24/02/2013

GUERRA, POR FALAR EM...E SUAS TRAGÉDIAS HUMANAS


Breve 'debate' do tema “guerra” inspirado nalguns títulos da literatura universal (“Nada de Novo no Front”, “Guerra e Paz”), no cinema (“Rambo”) e análise filosófica sobre elas (Krishnamurti).

"NADA DE NOVO NO FRONT"

Veio às minhas mãos, “Nada de novo no front” de Erich Maria Remarque. Livro antigo, lançado em 1929, fez muito sucesso editorial e inspiraria produções cinematográficas, pelo que sei, duas em Hollywood.

Trata-se da experiência do personagem na 1ª Guerra Mundial, defendendo o lado alemão, escudando-se nas fronteiras precárias e, ali, nessa vida sem valor, vendo a morte e mutilações indescritíveis a cada dia e a morte de seus amigos – irmãos no sofrimento.

Relata o personagem Paul:

“Sou jovem, tenho 20 anos, mas da vida conheço apenas o desespero, o medo, a morte e a mais insana superficialidade que se estende sobre um abismo de sofrimento. Vejo como os povos são insuflados uns contra os outros, e como se matam em silêncio, ignorantes, tolos, submissos e inocentes. Vejo que os cérebros mais inteligentes do mundo inventam armas e palavras para que tudo isso de faça com mais requinte, e maior duração.”


E nas trincheiras,

“Corremos agachados como gatos, submersos por essa onda que nos arrasta, que nos torna cruéis, bandidos, assassinos, até demônios; essa onda que aumenta nossa força pelo medo, pela fúria e pela avidez da vida, e que é apenas a luta pela nossa salvação. “ (...) Ficamos à espreita. O fogo salta cem metros à frente – retomamos à ofensiva. Ao meu lado, a cabeça de um cabo é arrancada. Ainda corre mais alguns passos, enquanto o sangue lhe jorra do pescoço, como um repuxo.” (1)




Como se amolda a mente de um soldado obrigado a fuzilar, a bombardear uma aldeia, uma cidade, sem saber das vítimas que fez, em nome do dever?

Há consciência nessa “tarefa”?

Nunca será demais referir-se sobre os estragos brutais de uma guerra, as mortes violentas e indescritíveis, no Japão, as bombas americanas sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, as guerra do Vietnã, Iraque, Afeganistão, o trauma do 11 de setembro em Nova York e no mundo, etc.

O mundo em que vivemos é um grande matadouro, já disse alhures.

Por isso, por todos os conflitos em que se envolveram e se envolvem os Estados Unidos, não estranho, por lá, entre milhares de pessoas, a proliferação de armas até de grosso calibre, para muitos indivíduos, engatilhadas para matar.


"RAMBO"

A guerra do Vietnã foi para os Estados Unidos por demais traumática. Há em pontos do seu território, memoriais com os nomes de todos os mortos nessa guerra perdida. E também do lado vietnamita há lembranças de suas vítimas, por pequenas campas em cada quintal.

Os veteranos americanos da guerra do Vietnã foram incluídos em programas de “ação afirmativa”, que incentivavam a sua contratação profissional e também dos mutilados.

Há, aliás, uma cena muito significativa no filme Rambo, que não escapara desse trauma. O enredo se concentra na presença do herói solitário (Rambo), um soldado com treinamento especial, apto a suportar os maiores desafios, que vaga pelas plagas do seu país em busca dos seus amigos, soldados também, mas não os encontrou, porque todos mortos.

Nessas caminhadas, chega Rambo a uma pequena cidade na qual é gratuitamente hostilizado, até que parte para o revide e a partir dai a violência explode na tela.


No final, diante do seu general, que o “criara” com aquelas habilidades sobre-humanas, explode num choro convulsivo lamentando a solidão e até mesmo a sua impossibilidade em conseguir...um emprego, porque veterano do Vietnã.

"GUERRA E PAZ"

No imenso “Guerra e Paz” de Leon Tolstoi há uma “cena” para mim bastante significativa. Um momento em que o herói da história, Pedro, luta com um soldado francês. Ambos se confundem quem era quem naquela luta que se iniciara, a preocupação descabida, a insanidade que só a guerra produz:

“Durante alguns instantes, miraram-se os dois rostos desconhecidos um ao outro, com espanto e perplexidade. Cada qual perguntava a si mesmo: “Fui eu que o aprisionei ou ele que me aprisionou?” O oficial francês parecia pender mais para esta última suposição, porque a mão vigorosa de Pedro, movida por um terror instintivo, lhe apertava cada vez mais a garganta. Ia dizer qualquer coisa, quando uma bala passou num assobio sinistro quase aos rés de suas cabeças; Pedro pensou que a do francês tinha sido arrancada, tão rapidamente a havia abaixado. Baixou também ele a sua e largou a presa.”

Claro que a obra de Tolstoi é, sobretudo, um romance com fortes impressões da ambição conquistadora de Napoleão que invadiria a Rússia.

