ExplicaçãoNesta crônica revelarei espécie de balanço de minha convivência profissional e pessoal. Por óbvias razões excluo os laços familiares até porque já escrevi sobre esses laços.
A palavra ternura, sempre a usei com muito cuidado. Me perdoem, mas me parece que ela tem mais um uso feminino. Não me sinto à vontade, por exemplo, em dizer que meu amigo tal é terno. Agora a mulher tem toda a autoridade para dizer que fulano exala ternura e que sua amiga tal é terna (a palavra é feminina!).
Nesse passo, em vez de ternura, usarei apreço que no Aurélio significa “consideração e estima dispensadas a alguém”. Desapreço, então, será a desconsideração e não estima dispensada a alguém.
Tudo que direi a seguir não tem qualquer sentido de vaidade ao enaltecer alguns acontecimentos que me marcaram. A minha (des) importância é conhecida dos meus amigos e circunstantes. É que, se eu não falar desses acontecimentos, se perde a crônica.
Fui agraciado por inumeráveis e até pequenos gestos carinhosos que me surpreenderam e ficarão comigo para sempre. Até devo já ter relatado alguns por aí ou por aqui.(pequenas ternuras?).
Mas há outros que extrapolam e me levam a fazer, em torno deles, um relato mais aprofundado. Apreços, desapreços e...ternurasTrabalhei por décadas na indústria na automobilística.
Já me referi a viagens profissionais que fiz ao exterior, que não foram tantas, mas significativas.
Não pensem que tudo nessa minha vida profissional foi fácil? Não, tudo foi conquistado com suor e lágrimas. Diria mesmo que se para sobreviver há que ser eficiente 50% e político outros 50%, saibam que fui eficiente num nível em torno de 90%. Por isso sobrevivi. Nunca soube fazer política dentro da empresa, não consigo bajular e não consigo me comunicar bem com aqueles que considero imbecis, soberbos.
Assim, se sobrevivi tantos anos nessa indústria se deu pelo meu desempenho.

Um dia saí da empresa Chrysler. Minha fábrica (Santo André) estava em processo de extinção.
Fui, sim, homenageado porque entre outros dera condições, no seu clube na Estrada do Mar, de fazer ali a festa de Natal. Se querem saber, o sindicalista Lula, já muito badalado mesmo pelos executivos empresariais, lá esteve.
Depois virei, num campeonato interno de futebol de salão, nome de taça.
A VW comprou as instalações da Chrysler. Anos depois, fui convidado, como homenageado, entre outros, por ocasião das comemorações do 40° aniversário do VW Clube (maio de 1998) pelo que eu havia feito no antigo Clube-Chrysler que fora por aquele herdado.
Claro que dois amigos leais puseram meu nome para ser lembrado. Apreços.
Ainda na minha atividade profissional dentro da empresa, pela primeira vez senti a sola da demissão, numa poderosa multinacional da região de Piracicaba.
Certo dia surgira novo presidente um americano bastante arrogante. Um sujeito alto, loiro, cabelos mais para o grisalho, rosto magro e avermelhado, nariz empinado, um perfeito capataz, tolo mesmo. Falava um português razoável.
Viera para proceder à reestruturação da empresa. Iria “cortar na carne”, anunciava a “rádio peão”.
Criou-se um clima de expectativa e terror.
Na reunião decisiva da reestruturação, a demissão sobrou para mim. Em meu lugar, assumiria um bajulador que vinha de área estranha àquela que viria a ocupar, exatamente porque era bajulador.
Pelo que soube mais tarde, todos aqueles gerentes a quem dera apoio, sempre, haviam também votado pela minha demissão.
Passado aquele momento amargo, inédito, porque nunca tivera tal experiência, refleti muito sobre o acontecido. No meu íntimo, me perguntava se, rigorosamente, não desejara em muitos momentos deixar a empresa que perdera aquele brilho de antes.
