14/02/2010

CAMARÕES





Detroit fotografada de Windsor - Canadá







Só tinha o que comemorar chegando ao fim da jornada profissional nos Estados Unidos. Cumprira com poucos baixos minha estada naquele país que aprendi a admirar. O último compromisso fora em Detroit, porque me convidara a visitar a Chrysler e que, na verdade, atendera ao meu “convite” com alguma relutância; optara por conhecer sua linha de montagem toda automatizada. Para mim, seria importante essa tecnologia algo cultural, porque havia trabalhado para essa empresa no ABC e a linha de montagem era longa, cheia de “estações” de trabalho até que, na outra ponta, o carro saia pronto.
No hotel, que transpirava luxo por todos os lados (não me lembro se no Westin), no último jantar subira até o teto no restaurante giratório, envidraçado, sofisticado, que permitia ver a cidade por todos os ângulos.
Nos dois dias de feriado que procederam à visita, visitara rapidamente Toronto, passando antes pela pequena London. Naquele dia e meio achei o Canadá mais lento, talvez exalando riqueza, expressão que ouvira no passado de um belga ao se referir ao seu próprio país.
Com uns dois amigos de última hora fizemos nossos pedidos e enquanto aguardávamos a comida, num copo imenso, foram servidos camarões temperados, brinde da casa.
Já meio cismado com frutos do mar porque havia anos assumira não comer carne de qualquer espécie, mas eram eles ainda uma forma de compor algum cardápio em situações especiais, comecei por comer camarões.







Num dado momento pergunto, apontando para alguns exemplares no meu prato:
- O que são estas linhas pretas aqui, encima dos camarões?
Um dos que ocupavam a mesa, me responde com ironia:
- São os intestininhos do bicho. Eles são os temperinhos do bicho.
Diziam que os camarões eram espécie de urubus minúsculos dos mares que se alimentavam de tudo o que apodrecia.
Meu estômago revirou, um assombroso sopro em forma de arroto exalou silencioso. A minha repulsão tornara-se impossível disfarçar.
Mal jantei, um macarrão temperado razoavelmente, apimentado. Seria a salvação, depois de comer por longo tempo pizzas adocicadas, fast food, catfish frito...
Os americanos não se alimentam bem, no dia-a-dia.
Até acho que o arroz e feijão constituem uma mistura alquímica.
Certa vez, em Veneza, anos depois, ao serem servidos frutos do mar, minha rejeição se acentuou ao ver camarões misturados com bichos que pareciam minhocas. Argh.

A última vez, aqui em casa, muito bem preparado, arrisquei comer camarão no coco e arroz, algo como uma especiaria. Pois, bem. À noitinha entrei num processo febril bravo que me deixou dois dias de molho.
E assim, hoje, todo camarão à minha frente me faz ver aquelas linhas pretas às quais fui apresentado e degustei em Detroit com um vinho branco da melhor qualidade.
Não será preciso dizer que os frutos do mar foram também abolidos do meu cardápio. Para sempre.

5 comentários:

Ivana Maria disse...

Oi amigo Milton, tudo bem?

O camarão é chamado de "barata do mar" pois se alimenta de todo tipo de lixo e sujeira. Só que nos restaurantes é tido como iguaria fina, e os pratos que são elaborados com esse bichinho são caríssimos.
Parabéns por ser vegetariano e contribuir com o planeta.

abrs
Ivana

Anônimo disse...

Ivana
Tenho poucos amigos que ocasionalmente leem o que escrevo neste espaço. Ainda que assim não fosse, sua presença aqui muito me honrou, pode acreditar. Abraço. Sds. MM

Caio Martins. disse...

Grande Milton, na contramão, este seu amigo come qualquer coisa que não saia correndo (ou voando) do prato... Porém, entendo não só as razões ideológicas, mas também as físicas que o motivam.
Creio que podemos "enganar" nossas crenças até certo ponto, jamais a nossa natureza. O resultado sempre será, senão desastroso, bastante incômodo. É a lição que sua crônica propicia. Gostei!
Forte abraço.

Anônimo disse...

Querido Milton,

também fiquei com o estômago meio embrulhado ao ler o que você passou com esse bichinho cheio de pernas.Mas alguém (?) me disse que o fiozinho preto não são os intestinos do lixeirinho. São um prolongamento nervoso do cérebro ( será que ele tem isso?). Caro amigo, os intestinos, me disseram, ficam na cabeça dele. Mas não sei se acredito...
De qualquer forma, bom agrião para você.
Aracéli.

Emerson Marcon disse...

Milteta,
admiráveis as mudanças que o tempo causa! Depois dos 40 "linhas pretas no camarão" e "macarrão apimentado" provocam reações sub-conscientes... Aos 18 "leite de cobra" do Bar do Paulo, pizza do Bar Brasil, bauru do Sinhazinha e do Autonomistas, pernil no pão do bar do Alvaro, etc. não mexiam com a gente. Não queríamos saber nem a origem e nem como eram feitos! Artigo muito bem escrito (como sempre)e estou com o Caio está no prato, não está vivo e nem andando vamos experimentar... vai que é gostoso!
Abraços saudosos
Emerson