21/03/2010

PAIXÕES


Explicação

O texto a seguir reconheço meio confuso, escrito há muito e que foi rejeitado em tudo quanto publicação, ao ser submetido.
Não tenho obrigação, porém, de apenas divulgar textos compreensíveis. Não me agrada a proposição melosa, falsa, como se dá com mensagens supostamente inspiradoras, das centenas de PPS (power point slideshow) que tramitam pela internet: “faça isso”, “faça aquilo”, e pior, com um fundo musical enjoativo, atribuem tantas vezes esses textos a autores famosos que jamais se prestariam a redigi-los. Nesses PPS percebo um sentido de exaltação do ego dos seus autores. Escrevem mirando-se no espelho.
Bem, o meu texto “patinho feio” que nunca será um cisne, é este:

(Quando o texto é grafado em italico, é porque foi acrescentado ao original)

Quais forças movem o ser humano? A paixão? A necessidade? A vaidade? Um ideal?
A paixão tem escalas de intensidade: pode ser um sentimento cego, que afeta a razão ou algo entusiasmante, altamente motivador na consecução de um objetivo.
A vaidade, por seu turno, vai do fútil ao suntuoso com a mera motivação de ostentar. E só por isso ela se sustenta. Ela despojada, nada resta no espelho senão o ser humano diante de sua imagem. Porque a vaidade é sobretudo um alimento sem sabor e peso. Apenas vaidade.
A necessidade impulsiona o ser humano condenado apenas à sobrevivência. Tudo que ele realiza nesse estado, é desprovido de entusiasmo, de motivação. Resta apenas a alavanca da necessidade.
O ideal pode ser um objetivo vago perdido no tempo e no espaço ou um objetivo superior, materializado na mente, a ser alcançado um dia ou nunca.
O idealista que persegue seus sonhos, se coloca uma pitada deles na sua necessidade de sobrevivência e eis que o trabalho passa a ser não um fardo, mas prazer.
Talvez os grandes transformadores do mundo, nas suas ações, tenham colocado nos seus objetivos superiores uma boa dose de paixão, um bocado de vaidade (há que se admitir?) e o ideal misturado com a necessidade.
Para a maioria dos mortais, sujeita à necessidade de sobreviver, essas forças se manifestam em escalas menores, contidas ou apenas latentes. Quantas vezes o talento não é reprimido apenas porque há a necessidade da sobrevivência ?
Tudo isso revolve a minha mente porque, daqueles que tiveram o privilégio de viver e conviver intensamente a década de 60, deixei para trás muito de minhas paixões (transbordantes!), reprimi um pouco a vaidade (sempre ela!), ou a ela renunciei em alguns níveis porque, sobretudo, havia que prover a necessidade.
E assim aqueles ideais sonhados de ser um transformador do mundo ficaram nos sonhos irrealizados, nas nuvens da saudade e da nostalgia. Frequentemente eles se formam de novo no céu e eu os contemplo saudoso e agradecido.
Essas reflexões conduzem-me a perguntar quais seriam minhas genuínas paixões hoje, meus ideais e, afinal, o que me resta de vaidade.
Sem ter como explicar porque, do alto da minha não juventude etária, apaixonei-me pelo verde, pelas árvores, plantas, flores e animais de um modo geral. Um certo fanatismo a ponto de me tornar intolerante com a ignorância, a inconsequência e com o descaso de todos aqueles que destroem uma árvore por qualquer motivo ou mesmo sem motivo.
Na mesma década de 60, na sua segunda metade, com um amigo, imprimimos uns versos numa cartilha, com o sugestivo título "Versos para ninguém". A poesia, chamemo-la assim, porque não tinha talento para ela como não tenho hoje e que encerrava essa cartilha, de minha autoria, denominada "Pense", tinha a seguinte seqüência:


Pense nas flores silvestres e se tranqüilize,
Pense na singeleza das árvores e sorria,
Pense na alegria da passarada, sinta o Criador,
Pense no céu de doce azul, anime-se,
Pense nos animais despreocupados, reflita,
Pense na criança que nasce e confie,
Pense no sol que brilha e não desanime,

Pense num amanhã melhor e espere,
Pense no que de bom existe e lute,
Pense em toda a Natureza
Não se desespere,
A Natureza é Deus...


“O que de bom existe” é um conceito vago, segundo a avaliação de cada um.
Esse “poema” serviria hoje em gênero, número e grau para um PPS, mas deem o desconto, porque foi escrito na década de 60 (a menos que pusesse como autor, ninguem menos que Eisten, ai esse PPS imaginário circularia pelo mundo).
Ironias a parte, que me lembre, a palavra ecologia começou a ser empregada somente a partir da década de 80.
Muitos anos se passaram dessa "poesia" na qual reconheço o seu sentido ecológico e otimista, parece ser já o início dessa paixão que me arrebataria com o passar dos anos.
Aqueles todos que, como eu, apoiam-se tantas vezes na sombra ou na beleza duma árvore para um consolo ao impacto das misérias humanas, ela que tudo dá, até a paz florida do seu silêncio, que acolhe os pássaros e os animais, não podem desistir desse ideal de preservação, porque nesses tempos conturbados, tudo se resume a um estado de necessidade. Ou mais, de sobrevivência. O mundo apequena-se. A vegetação chegou antes de nós por aqui, como copa protetora de nossa vida, de nosso bem estar e de beleza para os que querem vê-la.
Há, pois, sempre que replantar o que foi devastado e lutar contra os predadores inconsequentes, teimosamente, com paixão, pela vaidade, pela necessidade ou por ideal.

Fotos de Milton P. Martins

3 comentários:

Ivana Maria disse...

Caro amigo Milton

Comungo de suas ideias. Quando jovens, somos idealistas e achamos que podemos mudar o mundo.
A paixão latente nos acompanha vida fora. Tem toda razão quanto à vaidade e arrogância que são características do ser humano.
Também eu sou apaixonada pelo verde e pelos animais, com certa dose de fanatismo. Veja o exemplo da Brigite Bardot, ícone de beleza na década de 60 e agora idosa, renunciou às vaidades e dedica a vida à causa da proteção aos animais. Uma lição de vida!

abrs e gostei muito do seu texto
Ivana Negri

Marisa disse...

Em primeiro lugar, bravo pelos pps da vida. Alguns apenas torram nossa santa paciência. Já o seu texto, é uma beleza! Sim, o que nos move? Um ideal, a paixão, a vontade de realizar algo? Feliz de quem "sobrevive" fazendo aquilo que gosta. Felizes os que se "encontraram", de algum modo, e se realizaram nesta vida! Belo texto, dr. Milton! Abraços da Marisa

Aracéli Martins disse...

Querido Milton,

as ternuras e os apreços fazem a vida não ser apenas um inferno frio, com pessoas sem rosto. Pena, de alguma forma perversa, haver quase que um interdito no universo masculino à expressão desse aspecto importante da vida. Mas fico mais triste ainda ao ver que tantas mulheres hoje em dia têm vergonha de exprimir amor, de expressar apreço. Apreço, apreciar. Tudo isso requer tempo e paz, coisas tão raras atualmente. Mas quando um homem vem conscientemente falar da importância dessas qualidades humanas, a gente sente esperança: o apreço e a ternura estão vivos. Só estão enterrados debaixo de camadas defensivas, que não levam a nada.