04/09/2011

TRADIÇÕES, MEMÓRIAS, FRAGMENTOS (II)

Como já expliquei antes, farei desse título uma série referindo-me a momentos diferentes de memória e fragmentos dela. Assim, para diferenciar esses “momentos diferentes”, o segundo texto será sempre grafado em itálico para estabelecer o contraponto.


Tradições e outros

Acho que os sonhos, se não fossem importantes nós não sonhávamos. Eles anulam tempo e espaço, fazem-nos viajar, reviver e conviver, “pessoalmente”, com episódios já vividos e reprisados e nos encontrar com entes que da mesma forma fizeram parte de nossa vida, ou deram um sentido especial. Bom ou ruim.
É nesse lapso que até mesmo a censura pode ser anulada. De onde provêm essas sensações virtuais, essa liberdade...essa libertinagem?
Uma espécie de arquivos na mente (superior?) como um google que eclode sem ser acessado.
Talvez até já tenha me referido ao sonhar acordado. Na Barão de Itapetininga, que é uma rua (agora já não sei) que gosto de São Paulo, parei numa loja de discos, porque garoava, um resquício daquela garoa que dera um qualificativo no passado à grande cidade e, à espreita, vi aquelas imagens de pessoas que irradiavam menos ou mais calor, não reclamando do vento forte e molhado e, quem sabe, tendo tudo aquilo como bênçãos. A alma lavada.
Um sentido de serenidade numa cidade sacrificada pela sua grandeza e para mim, também um sentido emocionado de anonimato naqueles instantes.

“Acordo” e volto ao chão da Barão molhado. Reflito das quantas vezes frequentara o Mappin, antiguíssimo ali na esquina com a Xavier de Toledo, uma tradição que veio abaixo pela falência, uma perda, porque fora um referencial por décadas. Mais que o Teatro Municipal do outro lado.
Afinal tudo prescreve. A vida prescreve. E quando ela prescreve, no seu tempo pré-fixado nem sei bem como e por quais motivações, na mais das vezes, desaparecem as próprias experiências da vida que não chegaram a ser contadas. Já devo ter falado disso, também, em alguma crônica passada.
Vindo da PUC de São Paulo, lá das Perdizes, no meu velho fusca-64 vermelhinho que nunca me deixara na mão – e quando deixava, bastava uma lixada na abertura do platinado para ele voltar a funcionar -, me vejo parando, uma vez por semana, pelo menos, na Leiteria Americana, também na Xavier de Toledo. Ali, relaxava um pouco às dificuldades das provas (direito penal, meu carrasco), matava a fome com mini-pizzas e chocolate quente nos dias frios.
Lá pelas tantas chegava a São Caetano do Sul com tantas aventuras e sonhos para contar. Mesmo que o interesse seja muito restrito ou seja apenas do meu interesse que digam respeito somente a mim.

Memórias, fragmentos

Corriam aqueles tempos em que ter um Fusca 1300 era ser rei na paquera.
Em São Caetano, o cine Vitoria sob um prédio com alguns andares, tinha logo ao lado das bilheterias, um bar de bom padrão. Quantas vezes ali me servi de pizzas do tamanho de um prato ou arrisquei um licorzinho ameno nas madrugadas.

Numa das salas do prédio, instalara-se o Centro Acadêmico que, como se deduz, concentrava esses estudantes que já haviam ingressado no curso superior.
Muitos desses acadêmicos se reuniam ali ao lado do “bar vitória” ou na esquina. Nos contatos que tive com alguns deles constatei que exalavam cultura, bem informados, revelando todo o meu despreparo.
Um deles, acadêmico de direito do Largo de São Francisco, aprendera inglês em contato com o “éter” – enquanto eu fugia desesperado das aulas da língua ministradas por professora rigorosa. Foi naqueles dias que pela primeira vez devo ter ouvido a obra “Crime e castigo” de Dostoiévski e muito mais:
“Sartre disse...”, “Foi Bertrand Russell quem disse...”; “O livro”O Lobo da estepe” de Herman Hesse...” (1); “Herbert Marcuse no livro “Eros e a Civilização defende que...”
Para mim uma humilhação. Imaginem que poucos anos antes eu me ocupava em ler livros de Edgar Rice Burroughs sobre o personagem Tarzan! Lembro que já havia lido “Dom Casmurro” de Machado de Assis.
Alguns dos livros mais citados pelos acadêmicos da esquina do Cine Vitória procurei ler mas, por exemplo, “Lobo da Estepe” preciso reler porque não me lembro de absolutamente nada do seu “enredo”. (2)
Bem, passados tantos anos, me pergunto por onde andam esses intelectuais tão jovens. Sei que um deles já “mudou de lado”, outro se deu bem na vida profissional...mas, e os demais que me marcaram tanto? Perderam-se no tempo, nalgum lugar.
Porém, se havia assunto que me preocupava desde então, era a preservação das florestas. Essa pequena crônica abaixo se situa naqueles idos e a idéia, mais tarde, inspiraria um poema com o mesmo tema, já publicado neste Temas:

“Paisagem
Vez por outra busco uma estrada com vegetação cerrada que toma ambos os lados. Próximo a uma baixada onde a vista se perde, lá embaixo é qualquer coisa de magnífico, notar os raios solares beijando as frondosas árvores, seculares árvores, talvez.
Bem à minha frente, eis uma delas, várias delas nas redondezas. São rainhas, sem trono nem coroa. Seu reino é a própria dignidade que externam, é a sombra também secular que propiciam.
Aqui me sinto bem! Esqueço os problemas mesquinhos, perco o egoísmo e o espírito anda por lá, por aqui.
Outro dia voltei ao local tão sereno. As árvores seculares foram destronadas: o progresso ultrajou-as. “Aqui a natureza dará lugar ao progresso”, dizia uma placa.”


Isso escrevi na década de 60. Nem pensar no hoje, “natureza dando lugar ao progresso”...e à cobiça desenfreada!


Legendas:


(1) De Hermann Hesse (“Siddharta”), v. “A Sabedoria dos rios” crônica de 22.11.2009
(2) Resenha de livros:
“Dos livros que não consegui ler ainda...e os já lidos” de 17.10.2010
“Madame Bovary e Anna Karenina – duas personagens” de 28.03.2010

Fotos:
1. Rua Xavier de Toledo à noite, foto de Fernando Martins (Google)
2. Entrada do Cine Vitória (SCSul), hoje desativado. À direita é possível divisar a entrada do também extinto “bar vitória”. Foto obtida em www.panoramio.com (Google)

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