04/04/2010

PIRÂMIDES DE TEOTIHUACAN...e os arrepios da brisa (?)

Há anos, como uma forma de treinamento – especialmente no que se referia às estratégias de negociações sindicais - e adquirir no mais alguma visão internacional fui escalado para conhecer alguns países latino-americanos, incluindo o México.
Quando aportei no México, na capital, claro, já batia, então, forte, a saudade dos meus e do próprio Brasil. Já me cansara, efetivamente, de "hablar o portunhol". Já estava quase chegando ao “espanhol puro”.

O México não seria a última parada. Haveria, ainda, a Venezuela, então um país com forte moeda, pelo seu petróleo, que irrompia "aqui ou ali" na versão de um bem humorado venezuelano que lá conheci e ainda uma passada por Manaus.

Naqueles idos, as comunicações não tinham a desenvoltura e as facilidades de hoje

Num entardecer, depois de uma visita atribulada à fábrica de automóveis na cidade
de Toluca, meio deprimido, não tanto pelo "home sick", mas pela recepção impaciente que recebera nessa minha estada profissional, dentro de um carro magnífico, mal me dava conta dos recantos mexicanos.

Rumávamos para meu hotel e eu me perguntava do desequilíbrio daquele dia. “Afinal, pensava, não seria uma rara oportunidade que teriam os mexicanos que me recepcionaram de comparar os países e os modos de vida”? Naquele momento a oportunidade se perdera.

Não me dera vontade de começar qualquer conversa com o motorista, um sujeito afável e amistoso que não merecia minha indiferença. Era eu quem perdia aquela mesma oportunidade.

Diante do meu silêncio deselegante, ligou o rádio. A música que tocava, naquele instante, fora um alento: "Jesus Cristo" de Roberto Carlos. Naquele país distante, apertado pela saudade, nada mais reconfortante que ouvir Roberto Carlos com aquele seu apelo: "Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui..."

Fora como um chamamento, uma sacudida para me lembrar da religiosidade dos mexicanos. Nas fábricas que visitei, em vários locais, mesmo na linha de montagem, havia altares com a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. A reverência permanente à santa.
















Visitando a magnífica Catedral Metropolitana da cidade, num dia de solenidade religiosa, mal pude me mexer dentro da igreja de tão lotada.
Num dos últimos dias no México, numa providencial manhã de folga, fui visitar as pirâmides de Teotihuacan, nas proximidades da cidade.
Essas pirâmides situam-se num local que chamaria de imenso largo escampado. São suntuosas e impressionantes construções de pedra, com degraus com cerca de 50 cm de altura.

O dia estava ensolarado e quente, o céu azul. Soprava uma leve brisa.
O conjunto das pirâmides transmitia, com o contraste do céu e do sol, um sentido enigmático. Ao me aproximar de seus domínios, fui acometido de leve mas perceptível arrepio que circulou pelos meus braços.
Escalei a pirâmide do Sol, entrei nalguns de seus compartimentos com a vontade de intuir quais motivações religiosas poderiam ter inspirado tal modelo de obra.

De volta ao Brasil, pouco tempo depois, descrevia a um médico amigo as impressões desse passeio nas pirâmides de Teotihuacan. Estudioso de temas esotéricos ele me perguntou, sem qualquer expectativa, se eu não sentira algo de anormal naqueles sítios.
Relatei-lhe o arrepio, chegando ambos à conclusão de que aquela reação poderia ser resultado de vibrações que permaneciam no éter, ecoando pelos séculos, sendo captadas, eventualmente, pelo profundo magnetismo religioso que marcara o local.
Anos se passaram.
Desde aquela viagem, por muito tempo o México ocupara minha mente e espírito com muito carinho. Porque naqueles dias, e creio que ainda agora, havia interesse efetivo dos mexicanos pelas coisas brasileiras, especialmente pelo futebol e pela música.
Em 1992, por ocasião das comemorações do 5° século do descobrimento da América, as diversificadas pesquisas e indagações que essas comemorações propiciaram, só vieram confirmar minha relativa ignorância sobre os astecas.
Se os espanhóis se comportaram como bárbaros para dominar o grande império asteca, como se comportavam estes em relação aos seus prisioneiros?
Os astecas praticavam sacrifícios, com requintes de crueldade e depois os devoravam. As pirâmides, então, asseguram os historiadores, cheiravam matadouros porque eram exatamente o que eram. Os prisioneiros, com os corações extirpados do peito, eram empurrados lá do alto.
A cidade do México foi construída sobre a destruída Tenochtitlán (capital do império asteca, fundada em 1325). De tão bonita e organizada essa cidade asteca, Cortês, o conquistador espanhol, chegara a escrever: "Não posso dizer outra coisa senão que na Espanha nada existe de comparável".
Houve, pois, naqueles terrenos, do alto das pirâmides e nas suas imediações, muito sofrimento, sacrifício e sangue derramado. As vibrações que ali se expandem podem conter gritos propagando forças revoltas e inconsoláveis do sofrimento e da morte.
O meu quase imperceptível arrepio, mas indelével, quando da minha visita às pirâmides, não terá sido uma tênue ligação com uma manifestação sutil do mistério da morte e do pavor dos sacrificados?
O arrepio é comum no frio, no susto e no medo. Não me parece que seja veículo para transmitir um instante de inspiração, de elevação.
Por essas contradições é que, até hoje, tenho essa como uma experiência valiosa e inesquecível. Não poderia ser indiferente a ela, imaginando que aquela sensação fosse apenas o efeito da brisa que soprava. Enfim, não posso ignorar, num mero dar de ombros essas passagens que, de certa forma, fortalecem o espírito e temperam a vida.

