certa indiferença com o dia-a-dia da vida, isto é, não estar muito preocupado com a manhã seguinte, com o emprego (o “trampo”), com o patrão.

Se essas preocupações batessem, já por volta da meia noite, não seria o indivíduo um boêmio, mas um notívago que na manhã do mesmo dia, estaria acordando cedo, bocejando sem parar e, pior, ter que dar conta do batente e ouvir as ordens do patrão.

Pois a convivência com esse tipo de figuras, naqueles tempos em que os poetas de botequim rimavam mais ‘rosa’ com ‘prosa’ e não ‘nexo’ com ‘sexo’, havia um grupo misto de garotos e garotas que frequentava uma pizzaria bem em frente do maior colégio da cidade, do outro lado da avenida e, sentados num banco de cimento nos fundos do salão, punham-se, depois de nacos de pizza devorados, algumas doses de cerveja ou conhaque, a "meditar sobre a vida".

As frases entreouvidas:

- Eu tenho problemas, eu não consigo me controlar, estou doente, não sei bem o que é!

Sem um psicanalista por perto, depressão não se conhecia, o problema jamais era identificado. Algumas das garotas, para se "automedicarem" falavam em estudar psicologia.

Uma delas até chegou a esse extremo. Já madura, sem saber o que fazer com o diploma de psicologia por total inaptidão voltou a estudar, formando-se em direito. Tornou-se mais tarde juíza com distinção e já era cotada para assumir posição no tribunal, numa merecida promoção. Não perdera mesmo nesse nível, a sua meiguice que trazia desde aqueles tempos de colégio. Muitos foram seus pretendentes e apaixonados. Na atualidade, solteira, nas audiências, havia advogados que torciam para que suas ações fossem distribuídas para sua vara de tal ordem a admirarem a virtude da meiguice, encantados com seu modo de explanar as idéias. Rigorosa, o resultado da demanda se adverso, era sempre perdoado e os recursos redigidos de modo respeitoso de tal modo a não ofendê-la nas razões expostas. Mas, sua erudição e independência estavam acima desses flertes. Não sei se casou, eu a perdi de vista.

Entre esse grupo da pizzaria, havia um garoto que revelava os mesmo sintomas.

Tornara-se um jovem alto, magro, cabelos lisos e pretos, mais para branco do que para mulato, à noite sempre de camisa branca, impecável. Pouco se sabia de sua vida privada, de sua família, de sua casa...

Trabalhando como aprendiz operário numa fábrica no Ipiranga, nas proximidades do Museu, abominava o trem “lotado e proletário”, que tomava diariamente e reclamava de tudo, do chefe, do almoço, do trabalho repetitivo, da burrice dos colegas... de tudo.

Já estudante do colegial, engajou-se nessa "turma problemática". Toda noite, bastava beber um pouco e, aos prantos, esbravejava suas emoções incontidas e, depois, encostando a testa na mesa, escondendo-se com os braços, curtia a bebedeira, esperando por algum consolo. Por tudo queria parecer vítima e às vezes era bastante convincente quando reclamava entre lágrimas de sua má sorte.

Dizia-se poeta. Numa dessas noites, depois de uma crise de histeria, escreveu num guardanapo alguns versos com aquelas rimas medíocres, de rosa, com prosa revelando toda sua paixão por um amor não correspondido:

"Meu amor, és para mim uma branca rosa,
Sua imagem doce me inspira em verso e prosa."

Colegas mais matreiros, desconfiados do seu “problema”, nalguns sábados, levavam-no a inferninhos bravos de São Paulo, naquelas zonas próximas da praça da República ou no Teatro de Revista numa travessa da avenida Ipiranga para provocá-lo. Eram aqueles tempos em que as doenças venéreas eram curáveis.

Mas, não havia meio: não se embalava. Embebedava-se, fazia papelão no meio daquelas mulheres ávidas por uns trocados, exibia-se recitando algumas poesias medíocres e ficava a espera de "muletas". Nada funcionava para ele.
Certo dia, um sábado meio ensolarado meio nublado, engajou-se numa excursão a um parque público que tinha como atrações um bosque bem fechado e um lago amplo e bonito tendo, às suas margens, quiosques reservados para churrascos e piqueniques.

Na viagem de ida, no ônibus, por acaso, sentou-se ao lado de uma moça, já não tão moça, mais para "coroa" devidamente desimpedida.

Essa mulher assanhou-se para o seu lado. Não demorou muito para que o clima esquentasse. Logo após o almoço, discretamente foram para o bosque e se encostaram numa árvore iniciando a mútua excitação.

Desceram a roupa de baixo naquela “volúpia incontida”. Teve início o ato sexual, sem medo e sem vergonha, exultante. Mas, fora este interrompido de forma até abrupta e cômica. Um vigia do parque os viu em pleno ato e apitou com todas as forças de seus pulmões. Foi a sorte de ambos, porque permitiu que saíssem correndo da maneira que puderam, ajeitando a roupa pelas trilhas do bosque. O “poeta” aos tropeços na barra da calça mal ajeitada e a mulher recomposta do jeito que pode, fugiu por outra trilha num recanto mais fechado do bosque.

