04/07/2010

FÁBULA: A VACA E O LEÃO

O pasto era como qualquer outro. A mata fora derribada pelo fogo e pela motosserra. No fundo havia uma mata fechada. O pasto era cercado, mas a cerca era frágil e já havia pequenas passagens que permitiam ir para lado da mata.
Naquele dia, vários bois e vacas velhas estavam sendo empurrados para um caminhão.
A vaca leiteira assustou-se pelo tratamento brutal dispensado aos seus semelhantes, inclusive seus descendentes já crescidos.
O pavor nos olhos deles era evidente, porque até àquela hora viviam em paz, uma vida feliz, alimentando-se do pasto abundante e da água do riacho que cruzava por ali do qual se fizera um lago.
Ouvira que todos seriam mortos e transformados em comida para os humanos. Mas, não acreditava que isso fosse possível.
Horrorizada com o que via, distraiu-se e não encontrou sua cria, um bezerrinho novinho, aquele que achava o mais bonito de todos os outros que procriara.
Precisava alimentá-lo para depois se dar à ordenha. Seu leite, ouvia, ia para todos os moradores da fazenda, inclusive das meninas da casa grande.
Então não tinha do que se preocupar com seu destino. Tinha certeza de que permaneceria na fazenda para sempre.
Todos ainda ocupados com os bois sendo empurrados para o caminhão dirigiu-se à cerca, ultrapassou-a, em busca de sua cria.
Meio confusa com o que via, aquela mata fechada, preocupada em como voltar ao pasto, voltou-se tentando achar o caminho naquele ponto da cerca no qual seria possível passar.

Não poderia ser maior o susto. À sua frente, aparecera um leão imenso, brilhante, dourado, ameaçador.
A vaca desesperada pela sua vida, tentou escapar, enroscou-se nuns galhos secos, mas o leão gritou:

- Não vou lhe fazer mal algum, fique.
Uma ordem, a vaca voltou-se e permaneceu atônita olhando para aquele leão brilhante, dourado.
- Eu só mato para me alimentar, porque assim é a minha natureza. Mas, sei que meus semelhantes criados em cativeiros autorizados, num grande país longe daqui, ao norte, são mortos e suas carnes transformadas em hambúrgueres para os humanos. Servidos com batata frita. Tal qual fazem com os de sua espécie. Muitos são os que protestam contra isso, mas isso já está acontecendo.
- Por aqui, o consumo de sua carne, prossegue o leão, se aproxima do consumo desse grande país. E quanto mais aumenta o consumo, mais pastos são criados e mais florestas são devastadas. Meus irmãos já não têm mais seu habitat e muitos outros animais também não têm. Não há tristeza maior do que vê-los num zoológico em espaços reduzidos, sonolentos e angustiados. Sem se movimentarem, sem explorar as florestas, parar num riacho e beber. E agora chegam ao ponto de nos matar para aproveitar nossa carne como alimento. Nada mais tem merecido respeito, porque o homem está em toda parte nos ameaçando, a todos e ameaçando a sua própria sobrevivência.
Sei que a barbaridade é imensa contra golfinhos, baleias e muitos outros animais desamparados e sacrificados impiedosamente.
Disse a vaca:
- Mas, aqui todos são bons para mim. As meninas da fazenda me acariciam, bebem meu leite...
- Sinto informar que o seu fim é o mesmo dos seus semelhantes que estão sendo levados da fazenda com a violência que você viu. Não se apague a eles, às meninas, não os ame porque nalgum dia você será também transportada para a morte. Sem gratidão.
- Não acredito. Eles gostam de mim e não me farão mal. Preciso sair daqui, estou procurando meu bezerrinho. É hora de sua mama.
- Vê aquelas árvores queimadas ali. Siga na sua direção e você voltará para o pasto e encontrará o seu bezerro.
Dito isso, o leão brilhante foi desaparecendo, sua luz se apagando, deixando a vaca muito assustada com o que ouvira.
Mas, tinha que alimentar a sua cria e esperar a ordenha do moço da fazenda, muito carinhoso e que falava com ela.
E pensou:
- Como não amá-los? (*)


Fotos:
(1) www.visconde-de-maua.com (pousadas)
(2) www.imotion.com.br

(*) V. Crônica com tema correlato: "O Touro manso" de 29.03.2013

3 comentários:

Ivana Maria França de Negri disse...

Ah! As fábulas! Elas dizem tanto nas entrelinhas...

abrs
Ivana

Marisa Bueloni disse...

Dr. Milton: linda fábula. Vaca e leão tiveram um diálogo filosófico.
E assim é a vida... Abraços, Marisa

Anônimo disse...

Querido Milton,

difícil aceitar que somos mais sanguinários que os leões. Mas como não aceitar essa verdade? Basta olhar a nossa mesa, a nossa casa atulhada de quinquilharias ridículas que resultam na destruição da própria vida orgânica sobre a terra ( nós aí incluídos). Tua fábula é mais um alerta, e fala mais que um compêndio de ambientalismo...
Abraço
da

Aracéli.