22/05/2009

AMARGURAS E TERNURAS CONTIDAS



VÍCIO DOENÇA

Uma sensação de alívio. Aquele dia estava salvo. Tudo ficaria mais tranqüilo. O olhar para os colegas de escola seria mais confiante, haveria mais ânimo para enfrentar algumas aulas monótonas e, no geral, um fim de noite mais tranquilo.
A angustia ao anoitecer, era diária. Chegaria ele sóbrio ou embriagado?
Se embriagado, a angústia se converteria em constrangimento e insegurança.
A saída de casa seria envergonhada, não conseguiria sorrir porque tinha a sensação de que seus olhos, se o fizesse, revelariam seus segredos e sua amargura.
Por essa permanente incerteza, os amigos deveriam ser discretamente mantidos à distância de casa. Para qualquer adolescente, um pai não casualmente embriagado dificilmente não se constitui causa de alguns traumas.
Às vezes, uma exagerada reação agressiva com os amigos, momentos de exacerbada humildade, que se aproximavam da depressão.
Mas, nessa relação angustiada, tempestuosa e mesmo rancorosa, por incrível que pareça, há dezenas de perdões e de promessas. Quem sabe, não será amanhã o início da recuperação, sendo a vergonha em casa mais forte que a tentação da bebida?
Seria o alcoólatra um egoísta sem vontade de reagir? Pois resta-lhe o sabor e, principalmente, o conforto e a alienação da bebida. Para a família, o sabor da amargura e, para os filhos, a vergonha das ruas e a insegurança constante. Mais, a impossibilidade de entender o desarranjo havido naquele ser humano amado, que se apresenta com a personalidade destroçada pelo álcool.

Havia lá pelos lados onde morei um bêbado perdido e abandonado, apelidado de "Risadinha", apelido que se coadunava com seus cantos desconexos e suas gargalhadas por nada, salvo a visão dos seus demônios alcoólicos.
Muitas e muitas vezes tropecei nele, sempre desacordado numa esquina suja, mitório de cães de rua, estirado, desacordado e malcheiroso.
Pendurado na parede, dois metros acima onde permanecia desacordado, era fixado o cartaz do principal cinema da cidade, que mudava duas ou três vezes por semana, anunciando os filmes e os dias de exibição. Quantas vezes os títulos dos filmes coincidiam com a cena do corpo negro jogado no canto imundo: “Qual será o nosso amanhã?”, “Servidão humana”.
Numa manhã de domingo surpreendi-me vivamente com ele. Lá estava "Risadinha" de pé, sóbrio, à minha frente. Retornara à vida. Um quase ex-alcoólatra estava tentando recuperá-lo, tendo mesmo arrumado um emprego para ele. Lembro-me bem: naquele dia, ao ser oferecida uma bebida qualquer, aceitara apenas "água tônica". Era um sujeito simpático e inteligente. Naquela manhã estava perfumado e seus cabelos crespos retidos por alguma loção naqueles tempos da brilhantina.
Depois daquele rápido período de vida abstêmia, fora encontrado morto na mesma esquina. O filme anunciado no cartaz, com uma ponta de ironia, lá pendurado, fora “A fonte dos desejos”. Seus amigos de bares e de porre total, ao serem informados de sua morte, apenas comemoraram com mais uma dose. Porque havia mais que comemorar, o álcool o exigia.
Os tempos mudaram, para melhor. Antes o alcoólatra era considerado um viciado fraco, egoísta e desavergonhado.
Hoje o alcoolismo é classificado como doença psiquiátrica pela Organização Mundial da Saúde mudança que dá tolerância maior ao alcoólatra que pode se submeter a tratamento especializado.