Não foram pegos por pouco. E se fossem seria um grande vexame, um escândalo, teriam muita dor de cabeça, porque naqueles tempos tudo se resolveria na delegacia. E como se explicar aos colegas da excursão, à professora que a organizara?
Passado o susto e o desprazer pelo prazer interrompido, voltaram juntos no ônibus rindo muito e pelo que ele próprio contara, nunca mais se viram. É o que disse...

A partir daquele dia o "poeta beberrão" mudou. Suas choradeiras tornaram-se raras. Apenas doses agudas de conhaque poderiam aguçar sua sensibilidade. Depois abandonou o curso e desapareceu. Sobre ele só ficaram estes versos, redigidos por um boêmio solidário, tão “problemático” quanto, numa noite fria em que a histeria ridícula do beberrão passara dos limites e o álcool falara alto por todos:

”Ah ! poeta falsificado
triste e doido beberrão;
rei da histeria tola
o que pensas da poesia ?
Julgas que diante dos copos ,
da garrafa vazia,
encontraras a musa do amor ?
enganado estás meu caro medíocre !
a musa imaculada que buscas,
aquela que o verdadeiro poeta canta,
não está no brilho d’uma garrafa,
Ilustre beberrão !
Porque a musa doce e bela
a pura e límpida impressão,
É a alma limpa que chama
É o espírito são que revela...
tolo beberrão.”

Aqueles tempos idos que agora voltavam à memória afetavam a sensibilidade. a doçura da juventude, acordes de músicas daqueles tempos ressoavam em meus ouvidos orquestradas no éter.

Agora pisava no chão duro, há muito compelido a enfrentar os desafios, os chamados da vida.


II – Poeta infeliz, um lutador sem vaidades


Fui às lágrimas ao me lembrar de outro poeta, mas este diferente daquele porque tivera uma vida amarga e, na realidade, consumido por ela.

Ele também convivera com esses grupos de jovens “problemáticos”, notívagos e boêmios. A única extravagância é que, um dia, no meio daquela turma, no seu silêncio bebera um pouco mais e se proclamara com um copo nas alturas de “João, o poeta”.

Esse sujeito, um simplório, mulato, fez de tudo para sobreviver: trabalhou num centro de abastecimento carregando caixas de frutas e legumes, foi motorista de táxi e até mesmo ambulante. Mas, a despeito de todas essas atividades duras, ele continuava se qualificando como poeta. A sua humildade tinha um certo encanto: por causa dela, ninguém conseguia ignorá-lo e era sempre bem-vindo.
Sua educação formal não fora além do colegial. Seu pai falecera, vítima de cirrose hepática, quando tinha apenas nove anos. Dissera certa feita que ver o seu pai bêbado quase todo dia, fora dilacerante. Sua mãe, infeliz e batalhadora, operária de uma indústria têxtil, garantiu ao filho esse nível escolar. Mais não pôde.

Nos últimos tempos, tornara-se lavadeira. Cheguei a conhecê-la: apresentava rosto sofrido sulcado por pequenas rugas, os cabelos grisalhos a envelheciam implacavelmente muito além da idade. Seus olhos opacos sem brilho demonstravam cansaço e tristeza. Suas mãos e braços apresentavam feridas e inchaços doloridos, porque dia após dia, enfrentava o tanque, os sabões e o cloro. Por terem, apesar de tudo, algum conforto até há um mês, sua dor maior fora se mudar para uma favela, em condições precárias. Todas as tardes, quando chegava ao seu lar tão desarrumado, seus olhos se enchiam de lágrimas.

O pendor de João pela poesia fora, talvez, uma forma que encontrara para se diferenciar dos demais, se superar nas imensas dificuldades de sua vida suportando ironias e deboches num meio pouco afeito à solidariedade e à compreensão. E ao mirar sua mãe ferida trabalhando sem parar, escondia o rosto com as mãos, como se escondesse sua dor e sua vergonha por nada poder fazer por aquela senhora, sua mãe, que lhe dera tudo o que pôde dar.
Quem se proporia, naquele meio, a dar um apoio? Naquele meio em que o dinheiro do pai falava mais alto, dava prestígio? Naqueles tempos em que se tornava rei quem possuísse um “fusca sedan”?

Naquela noite em que João se proclamara poeta, um desses sujeitos bem de vida, com forte dose de álcool no sangue, no fundo da pizzaria, com aquela voz mole de embriagado, equilibrou-se como pôde e gritou:

- Ô João bobo, o poeta de ninguém, o negrinho sem vintém!

João baixou a cabeça por alguns instantes. Levantou-se vagarosamente, deixou o copo vazio com restos de espuma sobre o banco e reagiu violentamente. Um único soco, além de ferir o supercílio do ofensor deixou seu olho roxo. O impacto do soco arremessou para trás o ofensor e, sem equilíbrio sob os efeitos do álcool, sentou-se no banco de cimento batendo a cabeça na parede com aquele ruído muito próprio.