PS: Alguém insiste: “E se fosse mesmo apenas a brisa “encanada”? Pensei e não vacilei na resposta: “O que mudaria?”

Fotos:
Catedral Metropolitana do México: flicker.com (Google imagens)
www.planetware.com/picture/mexico-teotihuacan (Google imagens)

28/03/2010

MADAME BOVARY E ANA KARENINA, DUAS PERSONAGENS

Explicação

A literatura contém muitas obras em que paixões arrebatadoras eclodem e os personagens com tudo rompem, incluindo os padrões sociais para exatamente viverem num outro estágio de vida, alimentando uma nova experiência de convivência apaixonada, de amor.
(Já me deparei com situações dessas em que o casal apaixonado assume a troca por nova vida com o novo amor. Nos dias de hoje, em qualquer fórum, se desvendados os verdadeiros motivos das separações e divórcios, em muitos essas paixões aparecerão.)
Se as pequenas paixões momentâneas, casuais, uma presença constante são inesquecíveis o que dizer das grandes paixões. Aceito qualquer ressalva sobre esse tema tão humano e tantas vezes guardado a sete chaves no coração de tantos por toda a vida.
Mas, ah! os tempos, naqueles tempos duma sociedade tão conservadora quanto hipócrita que fiscalizava com rigor as atitudes das mulheres, em especial, e suas paixões adúlteras, não aceitas e rejeitadas à execração...
Por isso, proponho-me a analisar duas personagens literárias famosas: “Madame Bovary”, obra de Gustave Flaubert escrito nos idos da metade do século XIX e “Ana Karenina” de Leon Tolstoi, escrito uns vinte e poucos anos depois, ainda no mesmo século.

Madame Bovary

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TEXTO REVISTO













Ana Karenina

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TEXTO REVISTO






21/03/2010

PAIXÕES


Explicação

O texto a seguir reconheço meio confuso, escrito há muito e que foi rejeitado em tudo quanto publicação, ao ser submetido.
Não tenho obrigação, porém, de apenas divulgar textos compreensíveis. Não me agrada a proposição melosa, falsa, como se dá com mensagens supostamente inspiradoras, das centenas de PPS (power point slideshow) que tramitam pela internet: “faça isso”, “faça aquilo”, e pior, com um fundo musical enjoativo, atribuem tantas vezes esses textos a autores famosos que jamais se prestariam a redigi-los. Nesses PPS percebo um sentido de exaltação do ego dos seus autores. Escrevem mirando-se no espelho.
Bem, o meu texto “patinho feio” que nunca será um cisne, é este:

(Quando o texto é grafado em italico, é porque foi acrescentado ao original)

