23/08/2013

NEGRITUDE NOS ESTADOS UNIDOS. A VITÓRIA DE UM ATOR.

O livro de Sidney Poitier
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"Eu tenho um sonho"

Sabem desses livros vendidos em grandes supermercados que vão ficando à deriva, olhados, quando olhados, com indiferença?

São muitos os que leem de tudo, mas eu ainda acredito que certas redes sociais tomam tempo demais de leitores menos entusiasmados com livros mas que se empolgam com mensagens curtas.



Pois bem, numa dessas liquidações de livros, encarei um livro do ator negro americano Sidney Poitier, “Uma vida além das expectativas – Cartas para a minha bisneta”. (1)

O que tem esse sujeito a transmitir?

Relutei, mas acabei comprando a obra não pelo preço baixo mas por curiosidade porque, afinal, quis saber o que tinha o ator a dizer.

A motivação do livro do ator fora sua bisneta já com dois anos de idade, então, e ele com mais de 80 anos.

Em 23 cartas à sua neta Ayele, conta o ator quase sua vida toda, suas imensas dificuldades com a pobreza extrema, sua baixa educação e, também, embora nascido circunstancialmente em Miami, sua vida até a adolescência fora vivida numa ilha, em Cat Island despojada, então, de qualquer infraestrutura mínima.

[Sim, existe essa Ilha e é hoje um dos distritos das Bahamas assim, como Nassau, a maior cidade, capítal do arquipélago das mesmas Bahamas. Nassau, para mim, costuma chamar a atenção em viagens ao exterior, quando o avião sobrevoa  seu espaço aéreo.]



Seus pais produziam tomates em Cat Island e um dos melhores adubos, relata o ator, eram os dejetos de morcegos obtidos em cavernas.

Ao se mudarem para Nassau, Sidney com mais de 10 anos de idade, pela primeira vez vira um automóvel pelo que significou para ele um misto de susto e surpresa: “um besouro imenso”- Aquilo é um carro, disse sua mãe.

Ao se mudar para Miami como cidadão americano porque havia nascido nessa cidade, enfrentando forte intolerância racial sem qualquer perspectiva, para sobreviver, passou a lavar pratos.

Mais tarde em Nova York, fez um teste para ator, por curiosidade e porque precisa trabalhar. Foi rejeitado porque mal sabia ler.

Nessa vida de dificuldades uma curandeira profetizara que ele levaria o nome da família Poitier “por todo o mundo”. Assim foi...

Um aspecto que dei pela falta no livro, omitido, foi o que poderemos chamar de “o pulo do gato” para conquistar Hollywood como conquistou, tornando-se o grande ator que ainda hoje é Poitier, beirando os 87 / 88 anos.

Mesmo numa época de racismo intenso nos Estados Unidos, ele ganhou o Oscar em 1963, pela sua interpretação no filme “Uma voz nas sombras”.

O nível da segregação racial naqueles anos era radical e até homicida.

É o ator que relata um episódio de coragem de uma estudante negra nos idos da década de 60:

...Chalayne Hunter-Gault, uma dos primeiros afro-americanos a frequentarem a Universidade da Geórgia em 1961. Ela suportou a animosidade que a certa altura incluiu um ataque de uma horda de segregacionistas ao seu dormitório com pedras e garrafas. A polícia da cidade teve que conter a multidão, mas ela se manteve firme com coragem...”

De lavador de pratos e semialfabetizado, o ator venceu com muito sucesso numa profissão de poucos, foi reconhecido e respeitado. Ele filosofa, opina sobre o mundo e explana sobre suas crenças, sobre Deus.  Aliás, Poitier nascera prematuro, sua vida periclitou, mas sobreviveu pelo esforço de sua mãe. Ele dá a entender que sua vida foi protegida por Divindades.

O livro é bom.



“O Presidente negro”

Por ocasião da vitória de Barack Hussein Obama à Presidência dos Estados Unidos, fiz breve resenha de um livro esquecido de Monteiro Lobato “O Presidente Negro”, uma ficção na qual se tornara presidente pela primeira vez, um negro, porque houvera nas eleições uma divisão entre homens e mulheres brancos mas não entre os negros.

Essa resenha e diversas outras poderão ser conhecidas neste Temas, no título “Dos livros que não consegui ler (ainda?). E os já lidos” de 17.10.2010. (2)

Nessa resenha do livro de Monteiro Lobato, teci um paralelo sobre os conflitos raciais, nestes termos:

“Essa intolerância se manifestara de modo intenso na década de 60, relembrando-se os conflitos violentos havidos em 1962, na cidade de Los Angeles nos quais negros praticaram saques, depredações e agressões, depois da absolvição de policiais que covardemente haviam espancado um negro a ponto de provocar fratura craniana. A absolvição dos policiais fora decidida por um júri composto de brancos.

Dentre todos esses conflitos e mortes, mencione-se o assassinato de Martin Luther King, ativista negro, religioso e pacifista, então com forte influência política, morto em 04.04.1968. Há dúvidas sobre sua morte, o mandante e as motivações; há até mesmo menção a uma “teoria conspiratória”. Ele tinha um sonho:

“Eu tenho um sonho de que um dia esta nação vai se levantar e viver o verdadeiro significado de sua crença: 'Consideramos essas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados iguais'. Eu tenho um sonho de que um dia, nas montanhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentarem-se juntos à mesa da fraternidade. Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter.” 



[Discurso proferido em 28.08.1963, em Washington, nos degraus do "Lincoln Memorial, ouvido por 250 mil pessoas, completando 50 anos em 2013].

Registre-se que na época da morte de Luther King já vigorava nos Estados Unidos, desde 1964, a lei dos direitos civis – de cuja luta participara – que proibia discriminação no que se refere à religião, à nacionalidade, inclusive no âmbito profissional. Pouco tempo depois, a proibição de discriminação se estendeu a indivíduos com mais de 40 anos e de práticas salariais diferenciadas entre homens e mulheres, que exerçam trabalhos iguais ou semelhantes.

Tudo isso sistematizado na denominada “ação afirmativa”, que garantiria “oportunidades iguais de emprego entre os americanos”, indica que os negros de lá, de um modo ou outro, conquistaram e conquistam oportunidades efetivas de ascensão social e profissional.

No cinema, os negros deixaram de ser coadjuvantes para se tornarem protagonistas. O cinema é uma espécie de vitrina da sociedade americana o que de bom e ruim.

Mas, esses avanços não significam que se estabeleceu o paraíso com a “ação afirmativa”.”


Referências:

(1) “Uma vida muito além das expectativas” – Editora Larousse – Edição brasileira em 2009.

(2) “Dos livros que não consegui ler (ainda?). E os já lidos” de 17.10.2010 neste Temas, além da obra de Monteiro Lobato fiz resenhas ou comentários de livros e autores seguintes, entre outros:

"Os Sertões" de Euclides da Cunha
"Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa 
"Raízes do Brasil" de Sergio Buarque de Holanda
Friedrich Nietzsche
"Ulisses" de James Joyce
"1984" de George Orwell
"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley


Um comentário:

ॐ Shirley ॐ disse...

Gostei de saber o resumo desses livros, Milton. Pode demorar mais um pouco, mas, chegará o tempo em que não haverá mais fanatismo separatista. Abraços!