O castigo dado a um traidor russo que se “vendera” a Bonaparte:

“- Uma boa machadada, hem?...Está estrangulado?...O traidor, o Judas! Não, respira ainda!...Tem a vida dura!...Só tem o que merece!...Uma machadada!...Está acabado?”

(...)

“Oh! Meu Deus, que animal feroz é o povo! Como depois disso poderia o coitado viver ainda?!” – repetia-se. – “E como era jovem!...sem dúvida um filho de papai!...Ah! o povo!...Dizem que não era esse...Como, não era ele?...Oh! meu Deus! E o outro em quem bateram, dizem que está semimorto!...Oh! o povo...aquele que não tiver medo do pecado...” diziam as mesmas pessoas que contemplavam agora, com compaixão, o cadáver de Verechechaguin, cujo rosto roxeava, coberto de sangue e de poeira e cujo longo pescoço esguio estava seccionado pela metade.”
 
(2)

Cenas de guerra, até “suaves”.

E o mal que fazem as guerras aos seus jovens soldados, obrigados ao “heroísmo” e a matar?


KRISHNAMURTI

J. Krishnamurti, filósofo de origem indu, considerado desde quando criança, pela Sociedade Teosófica um novo profeta – e ele rejeitaria esse qualificativo – educado por ela, tornou-se nos idos da década de 60, importante conferencista que pregava o que pode ser resumido na busca do autoconhecimento para mudar o caos em que se encontra o mundo:

“Não são apenas os americanos e os vietnamitas, porém cada um de nós, os responsáveis por essas guerras monstruosas. Não estamos empregando superficialmente a palavras, “responsáveis”. Nós somos responsáveis, não importa se a guerra está no Oriente Médio, ou no Extremo Oriente, ou noutra parte qualquer. Há fome, em grande escala, governos ineptos, acumulação de armamentos, etc. Observando tudo isso, somos natural e humanamente levados a exigir uma mudança, uma revolução em nossas maneiras de pensar e de viver.
Afirma que essas tragédias são causadas pela nossa “consciência nacional” e pela nossa religião: “Nossos deuses, nossas nacionalidades nos dividiram”.
Às vezes, sinto no seu pensamento certo limite porque atingir essas consciência – “aprender a respeito de nós mesmos” – sem fragmentações não se constitui tarefa fácil.

Já naqueles anos, servindo para os dias atuais, sem essa “revolução” religiosa – religiosa num sentido de interioridade e não de exterioridade – dizia ele que,

“Somos o depósito de todo o passado, da experiência racial, familial e individual da vida; somos isso e, a menos que em nossa própria essência haja uma revolução, uma mutação, não vejo possibilidade de nascer uma sociedade boa”.(3)

Creio mesmo que, aqueles espíritos superiores que conseguiram essa “revolução na própria essência”, pelas dificuldades que se apresentam hoje para viver com alguma plenitude nesse mundo tão desigual e contraditório, fogem desse cotidiano amargo.


Não divisando a possibilidade de “revolução na própria essência”, percebo a vida neste mundo cada vez mais difícil de ser vivida. Não há no relacionamento entre os povos aquele desprovimento do “seu mundinho”, de suas fronteiras, de suas idiossincrasias, pelo que a violência se manifesta, se ampliam os atos terroristas nestes tempos, cruéis, as armas de grosso calibre com poder de ceifar milhões de vidas a par de fazer tremer a própria estrutura da Terra...

Ah, sim, a fome poderia ser banida no Mundo se houvesse a utilização de apenas parte desses recursos bélicos imensos para o combate à miséria e introduzir o sentido da solidariedade.

Referências:


(1) Erich Maria Remarque, “Nada de novo no front” (Ed. Record)
(2) Leon Tolstoi, “Guerra e Paz” ( Ed. Itatiaia – 1997 – Vol. 2)
(3) J. Krishnamurti, “Como viver neste mundo” (Inst. Cultural Krishnamurti – 1976).

Imagens / Fotos:

1ª. Google;
2ª. Personagem Rambo;
3ª. Serenidade da noite sob a luz do luar - foto de Milton Pimentel Martins




7 comentários:

Caio Martins disse...

Excelente, meu caro Milton. O "espírito guerreiro", ou instinto assassino, é tão próprio do bicho-gente quanto respirar. Nenhum animal é tão feroz quanto nós. E tão insidioso.
Parabéns pela matéria. Abçs.

TEMAS LIVRES disse...

Caio
Muito grato pelo seu comentário. Você sempre é o primeiro a "chegar". Abraço do seu amigo de sempre.

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Perplexa, eu pergunto: Será que quem promove, de alguma maneira, a guerra, não tem família, filhos, netos?... Ah! O que lhes falta é consciência e evolução...Milton, um abraço!

TEMAS LIVRES disse...

Shirley, é realmente incompreensível, mas como disse você, é um problema de ser humano em evolução, num mundo em que se misturam seres mui atrasados e sumidades. E o pior é que têm prevalecido os atrasados. Sds. MM

Anônimo disse...

É verdade, dr. Milton. Vivemos num mundo feito de contrastes profundos. E quase sempre essa "diversidade" nos assombra...
Abraços da Marisa Bueloni