Quais forças movem o ser humano? A paixão? A necessidade? A vaidade? Um ideal?
A paixão tem escalas de intensidade: pode ser um sentimento cego, que afeta a razão ou algo entusiasmante, altamente motivador na consecução de um objetivo.
A vaidade, por seu turno, vai do fútil ao suntuoso com a mera motivação de ostentar. E só por isso ela se sustenta. Ela despojada, nada resta no espelho senão o ser humano diante de sua imagem. Porque a vaidade é sobretudo um alimento sem sabor e peso. Apenas vaidade.
A necessidade impulsiona o ser humano condenado apenas à sobrevivência. Tudo que ele realiza nesse estado, é desprovido de entusiasmo, de motivação. Resta apenas a alavanca da necessidade.
O ideal pode ser um objetivo vago perdido no tempo e no espaço ou um objetivo superior, materializado na mente, a ser alcançado um dia ou nunca.
O idealista que persegue seus sonhos, se coloca uma pitada deles na sua necessidade de sobrevivência e eis que o trabalho passa a ser não um fardo, mas prazer.
Talvez os grandes transformadores do mundo, nas suas ações, tenham colocado nos seus objetivos superiores uma boa dose de paixão, um bocado de vaidade (há que se admitir?) e o ideal misturado com a necessidade.
Para a maioria dos mortais, sujeita à necessidade de sobreviver, essas forças se manifestam em escalas menores, contidas ou apenas latentes. Quantas vezes o talento não é reprimido apenas porque há a necessidade da sobrevivência ?
Tudo isso revolve a minha mente porque, daqueles que tiveram o privilégio de viver e conviver intensamente a década de 60, deixei para trás muito de minhas paixões (transbordantes!), reprimi um pouco a vaidade (sempre ela!), ou a ela renunciei em alguns níveis porque, sobretudo, havia que prover a necessidade.
E assim aqueles ideais sonhados de ser um transformador do mundo ficaram nos sonhos irrealizados, nas nuvens da saudade e da nostalgia. Frequentemente eles se formam de novo no céu e eu os contemplo saudoso e agradecido.
Essas reflexões conduzem-me a perguntar quais seriam minhas genuínas paixões hoje, meus ideais e, afinal, o que me resta de vaidade.
Sem ter como explicar porque, do alto da minha não juventude etária, apaixonei-me pelo verde, pelas árvores, plantas, flores e animais de um modo geral. Um certo fanatismo a ponto de me tornar intolerante com a ignorância, a inconsequência e com o descaso de todos aqueles que destroem uma árvore por qualquer motivo ou mesmo sem motivo.
Na mesma década de 60, na sua segunda metade, com um amigo, imprimimos uns versos numa cartilha, com o sugestivo título "Versos para ninguém". A poesia, chamemo-la assim, porque não tinha talento para ela como não tenho hoje e que encerrava essa cartilha, de minha autoria, denominada "Pense", tinha a seguinte seqüência:


Pense nas flores silvestres e se tranqüilize,
Pense na singeleza das árvores e sorria,
Pense na alegria da passarada, sinta o Criador,
Pense no céu de doce azul, anime-se,
Pense nos animais despreocupados, reflita,
Pense na criança que nasce e confie,
Pense no sol que brilha e não desanime,

Pense num amanhã melhor e espere,
Pense no que de bom existe e lute,
Pense em toda a Natureza
Não se desespere,
A Natureza é Deus...


“O que de bom existe” é um conceito vago, segundo a avaliação de cada um.
Esse “poema” serviria hoje em gênero, número e grau para um PPS, mas deem o desconto, porque foi escrito na década de 60 (a menos que pusesse como autor, ninguem menos que Eisten, ai esse PPS imaginário circularia pelo mundo).
Ironias a parte, que me lembre, a palavra ecologia começou a ser empregada somente a partir da década de 80.
Muitos anos se passaram dessa "poesia" na qual reconheço o seu sentido ecológico e otimista, parece ser já o início dessa paixão que me arrebataria com o passar dos anos.
Aqueles todos que, como eu, apoiam-se tantas vezes na sombra ou na beleza duma árvore para um consolo ao impacto das misérias humanas, ela que tudo dá, até a paz florida do seu silêncio, que acolhe os pássaros e os animais, não podem desistir desse ideal de preservação, porque nesses tempos conturbados, tudo se resume a um estado de necessidade. Ou mais, de sobrevivência. O mundo apequena-se. A vegetação chegou antes de nós por aqui, como copa protetora de nossa vida, de nosso bem estar e de beleza para os que querem vê-la.
Há, pois, sempre que replantar o que foi devastado e lutar contra os predadores inconsequentes, teimosamente, com paixão, pela vaidade, pela necessidade ou por ideal.

Fotos de Milton P. Martins

14/03/2010

ILHABELA, NASCENTES E BORBOLETAS



Eis-me de volta à Ilhabela não tanto por minha vontade pessoal.




