19/04/2009

VERSOS PARA NINGUÉM (I) (Dias de ingenuidade)

Sei bem que o “novo sempre vem” mas há apenas momentos do passado que amo. Uma paráfrase parcial da música de Belchior ("Como nossos pais") interpretada de modo arrepiante por Elis Regina. Quanto ao novo, ontem já está envelhecendo nesse caminhar célere dos dias e da própria vida.

A crônica de hoje, de regra, como outras, também baseada em fatos reais. Destaco “reais” porque o Aurélio ensina que fato é “aquilo que realmente existe, que é real.” Assim, se é fato...

A década de 60 é considerada “de ouro”. Fora uma divisora de águas, entre a década de 50 de afirmação, ainda com ranços do pós-guerra, o esquentamento da guerra fria que quase resultou num conflito nuclear em 1962 entre os Estados Unidos e União Soviética e o intenso progresso que eclodiria a partir dos anos 70. Um passo antes, em 1969, os americanos alcançaram a Lua, naqueles tempos em que os Estados Unidos haviam decidido obter (ou manter) a liderança tecnológica e científica no mundo minimizando a influência soviética. Também em 1969 com a interligação de quatro universidades americanas, possibilitou que professores e pesquisadores se comunicassem por precários computadores, em rede.

Quanto mudou o mundo a partir daí!

Mesmo os anos da ditadura que começaram em 1964 não impediram intensa criação artística. Basta lembrar os momentos célebres da “jovem guarda” e suas músicas açucaradas, românticas. As músicas geniais de Tom Jobim desde os primórdios da bossa nova. Mesmo Chico Buarque nessa década não se destacara por suas músicas com temas “sociais” e de revide velado aos atos da ditadura. "Olê, olá" é de 1965, a “Banda" é de 1966.

Pois bem, a cidade de São Caetano do Sul, nesses tempos dourados destacava-se pela intensa atividade cultural, artística, política e social. Inigualável.

O movimento estudantil empolgava e eu fiz parte dele fortemente.

Foi nesse caldo de cultura que aliado a um outro estudante, Emerson Marcon, ambos “doidos”, vivendo intensamente – mais não “vivi”, porque infelizmente ninguém me avisou, e nem poderia, como aquilo tudo era bom demais e que nunca jamais se repetiria – elaboramos uma cartilha de poesias, imprensa devidamente, arrumadinha, cujo título fora “Versos para ninguém”. A capa, um vulto mal atravessando uma porta transparente.

Com o tempo, com reservas pelas minhas “poesias”, porque feitas para preencher o tal livreto, sem inspiração e quase zero de transpiração, eis que anos depois, encontro uma delas transcrita num jornal interno de uma multinacional de eletrônicos. Claro que uma surpresa considerando a maneira como fora ela composta.

Tenho um amigo naquela cidade com quem militei na pequena imprensa, brilhante advogado, já antigo, pouco mais do que eu, João da Costa Faria, que me dizia – e se não disse, está dito – que tudo que publicamente se escreve, nunca se sabe onde vai parar o texto.

Essa “poesia” piegas demais foi exemplo efetivo disso. Ei-la:

Louvemos o homem que ri
Sem vaidade,
Admiremos o homem que fala
Sem hipocrisia
Respeitemos o homem que chora
Pela verdade,
Citemos o homem que estampa
Humildade

Louvemos o homem desiludido
Que perdoa
Admiremos o homem que perde
E reinicia
Respeitemos o homem que ama
E chora
Citemos o homem honesto
E feliz.

Louvemos o homem doente
Sem desânimo
Admiremos o homem pobre
Que trabalha
Respeitemos o homem que é rei
E modesto
Citemos o homem rico
E simples,

Louvemos o homem feliz
E otimista
Admiremos o homem paciente
Que espera,
Respeitemos o homem cansado
Que repousa
Citemos o homem que morreu
Mas viveu.


As virtudes que se inserem após cada louvação, fazem desse homem um super-homem. Utopias e esperanças naqueles tempos de transição, uma espera para qual lado caminharia a mente dos homens e o próprio mundo. As coisas, como se vê hoje, não caminharam bem: recrudesce a truculência entre o “homo sapiens”, as misérias se multiplicam e o agravamento assustador da devastação ambiental. Quais as consequências que advirão desses atos? Tremo ao imaginar.

De Emerson Marcon selecionei “Peregrino Errante” uma de suas poesias que compôs o livreto citado:

Viajei as estradas da vida tal um peregrino,
Vaguei pela chuva, pelo sol, sem um destino...

Conheci o céu, a terra, o mar, a luz, os amores,
o pó, a lama, a dor, o fogo, o perfume das flores.

As minhas vestes se rasgaram nos espinhos
e os meus sonhos se esfumaram sem carinho,

na carne os espinhos cicatrizes deixaram
e n’alma tantas vezes os sentimentos se afogaram!

Deus! Quanto sangue verti pelas feridas
e as lágrimas choradas foram perdidas!

Agora que a conheci, encontrei o meu destino,
não mais na vida serei um errante peregrino!

Depois de vê-la o passado é nada,
chegou o peregrino no fim da jornada!.


INGENUIDADES

Acima, no título, falei de “dias de ingenuidade” que se inserem naqueles anos dourados.

Claro que atrás de certo recato, inimaginável nos dias de hoje, havia a angústia sexual, reflexo de sua demonização por séculos, pregação das várias religiões que repetiam conceitos que hoje se perderam.