O tumulto foi geral. Alguns davam vivas, outros erguiam o braço do João pelo nocaute obtido e todos cantaram num ritmo alucinante,com vivas, “o poeta beberrão”.

Sendo a "vítima" quem era, João foi assunto por semanas, não pela sua poesia desconhecida, mas pelo soco merecido dado num cara prepotente que por vários dias ostentara o curativo e o olho roxo.

Anos depois, num dia frio, eu o encontro numa esquina abrigando-se da garoa:

- Como vai, João, há quanto tempo! Eu estudei com você, lembra-se. O que você tem feito?

Ele esboçou uma resposta qualquer, balbuciou monossílabos incompreensíveis. Não parecia bem, estava abatido, cabisbaixo. Sua aparência era pior, porque vestia roupa surrada.

Disse apenas:

- Minha mãe morreu no sábado.

Em silêncio, tentando esconder a emoção pela perda daquela que tanto lhe fizera, que tanto lutara, abriu uma velha pasta de mão retirou um livro (“A Maça no Escuro“ de Clarice Lispector) e do meio dele puxou um envelope desgastado:

- Olha algumas de minhas poesias, até agora não serviram para nada. Nunca mostrei a ninguém. Guarde-as para mim.

- João, alguma vez na vida você tentou um concurso literário, tentou publicá-las perguntei.

Ele me encarou surpreso, pensando que fosse mais um deboche. Percebendo que a pergunta fora séria, seus olhos brilharam, esboçou um sorriso e calou-se.

De repente, saiu pela garoa forte, correndo. Voltou-se e fez um aceno.

Uns oito anos depois, soube que João falecera havia uns três anos de "doença grave" nos pulmões. Para minha surpresa, o que me fez pensar por vários dias, toda a conta do tratamento hospitalar tardio e do enterro de João, fora paga por aquele sujeito bem de vida, vítima de seu soco, agora um poderoso empresário, herdeiro da empresa de seu pai.

Sua empresa fazia doações ao hospital e mantinha convênio para atendimento de seus empregados. Numa tarde, o empresário saindo do hospital com o diretor clínico reconheceu sentado, cabisbaixo, João, “o poeta.”

Parou na porta, certificou-se de quem se tratava, voltou-se e discretamente apontou para João:

- Doutor, está vendo aquele mulato branquinho ali? Veja o que está acontecendo. Dê-lhe todo o carinho e tratamento. Depois falaremos de custo, se houver.

Soube dias depois de sua grave doença irreversível e, logo depois, de sua morte, como se a ela se entregasse tantas as amarguras que enfrentara. Emocionou-se e redimiu-se com o passado de deboches ele que era mal visto até entre os “problemáticos”. Discretamente acompanhou o sepultamento de João que pagara como pagara a conta do hospital.

João fora, rigorosamente, um simples. Em sua humildade e no seu gosto pela poesia, estava sua grandeza. Ele poderia ser alvo de deboches, mas nunca ignorado. Era daqueles que incomodam positivamente.

Nem eu levara em conta sua poesia. Ao saber de sua morte, lembrei-me delas. Procuro ardentemente o envelope, encontrando-o finalmente no meio de velhas contas pagas, numa divisória da estante. Ao tocar no envelope, a presença do poeta ao meu lado naquela tarde garoenta fora sentida com intensidade.

Uma poesia que certamente refletiu seu modo de vida, suas angustias é esta:

TUDO É VAIDADE (ECL. 12,8)
Diz o Pregador, melancólico (?), realista (?):
"Vaidade de vaidade, tudo é vaidade"
Desta vida de serviço sem idade.
Da mais humilde à mais soberba criatura
A vaidade impulsiona o mundo, porém
Mas, no fim, nada restará senão o pó, o além...
Extinta, então, a tênue vida, não o Espírito
Falam as Escrituras dum fio de prata rompido
Retornando o Espírito desse ponto partido (?).
Mas, como "tudo quanto sucede é vaidade"
Quando tal soberba sem medida cresce
O Ser humano, no Espírito, enfraquece.

Depois disso, resolvi ler o livro de Clarice Lispector (“A Maçã no escuro”) em cujo exemplar estava o envelope de poesias de João.

Achei-o “meio chato”, embora a história apontasse à exaustão, as contradições, as fraquezas do espírito humano e, especialmente, a angustia da solidão expressada pelo personagem principal que cometera um crime, Martin.

Tempos depois de lido, muitas vezes alguns episódios voltavam à minha memória, sinal de que o livro, a despeito de maçante para mim, o poeta João dissera algo, fora importante.

2 comentários:

Caio Martins disse...

Parabéns pela matéria, tanto no conteúdo como na forma. Além disso, a formatação muito bem feita. Abração, e esperamos as novas publicações.

Silvio disse...

MM,

O Blog ficou bacana. Abraço.

Sirso