14/11/2010

SÃO FRANCISCO, OS HOMENS E OS ANIMAIS

Escrevi nalgum espaço, no passado, sobre São Francisco, a partir de impressões pessoais que captei em visita ao seu túmulo em Assis, há anos. Um sentimento de paz, de emoção.
Trecho do que escrevi, então:
"Mas, é no simplório túmulo de São Francisco de Assis que parece haver um silencioso mas eloquente discurso de paz, amor e fraternidade. E mais ainda, de uma profunda solenidade, exatamente aquilo que, em vida, renunciara com toda convicção. A "solenidade" do mundo, é claro. Porque aquela outra solenidade, tida ou sentida em seu túmulo, é de simplicidade. Essa solenidade, pela oração devotada ali proferida, parece ser renovada, mantendo a espiritualidade do local."
Desta feita explanarei sobre ele de um modo menos sacro, tentando desvendar alguns aspectos de sua vida, modo de agir e sua relação com os animais.
Valho-me principalmente do magnífico livro “São Francisco de Assis” (1) do historiador francês Jacques Le Goff e no qual o autor procura, digamos, encontrar o santo “histórico”.
Incluo, também elementos do livro do escritor dinamarquês Johannes Joergensen,  "Francisco de Assis" (2) que relata episódios relevantes do santo
Alguns aspectos de uma fonte ou outra que confirmam ou encontraram indícios de veracidade:



i.) A opção pela pobreza radical do santo, vivendo de esmolas e da caridade; sua aparência era de um “homem de aspecto muito desprezível e pequeno no tamanho”, passando por um “vil pobrezinho para quem não o conhecia”;

ii.) Amigo de todas as criaturas, homens e animais, irradiando aquele sentido fraternal, de amor e paz. Seguidor de Jesus Cristo. Na sua famosa poesia “Cântico ao irmão Sol”, lá está: “Louvado sejas, Senhor, com todas as tuas criaturas especialmente meu senhor irmão Sol...”


Neste trecho do livro de Johannes Joergensen é destacado o amor de São Francisco "por todas as criaturas", pelo animais, pelas flores, pelos pássaros. Para ele a cotovia era um pássaro especial como veremos mas a frente:




iii.) São Francisco rejeitava o trabalho intelectual, posição que chegou a lhe criar dificuldades perante parte dos seus seguidores que não concordavam com ela. Le Goff dá as seguintes motivações: 1. a ciência como tesouro que desvia da privação que adotara e do estudo e prática dos evangelhos; 2. necessidade de livros que eram caros, luxo, contrapondo-se contra o voto de pobreza e 3. o saber como fonte de orgulho e de dominação, “que contraria a vocação da humildade”.

No que se refere à abstinência à carne como alimento pelo santo, relata o autor:

“No domínio do ascetismo alimentar, Francisco, que disso não encontra traço no Evangelho, defendia uma posição moderada. É lembrar-se da historinha de Giordano di Giano: Francisco come carne com Pietro Cattani, quando chega um frade com as novas constituições da Ordem, que proíbem comer carne. Reação de São Francisco: “Comemos, como ensina o Evangelho, aquilo que põem diante de nós...”

O autor Johannes Joergensen não só confirma esse relato como deixa entrever que São Francisco podia se alimentar de carne.
Muito doente, sofrendo muito com as chagas de Cristo que orara para delas sofrer, quase cego pela "doença dos olhos" que adquirira em viagem ao Oriente, tendo como causa o clima egípcio, com dificuldades para engolir teria dito: "Se tivesse um bocado de peixe, acho que seria capaz  de o comer."
Mas há, também este tipo de auto-recriminação por ter comido galinha quando doente em outra ocasião:


O seu cuidado com a manutenção estrita da pobreza fazia com que, nas refeições saborosas, as misturasse com cinzas para neutralizar o seu sabor, mantendo sua renúncia a qualquer ostentação ou orgulho mesmo com os alimentos cuja base era o pão.
A partir de certo período de vida, fazia milagres mas se afastava do enaltecimento por essas manifestações divinas que dele emanavam.

"No entanto, Deus quis que se ouvisse uma última saudação ao seu jogral divino, mesmo por cima da casa e por toda parte ali ao pé. Pois, mal se tinha extinguido para sempre a voz do santo, sentiu-se de repente no ar um frêmito sonoro: eram os fiéis amigos de São Francisco, as cotovias, que vinham dizer-lhe o seu último adeus." [do livro de Johannes Joergensen].

Período da vida  incomum ao extremo de São Francisco de Assis: de 1182 a 1226 [Do "Cântico do Sol": Louvado sejas tu meu Senhor por nossa irmã a Morte corporal, porque nenhum homem vivo dela pode escapar...]

Pássaro amigo de São Francisco e seu canto: as cotovias




APÊNDICE

O apetite da carne


Nos tempos em viveu São Francisco de Assis, havia, como sempre houve, o consumo da carne pelo que ocasionalmente ele a consumia, como se pode depreender na literatura que estudou sua vida e obra
Mas, a mim a renúncia à carne como alimento, queiram ou não, tem um sentido de moral, de preservação porque no seu consumo está o sofrimento do animal abatido. Muitos são os que não se sensibilizam com a angústia do animal no pré-abatimento e na dor.  Ou se tornam indiferentes. Ou simplesmente não pensam sobre isso, não querem pensar.
Cada vez mais é revelada a crueldade contra os animais não só nos matadouros, quaisquer que sejam, que é onde predomina a barbárie contra esses seres que caminham em outra onda de vida neste mesmo planeta, ao nosso lado, e da qual sequer conseguimos entender. E há, também, a crueldade em que a força animal, ou sua fragilidade são explorados de modo inimaginável, insuportável.