Muitos padres, então, aos meninos e meninas que iam confessar, faziam a inevitável pergunta: “você fez coisas más?” Será preciso explicar o que sugeria tal pergunta?

Sobre isso, aqueles que se propuserem a ler as crônicas em “Poetas”, aquela primeira cujo título é “Poeta falsificado que rima rosa com prosa”, há a explanação dessa “angústia sexual” porque o vulcão reprimido mexia com a cabeça...e como mexia.

Deu no que deu, no eterno efeito do pêndulo que solto se desloca violento para o outro lado, arrebentando tudo. Nestes dias assustadores a truculência sexual se faz presente como nunca.

Mas, o momento é de amenidades. Animo-me, então, a transcrever crônica meio poética que reflete bem o espírito romântico daquela época tão preciosa:

Esmeralda sem rosto

A primeira futura ex-namorada. Em nome dela, em sua homenagem, num domingo chuvoso de paixão, perdido no tempo, formulara alguns versos com rima pobre:

Como são fortes, candentes
Os primeiros amores,
Ardentes
A primeira namorada
Dúvida amarga
Amada.

Toda essa relação apaixonada fora tão tímida, havia indecisão em se aproximar da possível futura namorada. Naqueles idos. Uma torcida para que ela passasse na mesma rua após as aulas, no mesmo horário, um encontro silencioso e ansioso.Estudante destacadíssima. Aceitaria?

Encontros forçados, à espreita numa esquina qualquer, uma paixão ardente. Inesquecível.

A imagem dela na bicicleta, descolorida, meio enferrujada, sem rosto, um vulto, de branco. A rua cinzenta, úmida da garoa havia pouco, vento gelado no rosto, o sobrado humilde desbotado, com muro baixo. Alguns gerânios vermelhos nos vãos e rosas vermelhas e amarelas no canto do jardim. Um buquê retorcido no vento.

Esmeralda. Lembranças. Tudo passou de repente. Só o amor sem rosto ficou.

Amor ou lembranças que se perderam no tempo, não sei bem! Um pouco dos dois. Há desses instantes que não se perdem. Ficam porque doces.

Fazia justa associação: uma espécie de La Esmeralda, a cigana, vulto deslumbrante de Victor Hugo no “Corcunda de Notre Dame”. Também sem rosto, deslumbrante, porém.


Ainda voltarei com versos e poesias. Um dia desses.

8 comentários:

Emerson disse...

Milteta
Ingenuidade total!
Romantismo transbordante em rimas pobres e versos de pé quebrado... Formato de cartilha...
Capa de Frederico Matos e prefácio de Julian Lasso Franco...Impressão da SOSIL...
De repente, não mais que de repente: "Louvemos o homem" surge - quem sabe quantos anos depois - em um jornal de uma empresa!
Você e eu podemos com certeza dizer que não fomos os "únicos dois" a ler "Versos para ninguém..."
Falando em ingenuidade! Anote essa:
Amei
Chorei
Sorri
Ah! paixão,
brinquei
vivi!

Um dia
não sei
não vi
Ah! amor,
partiu
senti...

Amei
Chorei
sofre
Ah! tristeza
esqueci
vivi...
- Amor Infantil
Milton Martins
1966
Versos para ninguém...
Abraços saudosos
Emerson Marcon

Caio Martins disse...

O mundo dá muitas voltas, e "de repente, não mais que de repente", as pedras se encontram... Nesse tabuleiro dos anos 60, Emerson e Milton jogaram "a unidade e luta dos contrários" à perfeição, dupla parada dura digna de respeito. Só este encontro, nesta bela página, merece comemoração e justifica toda a encheção de saco para que o Milton botasse o blog. Abração fraterno aos dois, do compadre mais feliz que vira-lata na feira...

Anônimo disse...

Fico muito feliz por este desfecho, por aqueles saudosos tempos.
E, eu posso falar, pois sou testemunha ocular desses pseudo momento de loucuras, no Bar do Sr Paulo em frente ao IECBC, no Grêmio 28 de Julho, no Jornal Atribuna,na Revista Estudantil, na Loja A Principal, e outros points da época.
Como é bom ter essas saudades saudáveis.

Sgto Carmelo.

Carmelo disse...

Fico muito feliz por este desfecho, por aqueles saudosos tempos.
E, eu posso falar, pois sou testemunha ocular desses pseudo momento de loucuras, no Bar do Sr Paulo em frente ao IECBC, no Grêmio 28 de Julho, no Jornal Atribuna,na Revista Estudantil, na Loja A Principal, e outros points da época.
Como é bom ter essas saudades saudáveis.

Sgto Carmelo.

Anônimo disse...

Passado um mísero grão de areia na ampulheta do tempo; gostaria de saber quem poderia recompor:
"..Garçom: dois dedos de cachaça
que é p´ra ver se a chuva passa..."

Assina quem uma vez disse:
"O povo pensa com a barriga!"
e continua dizendo...

Anônimo disse...

Lembro-me de mais um trecho:
Chove!
A natureza está chorando e atira lágrimas na vidraça
Os pingos, vagorosos como lesma
traçam seu itinerário na vidraça.
As razões por certo não serão as mesmas
por que eu, choro por causa dela.
Garçom!
Dois dedos de cachaça que é p´ra ver se a chuva passa!
...

E por ai vai...

Chico Filho disse...
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RD135Z disse...
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