DESPEDIDA

Acompanhei de perto os últimos momentos de vida de meu pai, acometido de insuficiência respiratória, certamente pelas décadas de fumante que foi, a despeito de, havia muito, ter largado o vício com algum sacrifício no começo. Costumava mascar "chicletes" para se livrar da maldição do cigarro toda vez que a abstenção da nicotina reclamava reposição.
Lembro dele fazendo caminhadas pela cidade, cada vez mais curtas à medida que aumentava sua dificuldade em respirar.
Nos últimos momentos de sua vida, estivera eu em São Caetano do Sul, exatamente para resolver algumas pendências deixadas por ele e minha mãe naquela cidade do ABC.
Naqueles últimos dias, ele já estava na UTI, respirando com extrema dificuldade, sendo auxiliado por aparelhos.
Após resolvidas as pendências naquela cidade do ABC, passaria no hospital em São Paulo para visitá-lo.
O trânsito estava pesado, totalmente parado na Av. do Estado. O metrô paulistano estava paralisado em greve, agravando o tumulto.
Imobilizado no meio de todos aqueles carros, ansioso por chegar ao hospital, mentalmente solidarizava-me com as pessoas nervosas de uma cidade tão difícil como São Paulo, com o povão amarrotado dentro dos ônibus superlotados ou mesmo indo a pé, como naquela tarde, pela falta de transporte que lhe fora sonegado. A poluição era sufocante e as árvores mantinham (como mantém) um verde escurecido, sobreviventes.
Quando cheguei ao hospital, o horário de visita já se expirara. A recepcionista da UTI gentilmente compreendera meu atraso. Deram-me um avental branco e um par de sapatilhas também brancas. Devagar, mantendo o equilíbrio no chão liso do hospital, cheguei à enfermaria onde estava meu pai.
Havia outro paciente ao seu lado, prostrado, adormecido.
Meu pai estava muito pálido, muito magro com o aparelho de oxigênio ligado diretamente em suas narinas. Parecia dormir.
Sentiu minha presença: abriu levemente os olhos e fez um leve cumprimento com a cabeça. Fechou de novo os olhos e pareceu adormecer.
Tentei tocar seu peito, mas não cheguei a isso. Ele estava muito magro, com o peito encolhido pela doença.
Deixei o hospital. No elevador, desci com o médico da UTI. Pergunta óbvia para uma resposta insincera e grosseira:
- Doutor, quais são as possibilidade de meu pai?
- Como você acha que vou saber? A qualquer momento ele pode se recuperar...
Perturbado com a resposta assumi insensatamente que meu pai poderia viver mais algum tempo.
Viajei à noite para o Interior de São Paulo.
Ao chegar ao meu destino, ele já havia falecido. Cerca de 15 minutos depois de minha saída.
Um sentimento de revolta contra o médico e um profundo sentimento de dó e ternura por meu pai me invadiu.
Quais diferenças e divergências passadas poderiam macular aquele momento solene da despedida?
Tudo, naqueles momentos finais, se transformara em amor e perdão.
Permanecerão para sempre em minha mente o esforço daquele aceno, a ternura de um olhar sofrido. De uma ansiada e esperada despedida que se prolongou até minha chegada fora de hora ao hospital.
Muitas vezes sonhei com ele depois disso. A separação pela morte parece impenetrável, mas em determinados estados de consciência, o véu se rompe, principalmente quando ela foi calma e sem rancores, como no caso do meu pai.


Minha mãe se tornara uma mulher forte, todos esses anos de lutas e feridas que muito tempo depois cicatrizaram mas que na velhice fizeram com que se tornasse impaciente com a vida que permanecia em seu corpo já cansado e que afetava sua lucidez mental. Nos últimos tempos, tinha dificuldade em externar pensamentos lógicos, dizia sempre que não tinha mais vontade de viver.
Tinha consciência de que a vida passara. Lembro-me dela na sua própria casa, simples, cuidando das cadelas, das bananeiras no fundo do quintal, colhendo alguns cachos de uva na parreira que constituía um caramanchão, do pé de tomate japonês e seus frutos ácidos, de suas plantas em volta, flores e abelhas. Um dia, pela manhã, fora encontrada morta. Sua passagem fora silenciosa e sem rancores. Havia muita serenidade no seu rosto. Para ela, certamente, um prêmio pela vida dura que enfrentara com bravura e com momentos de felicidade que usufruíra.
Não fora carinhosa naquele sentido de meiguice, mas esteve sempre presente, bonita e forte.
Por isso, tal a minha ternura que até hoje lamento não ter feito mais por ela e por meu próprio pai. Há momentos na vida que as coisas podem se inverter nessa relação pais e filhos.
E eu deixei passar oportunidades.

SUPERAÇÕES

Foram muitas as voltas por cima, digamos assim, que dei.
Tanto foi o esforço de superação que na cidade de São Caetano do Sul realmente tive um período, na década de 60, diferenciado, com forte envolvimento e influência na vida estudantil e na pequena imprensa.
Haveria muito que contar desses tempos deslumbrantes de realizações e influências.
Haveria que mudar o mundo.
Mas, há um momento em que a vida chama. Acaba-se o encanto como se dá ao acordar de um sonho bom.
Todo esse idealismo e autoestima foi jogado no lixo ao começar a trabalhar numa multinacional do município, me deparando com um supervisor truculento, problemático, que ignorou desde o primeiro dia meu “currículo externo”.
A despeito dele, houve períodos bons na empresa. Foi nela que comecei a me interessar pelo sindicalismo. O saldo foi positivo, mas a marca de sua ferradura permanecerá indelével no meu peito, como se gravada a ferro quente.

