22/11/2009

A SABEDORIA DOS RIOS















“A mata, templo sob azul e a límpida nascente
Permitiam-lhe saciar n'Alma adormecida,
Inspiração profunda no mundo perecida
Intuindo orações de elevação crescente.”


 Há um livro que obtive por encomenda num sebo de São Paulo, relativamente raro, “O Mistério das Catedrais” de Fulcanelli.

Essa obra sempre aparece como referência para explicar o simbolismo de figuras em relevo ou baixo relevo em algumas catedrais européias alcançando sentidos esotéricos e marcas cifradas.

O livro fora para mim, de difícil compreensão porque os símbolos são representações alquímicas, contendo, como qualifica o autor, significados “herméticos”. E eu acrescento que até mesmo a linguagem não é fácil.

O autor dá destaque maior à catedral de Notre-Dame de Paris e desvenda os símbolos não cristãos entalhados em suas paredes e reentrâncias.

Mas, em Bourges, cidade próxima de Paris, ao sul, no palacete Lallemant – “uma das mais sedutoras e mais raras moradas filosofais” – há um baixo relevo de São Cristóvão.

Relata o autor a lenda do santo:
Tratava-se dum homem muito forte, agigantado, que decidiu que serviria ao rei mais poderoso da terra. E assim fez, para alegria do rei que encontrara um servidor tão leal e tão forte.

Certo dia decepcionou-se o santo ao ver o rei se benzer ao ouvir o nome do diabo. Ao saber que o rei temia o diabo, abandonou-o porquê não detinha o poder, abandonou-o por não deter o poder absoluto. Procurou, então, a satã para servi-lo. Sua lealdade ao diabo durou até o momento em que o via desviando-se de uma cruz.

Ao saber que o diabo receava o símbolo de Cristo, resolveu procurá-Lo porque seria ele o mais poderoso da terra.

Mas não o encontrava. Para diminuir sua angústia, um sábio levou-o à beira de um rio e sugeriu que ele atravessasse os viajantes nos seus ombros fortes para que não se afogassem. E nesse serviço encontraria quem procurava, prometera o sábio.

E assim fez. Um dia, muito cansado, ouve batidas na porta de sua cabana. Uma voz de criança se faz ouvir. Levantou-se o gigante e arrumou-a em seus ombros partindo logo para a travessia.


 






















No meio do rio, as correntes tornaram-se revoltas e o menino tornara-se um fardo, além do que podia suportar o gigante. Ao perguntar por que um menino era assim tão pesado, recebeu a revelação: apresentara-se o próprio Cristo, o peso do mundo e, pelos serviços que prestara o gigante aos viajantes fora batizado por Ele e pelo Espírito Santo, recebendo o nome de Cristóvão (chama-se Offerus).

“Desde esse dia, Cristóvão percorreu a terra para ensinar a palavra de Cristo.”

 Esse trabalho de atravessar viajantes como balseiro também com resultado revelador, se conhece no livro “Sidarta”, de Herman Hesse, autor alemão que, na década de 60 influenciou jovens e não tão jovens com suas idéias de desapego a qualquer doutrina. Hesse recebeu o Prêmio Nobel em 1946 e, para muitos, fora um sábio.

Sidarta era um jovem que certo dia resolveu deixar a casa de seu orgulhoso pai, um brâmane, para ele próprio, buscar a sabedoria.

Saindo pelo mundo com seu amigo Govinda, viveu todas as experiências mundanas até que, envelhecido, procurara a companhia de um “simpático” balseiro que certa vez o transportara. Com ele passa Sidarta a conviver e trabalhar.

E Sidarta, incentivado pelo amigo balseiro (Vasudeva) passa a ouvir a voz do rio (“O rio sabe tudo e tudo podemos aprender dele”). E pergunta um dia ao velho amigo:
“O rio tem muitas vozes, um sem-número de vozes, não é meu amigo? Não te parece que ele tem a voz de um rei e a de um guerreiro, a voz de um touro e a de uma ave noturna, a voz de uma parturiente e a de um homem que suspira, e inúmeras outras ainda?”

E assim, vivendo humildemente, substituindo seu amigo balseiro que encontrara, à beira do rio, a sabedoria e se retirara para a floresta, foi paulatinamente encontrando ele próprio sua interioridade e sua paz.

Mas, faria uma revelação importante para seu amigo Govinda que o reencontrara, sobre a sabedoria: “Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la, podemos vivê-la, podemos consentir ela nos norteie, podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la.”

Tal se dá, certamente, porque a sabedoria é uma experiência pessoal, interior, intransmissível. O mesmo não se dá com o conhecimento.

Assim, ousei colocar lado a lado esses dois personagens tão semelhantes que, verdadeiramente, destacam o vigor místico dos rios, fonte de batismos, com sua cadência harmoniosa, sua voz, seu ir sem volta mais sempre presente até o fim de seu curso, culminando no seu trajeto majestoso em alimentar canais maiores num processo inexorável de transformações.

Por isso, sobre a água, encerro com São Francisco, valendo-me de um trecho do “Cântico do Irmão Sol”:
“Louvado sejas tu Senhor pela irmã água / que é tão útil e tão sábia / preciosa e casta”.



Foto 1: Parque Nacional Canaima - Bolivar - Venezuela. Foto de Alberto Corona (corona.blogia.com)

Foto 2: Imagem de São Cristóvão - azulejo - Igreja Matriz de Rio Tinto - Concelho de Gondomar - Porto / Portugal


Um comentário:

Caio disse...

Tens razão, Mestre Escriba... Há que aprender a ouvir o rio, as águas. Principalmente as que nos habitam, interiores.
Como sempre, relato impecável.