A verdade é que essa experiência virara um pesadelo. Muitos se sucederam. Via-me chegando à empresa pela manhã, rumava para minha sala, não a encontrava ou havia alguém estranho sem rosto no meu lugar. Caminhava, então, pela fábrica como um fantasma, via sem ser visto, renovando a angustia da demissão ao acordar.
Sabia agora, após administrar centenas de demissões nas várias multinacionais em que trabalhei os efeitos danosos que produziam nos demitidos:
- Recebera minha paga, pensava. Sentira o amargor do fel.
A despeito da demissão, fiquei mais uns meses treinando alguém para um determinado tipo de tarefas.
Todos os colegas cordiais de antes – difícil “amigos” nos muros da empresa -, subordinados se afastaram solenemente como se qualquer aproximação significasse o contagio de doença incurável. Esses desavisados se esqueceram que estavam numa fila esperando a vez. E ela foi chegando...
O desapreço se materializou, então, do modo mais amargo. Romperam-se os laços e o dever de gratidão.
Apenas três colegas mantiveram a mesma harmonia de antes. Sabia por eles que nem tudo estava perdido.
Voltava de São Paulo um pouco deprimido. O tráfego estivera intenso, congestionamentos nas Marginais, tudo fazendo subir os níveis de poluição e de cansaço.
Minha depressão, além dessas razões, devia-se mais pelo que assistira numa agência do INSS. Entre todos aqueles humildes que buscavam com resignação seus direitos no imenso salão, sentada num canto, chamou-me a atenção, uma senhora envelhecida, um pouco obesa, com o rosto sulcado por incontáveis riscos miúdos de rugas.
Suas mãos esbranquiçadas, como se seus dedos estivessem gastos e, no pulso, feridas mal curadas, notando-se que o tratamento seria precário.
Por acaso ouvi sua história: trabalhava havia mais de 30 anos, sempre em serviços modestos de doméstica e, nos últimos tempos, sem poder fazer muito esforço, achara que se daria bem como lavadeira de roupas.
À medida que o tempo foi passando, suas mãos começaram a ser afetadas pelo sabão, pelos detergentes, pelo cloro, resultando em dores, naquelas feridas nos pulsos, de tal ordem que não poderia mais trabalhar.
Bem atendida pela funcionária da instituição, foi-lhe explicado que pelo pouco tempo que contribuíra para a previdência, provavelmente nunca se aposentasse, porque havia uma "tabela de progressão" de contribuições que a levaria a contribuir ainda por muitos anos.
Em princípio, nada poderia ser feito para ela, salvo um afastamento por doença ou invalidez. Meio confusa, nada entendendo, encarou-me com aquele rosto enrugado, olhos cansados e apenas disse, quase em desespero:
- Ai meu Deus...
Saiu lentamente do local, em passos curtos, como se carregasse nas costas um pesado fardo.
Para essa mulher, não havia respostas que pudessem consolá-la. E de nada adiantaria a imensa ternura que sentira por ela, pela sua humildade, pelo seu rosto cansado, pelas suas rugas. A humildade transmite uma réstia de beleza, apesar de tudo. A vida do brasileiro que mora precariamente, nos morros, nas favelas, lutadores e esquecidos. Aqui senti mais que apreço, ternura e decepção diante da minha impotência em ajudá-la. Quem sabe a invalidez a tenha aposentado. Quem sabe.
Já relatei esta passagem (v. “Raízes Sancaetanenses - I de 21.06.2009) para mim muito mais do que manifestação de apreço.
Não conseguirei esquecer por ser eu quem era, um garotão meio inseguro perante o prefeito Anacleto Campanella de São Caetano do Sul e sua forte influência em todo o ABC.

Dei-me conta de Campanella, no seu primeiro mandato, quando da inauguração do denominado viaduto dos Autonomistas em meados da década de 50, uma alternativa para aqueles que precisassem cruzar as linhas da então “Santos a Jundiaí”, vindo do Bairro da Fundação para o Centro ou no trajeto oposto.