Imagem:
Retrato, de autor anônimo, é considerado, sem certeza, uma cópia do século XIV do único retrato que teria sido feito ainda em vida do santo, por encomenda de Jacopa de Settesoli. Está conservado em Greccio (Fonte: Wikipédia).
A pintura abaixo do santo é do pintor Cenni di Pitro Cimabue (1240 - 1302) que se aproximaria do seu rosto "real";



Referências:

(1) "São Francisco de Assis" de Jacques Le Goff, Editora Record - 2ª ed. / 2001
(2) "Francisco de Assis" de Johammes Joergensen, Editora Flamboyant - 1958

6 comentários:

Ivana Maria França de Negri disse...

Caro Milton

Não sou de cultuar santos, mas gosto muito de São Francisco de Assis pelo que ele representa: humildade, compaixão, desapego, amor ao próximo, à natureza e aos animais. E a ausência nele do que considero as maiores anti-virtudes humanas: a arrogância e vaidade.

abrs e parabéns pelo texto
Ivana Negri

Aracéli disse...

Querido Milton,
um lama budista disse que se nos ativermos a um princípio básico, tiraremos a maior parte das complicações de nossas vidas; o princípio é 'o suficiente é suficiente'. A tua reflexão sobre São Francisco de Assis lembrou-me disso. Quem dera eu consiga viver esse princípio, ajudada por você agora e pelo lama no sábado passado...

Aracéli disse...

Querido Milton,
um lama budista disse que se nos ativermos a um princípio básico, tiraremos a maior parte das complicações de nossas vidas; o princípio é 'o suficiente é suficiente'. A tua reflexão sobre São Francisco de Assis lembrou-me disso. Quem dera eu consiga viver esse princípio, ajudada por você agora e pelo lama no sábado passado...

MILTON MARTINS disse...

Araceli
Quem me "sacudiu a estrutura" foi sua mensagem, sobre o "suficiente é o suficiente". Por e-mail eu expliquei os motivos. Tem dia que as coisas não rolam, como nesse último domingo. Grato por suas palavras. MM

Caio Martins disse...

Em nome de deuses, Milton, foram feitos infindáveis pactos com demônios... E pagará indeclinavelmente um por um - enquanto objeto filosófico - a humanidade pelos seus desmandos, passo a passo. Quem (sobre)viver, verá...

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Se aprovar meu comentário, Milton, digo o seguinte: Achava que o pintor daquele são Francisco era Giotto, mas com certeza vc tem fontes melhores que eu e capuchinho aos avessos não estou mais tão bem informado. Minha formação é franciscana e minha admiração é pelas virtudes conhecidas do santo. São Francisco somente teve a regra da ordem aprovada porque o bispo D. Guido deu uma amenizada, pois não queria nem conventos, mas cabanas para seus frades. Nada possuir, a não ser ferramentas para o trabalho. Depois de beijar os leprosos, que tanto asco lhe vinha, é que se converte ao evangelho de forma completa - relata em sua Vida e Regra. É visceralmente contrário a ser elevado às honras do altar, mas, falecendo, a Igreja o guinda a isso e a ordem passa pelas mãos do frei Elias a ter conventos e ser como outra ordens; pois temia-se que, o movimento franciscano escapasse do controle da Igreja, já que fora de origem pacífica, não-violenta, ao contrário dos Valdenses e outros que apareceram na Europa e na miséria da idade média em que as abadias dominavam sobre os montes os vilões, como bem mostra Umberto Ecco em O nome da rosa. Francisco também desmistifica a farsa das cruzadas, para exportar miseráveis para o oriente e matar pessoas em troca de seus bens, a questão não é libertar lugares santos, mas se apoderar da riqueza dos árabes - como hoje ainda. Por último, na ermida São Damião, fala com o crucifixo e resolve restaurar a "minha igreja", não a de São Damião, mas a farra de homens que põe batinas e hábitos para usufruir dos bens; assim, leva uma vassoura e varre todas as igrejas por onde passa, naquele tempo havia muito pó. É considerado um reformador, como Jesus fora do judaísmo e por muitos é o segundo Cristo. O concílio de Trento aprofunda nas questões da crise da instituição Igreja e entre acertos e erros bem estudados chega a disciplina do celibato e ao estudo para os clérigos; todavia, Francisco já era respeitado até pelos então protestantes. A vida de Francisco, para fins de estudo, são tomados de dois livros católicos, Tomaz de Celano e de um outro autor protestante, donde esses compêndios intermedeiam e compõe uma crítica do que realmente foi Francisco como homem, santo e personagem. Sem dúvida, Milton, um santo e de segura inspiração para a santidade. Considero-o meu pai Francisco e pouco dos que me vejam hão de se admirar disso, pois em nada lhe pareço. Grato, Martins pelas postagens. Seu blog é impecável, colorido, bonito, de um verde refrescante e textos para se ir revendo e aprendendo.