Herdei todos esses influxos familiares e profissionais e, por fim, casamento que já perdura por 40 anos com algum tumulto e filhos, cinco.
Da mesma forma que recebi, transmiti aos meus filhos esse distanciamento, essa tensão, até pelo excesso de trabalho que já perdura por quase 50 anos, algumas viagens ao exterior por períodos relativamente longos. Meio século de trabalho e não enriqueci. Dizem que quem trabalha não tem tempo de enriqucer.

Em comemoração ao “dia dos pais”, em 1982 recebi uma carta de meu filho mais velho que haveria que ser carinhoso na homenagem por ordem da sua professora, claro, mas que deixa transparecer minhas omissões. Sua carta que até hoje guardei:

Meu pai esta carta que estou lhe escrevendo é um tipo de um presente que mando-lhe no dia dos pais
Tenho certeza que você vai gostar dela. As palavras que estou lhe escrevendo saem da minha cabeça e não é copiada da lousa
O dia dos pais para você deve significar muita coisa porque é seu dia. Você promete muitas coisas mas demora para cumpri-las, por exemplo: quando eu queria ir no Parque Antarctica para ver o Palmeiras jogar mas isso demorou bastante, até que levasse. Você é esquisito, só gosta de estudar, não gosta de jogar nada, não gosta de montar barcos, aviões em miniatura, como os demais, só de estudar e também é vegetariano não come carne isso é muito engraçado. Não sei como resiste a uma feijoada, a um frango assado e outras coisas. Eu o admiro muito.”


Minha filha reclama desse meu distanciamento ao longo do tempo, ausência de carinho, mas não há mais jeito de recuperar isso. Apenas paguei as contas, diz ela. Aliás, herdei esse carinho contido de minha mãe. Tenho tentado alguma compensação com meus netos que já são cinco, incluindo de minha filha duas meninas gêmeas idênticas, mestiças nepônicas (japinhas).
A única coisa que posso dizer disso tudo é que, se me colocar ao lado dos meus filhos, talvez seja eu o pior deles.

(Acima, enfeitando esta crônica a foto das gêmeas idênticas, Sofie e Yarin. Ainda não sei dizer qual delas é ela e ela).

3 comentários:

Caio Martins disse...

Eitcha sensibilidade sempre à flor da pele, meu irmão. O resgate da ternura exige tudo da pessoa. Mas ela só vale, plena, quando teve como alicerce e cimento os momentos difíceis, duros, não na luta pela vida, mas pela luta constante em perfazer-se. Aí, não se derrama futilmente, é mais um caminho de suavidade que os netos, mais que os filhos, nos conduzem a trilhar. Boa viagem, marujo!

MILTON MARTINS disse...

TESTE. MM

Anônimo disse...

Tio, sua auto-análise é sensacional. Desde criança eu já sabia que vc era "o tio durão", mas depois com a convivência estreitada nas férias em que passava em sua casa, fui percebendo sutilmente, que vc era e estava disponível, que teríamos se quiséssemos( eu e a Gi), como nos aproximar de vc.
Foi quando colocamos uma fita k7, da banda Legião Urbana, e a sua filha lhe pediu para ouvir a canção........para nossa surpresa vc levou tão à sério que fez uma verdadeira análise da música e nos disse "é bonita, mas este rapaz se contradiz muito, que sentido faz isto?"
Nós ficamos muito satisfeitas, pois vc havia nos oferecido seus ouvidos com boa vontade.
Tb me senti muito "importante" quando vc quis fazer observações e ler trechos de um livro que tinha uma moeda.........foi bom ter a sua atenção.
Sabendo da sua dificuldade em dar um abraço apertado, nós aqui de São Caetano, forçamos a barra!! E adoramos te provocar!
Ahhhh, com certeza após seu comentário sobre a música, eu e a Gisele, entusiasmadas.....desfalcamos a despensa......comemos uma lata de milho, ou será de palmito?
Beijos e abraços muuuuito apertados!!
Fernanda