15/06/2010

A COPA É A DE 1958 (Quando tudo começou!)

Não me venham com essa de que o que passou, passou e que as reminiscências são exercícios de quem se volta para o passado porque no seu hoje os desencontros são doses de angústia insuperáveis.
Quanto a mim, pelas reminiscências, já fiz várias comparações e chego sempre à conclusão de que aquelas são espécie de alimento que amenizam, sim, minhas angústias nestes tempos cruéis. O que fazer? Mas, eu não desisto, não!
Lá estão as origens, lá estão as marcas dos pés que ficaram no tempo. Os passos da vida a serem contados aos que se disponham a ouvir.

Morávamos numa casa modesta, já melhorada, porém, com um quintal apreciável, duas cachorrinhas que minha mãe cuidava com carinho, um papagaio instável que só não se irritava com meu pai. Esse papagaio tinha a liberdade de se locomover por um longo arame esticado que saía de um poleiro próximo de uma parreira que pouca uva dava – se é que dava alguma – até nos fundos, no quartinho de despejo, também oficina de marcenaria de meu pai, um talento que tinha e com ele construía brinquedos e utilidades bem feitinhos.
As bananeiras também nos fundos ao lado do quartinho deram muitos cachos que viravam bananada no panelão. Eram pequenas. No meio do caminho, aquela fruta meio ácida que conhecíamos como “tomate japonês”.
Garotão em 1958, no ginasial, no 1° ano, palmeirense como todos em casa, comecei a me dar conta da Copa do Mundo, acho, quando a seleção brasileira venceu a da Áustria por 3 x 0 em 8 de junho.
À medida que a seleção ia vencendo o interesse ia crescendo na mesma proporção. Conseguiria o Brasil o campeonato mundial, finalmente? Na verdade, apenas oito anos depois, que me lembre hoje, ninguém mais se importava, então, com a derrota de 50. Acho que é coisa da imprensa, aquelas comparações absurdas, tanto que sempre que a seleção do Brasil joga com a do Uruguai, a partida se “transforma’ em revanche de 50. E o goleiro Barbosa, coitado, foi “condenado” para sempre. Que perdoe os brasileiros e a crônica esportiva no seu recolhimento.
Dava gosto ouvir a narração de Pedro Luis e Edson Leite que se revezavam nas transmissões da “cadeia verde-amarela”. Imaginem, comparar esses locutores com os de hoje – é melhor não comparar porque ofenderia a memória de ambos. Acho até hoje que Pedro Luis era palmeirense, de tão bom que era.

A coisa chegou à empolgação no jogo da terça-feira, dia 24, quando a seleção venceu a França por 5 x 2 e foi para a final com a seleção da Suécia.
Domingo, dia 29, nascera ensolarado. A decisão.
Havia nervosismo geral eclodindo no ar. O jogo começaria aí pela hora do almoço.
Todos a postos na minha casa, meus pais, irmãos, as cachorras e o papagaio temperamental se equilibrando entre um poleiro e outro pelo arame.
Logo no início o time da Suécia fez o primeiro gol da partida. Minutos depois, Vavá empataria e faria o 2°. O radio em volume alto transmitia a narração impecável de Pedro Luis. No final do 1° tempo, 2 x 1 para o Brasil, crescera o estado ansioso generalizado.

No 2° tempo o time do Brasil deslanchou: gol de Pelé, de Zagalo, 4 x 1, gol da Suécia, 4 x 2 e o “magistral gol de Pelé” (assim qualificado por Edison Leite que narrara o 2° tempo com emoção) o último, no final, que confirmaria o título para o Brasil, 5 x 2.

Fogos e rojões saíram de não sei de onde e espocaram lá nos altos do quintal, todo mundo emocionado em casa, as cachorras perdidas com aquele alvoroço incomum, trêmulas com os estouros, precisaram ser contidas e acariciadas, o papagaio maluco que, descendo para o chão, batia asas, gritando feito louco acompanhando o embalo da festa...
Ah, aquele dia de 1958! Aquela seleção sem estrelismos, sem endeusamentos, sem os milhões, profissionais que honraram o país.
O que fazer se o futebol é assim!

Até hoje reflito sobre aqueles momentos de confraternização e alegria em casa por obra da Copa de 1958 e ainda hoje quando ouço trechos da narração de Pedro Luis e Edson Leite, me arrepio.
E já despontava a bossa nova!
Meu Deus, que tempos aqueles!

Foto: Pelé aos prantos apoiado pelo goleiro Gilmar e Didi - 1958 (Google Imagens)

Um comentário:

Marisa Bueloni disse...

Milton, na Copa de 58, eu tinha 8 anos de idade. Foi quando comecei a me interessar por futebol. Por ver os meus tios e primos grudados no rádio, chorando. Abraçavam-se, pulavam de alegria. Sim, Milton, a bossa-nova... o início dos maravilhosos anos 60! Deus Pai, que tempos aqueles!... Abraços da Marisa