Moleque, encolhido, acompanhei a solenidade e o discurso do prefeito.
Anos depois, no segundo mandato, por programação de jornal semanal capenga me encorajei, numa tarde de sol, em chegar ao seu gabinete para uma mal programada entrevista. Sou bem recebido pelo seu “eterno” secretário e aguardo na ante-sala.
Minutos depois, sou conduzido ao gabinete. Ele me encara com aquele seu jeito irreverente, olhando para os papeis, responde algumas perguntas, levanta-se impaciente daquela mesa arredondada de trabalho sai apressado do gabinete e me ordena:
- Venha comigo.
Saímos do prédio da Prefeitura. No estacionamento, ele abre a porta do carro, manda que eu entre e segue nos rumos de Santo André.
Paramos no próspero Diário do Grande ABC e ali ele me apresentou para o diretor de redação do jornal. Escrevi para aquele jornal por algum tempo. Perdi o pique pela minha timidez e insegurança, modalidades do meu perfil.
Em 1969, como deputado federal, logo depois do AI-5 do regime militar fora ele cassado na "lista" de 12.01.1969. Encontrei-me com ele logo depois. Não demonstrara mas é certo que sentira o golpe.
Mais tarde, doente, vez por outra eu o encontrava abatido na Barbearia do Ciccilo que fora um ponto político importante em São Caetano.
Sempre falei com ele porque havia aquele gesto de anos antes que até hoje me surpreende, porque desinteressado e de alto apreço.
Longe há anos da cidade, sua presença se dá com o time de futebol do São Caetano que manda os jogos no estádio municipal batizado com o seu nome: Anacleto Campanella.
Chamo, afinal, esse gesto de apreço ou de ternura?
O que incomoda é que tudo passou de repente, numa velocidade...da vida.
Ternuras desprendidas, incondicionaisTenho falado muito de animais nestas crônicas. Espero não cansar os que me acompanham. Essas crônicas, creio, estejam insertas em “edições” passadas neste “Temas” ou por aí.
Resumo:
. Da vaca e do bezerro que servi água num dia de sol escaldante: o olhar manso e doce da vaca agradecida;
. Do quati domesticado: sua festa subindo pelos meus ombros e fazendo cafuné na minha cabeça com suas patas agudas;
. Das abelhas nervosas que rodeavam meu rosto sem nunca me atacar;
. Do leitãozinho esfaqueado mortalmente que me encarou decepcionado pelo que eu “deixara fazer”;
. Da corujinha perneta que diariamente, talvez agradecida por ter sido salva, que pousara no coqueiro do meu quintal por muito tempo;
. Dos gambazinhos frágeis que aparecem por aqui;
. Dos gatos vadios que também apareceram: um deles me olhava com aquele ar maroto após meus gritos pelas suas mordidas no meu pé. Sumiu como chegou; o mais inteligente quando deitado na grama parecia um trapo, foi atropelado. Uma perda;
. Do escorpião que não conseguiu me picar (Sorte? E se foi o que muda?)
. Dos múltiplos passarinhos comedores de bananas e pedaços de mamão, no muro, ao lado do meu escritório que me fiscalizam desconfiados de alguma traição – que nunca virá - voltarei com eles;

. Da minha cachorrinha preta, com 17 anos que me chama sem parar, latindo, da tarde às 8h00 da noite enquanto não for visitá-la e trocar sua água. Ela come até gomos de mexerica que colho do pé. Alguns minutos com ela, afagos, carinhos e ela sossega.
É isso ai
Fotos:
(i) Anacleto Campanella (from tribunadoabc.com.br - Google imagem)
(ii) Imagens parciais de minha despedida da Chrysler em 11/1981 e o "meu" time no mesmo dia.
(iii) Eu e a cachorrinha Preta, de novo, no seu habitat (foto: Milton P. Martins).