Um dos meus filhos, amante da Ilha, resolveu reunir, num fim-de-semana seus irmãos e amigos e respectivas esposas.
Explorando a Ilha, volto àquele centro simpático de cafés, livrarias, bibliotecas e restaurantes. Visito o Museu de História Natural e converso com um dos humildes zeladores do museu.
Num dado momento eu o provoco:
- Bem, a Ilhabela é uma ilha?
- Sim, claro, estranhando a pergunta.
- Cercada de mar e água salgada?
- Sim, é uma ilha.
- A água doce, vem de onde, do continente?
- Não, das nascentes nos morros aqui da Ilha.
- Mas, se é uma ilha cercada de água salgada, como pode haver água doce, de onde ela vem?
Ele ameaçou uma resposta certeira mas vacilou. Me encarou, refletiu, talvez pretendendo argumentar que eram reservas das chuvas intensas naqueles dias, mas como essas reservas permaneciam nos tempos sem chuva?
- Isso é obra de Deus, respondeu, me encarando com amizade, sorrindo.
Dei-lhe um tapinha no ombro e saí.
E eu, na minha ignorância, geologicamente, também não sei explicar as águas das ilhas. Talvez alguém o faça.



Preparo-me, numa aventura louca, em atravessar um parque municipal, uma estradinha(mais para trilha) largura que não cabia mais do que um carro, até a famosa praia de Castelhanos.
O jipe equipado para esse desafio caia de velho, imundo. O motorista encoraja a todos, falando da grande aventura que se iniciaria.
Logo no começo dos 22 quilômetros do caminho vi que a aventura era louca, mesmo, especialmente para mim cuja condição de garotão já passara havia muito.
A passagem dos jipes, um atrás do outro, produziram sulcos fundos o que fazia com que o veículo se inclinasse a ponto de, lá com meus exageros, bater o rosto no barranco. O solo estava mole depois de forte chuva na véspera.
Embora preocupado mantive a serenidade. No trajeto assim acidentado, entre os raios de sol que irrompiam pelas frestas da mata atlântica, houve um desfile de borboletas azuis – raridades em outras plagas.
Dizem que as borboletas sobrevivem em áreas não poluídas.
Me desculpem, mas esses serezinhos me são inspiradores, um simbolismo anímico. Sei das minhas projeções nesse campo e não as escondo. Com elas esvoaçando à minha frente senti os bons augúrios, sabia que o passeio acabaria bem mesmo com as inclinações cada vez mais acentuadas do jipe que roncava pelo esforço em sair daquelas valetas.
Assim se deu.




A praia dos Castelhanos é muito bonita.








À tarde, voltei de lancha. Não me dou bem com barcos sobre o movimento das ondas. Vou para o enjoo imediato. Concentrei-me do modo que pude para não dar vexame. Mas, em duas vezes a vontade de esvaziar o estômago se manifestou.
Todos os que voltaram por terra, por aquele mesmo caminho ficaram retidos por cerca de dez horas. Passaram a noite naquele escuro de breu atormentados por borrachudos. Camionetas 4 x 4 não conseguiram superar o barro e encalharam impedindo a passagem dos jipes.
O socorro de abnegados com "troler" só chegou ao alvorecer, um escândalo, porque se trata de um parque público que não reserva qualquer equipamento de emergência ou modos de ajuda em casos dessa gravidade.


Sobre as borboletas azuis, já publiquei o poema abaixo, muitas vezes. Eu o transcrevo de novo para dar o sentido que dou a elas. E porque considero dos melhores – tenho muita dificuldade em obter inspiração poética, só transpiração não basta:

ETÉREOS

Nessa de desânimo
apatia
Não sei o porquê
de tal melancolia
(ou nostalgia?)
Desmedida

Sei não!
Cadê a Inspiração
os elementos Etéreos?
Clamo, pois, só, no (meu) deserto
Respostas não vêm
Ilusões não há (mais).

Miro margaridas murchas
(bem-me-quer, bem-me-quer!)
Que se preparam para semente
Sinto o sol...
mas não me aqueço.
Num momento, surpreso
confuso
Sinto o Etéreo, porém.

Uma manchinha azul
No éter
Vindo, chegando, esvoaçando!

Ora, uma simples...
Borboleta...azul!

Ela dança nos meus olhos
Solene, encantada, frágil
magnífica, rebrilhante...
E pousa, então...
na margarida
a mais desfeita
na gema amarela.
(apenas três pétalas ressequidas)

Apreendi logo
o valor da escolha...
Da borboleta azul
Etérea
tão tênue
tão efêmera
Bem vinda...

Porque na margarida
murcha
na gema
Ela sentiu a vida
(ainda)

Assim falava ela
a borboleta azul
Etérea
na minha nostalgia
(ou melancolia?)
Naquele dia...



Fotos:
Ilhabela / paisagem - Milton P. Martins
Praia de Castelhanos: Google