20/03/2011

MISTURA FINA: a palavra "tsunami”, a Lua, “Os Sertões”, “frase caipiracicabana”

A palavra “tsunami”

Quando se deu a tragédia na Ásia em 2004, a palavra mais utilizada nos meios de comunicação foi “tsunami”, de origem japonesa.
Por que não maremoto?
Meio incomodado pelo seu uso comum de novo com a tragédia no Japão, num momento dado, me deparei com a coleção “Enciclopédia Exitus de Ciência e Tecnologia” e avancei para conhecer nela o significado mais pormenorizado de “maremoto”
Não há nada de novo neste mundo, salvo o que for descoberto!
Vejam a definição de maremoto nessa enciclopédia - edição de 1981:

"Agitação violenta das ondas do mar, ou do oceano, em consequência de movimentos sísmicos que ocorrem na crosta suboceânica . As ondas agitadas por essa causa podem atingir grande altura e grande velocidade (cerca de 700km/hora), e, como consequência, podem adquirir enorme ação destruidora.
Quando os maremotos ocorrem à pequena distância do litoral, os vagalhões, com mais de 20m de altura e mais de 1km de extensão, investem violentamente contra a faixa costeira, destruindo tudo o que encontram em seu caminho. Nesse sentido, são dignas de registro as ondas de extraordinária extensão e de formidável energia destruidora que ocorrem na faixa ocidental do Oceano Pacífico, e que assolam o litoral da Ásia, particularmente do Japão. Estas ondas têm o nome japonês, porém internacionalmente adotada, de tsunamis (de tsu, porto, e nami, onda e mar)."


Eis aí os tsunamis mencionados na definição de maremoto. Termo internacionalmente adotado! Revelação numa publicação de 1981! Ignorante é o que ignora...

Lua cheia e luar

Hoje, sábado, espero ver a Lua no seu perigeu – o ponto em que o astro mais se aproxima da Terra – ou a apenas 356, 5 mil quilômetros. Vi pouco, entre nuvens.
Este é também um espaço de poesia
Neste meu canto que serve para tudo, para escritório, para reflexão, ouvir à noite resmungos fantasmagóricos de minha cadelinha já morta na janela, sou sempre instado a me voltar para a Lua quando presente lá encima.
Tenho para mim que se trata ela de prova presente do universo infinito ao alcance dos olhos, sem necessidade de telescópio. Ora, mas e o Sol? Ele brilha tanto que não pode ser encarado olho no olho, salvo em alguns momentos do dia com muita restrição. Já a Lua não, a Lua pertence à noite e reflete com serenidade a luz do Sol.
Aliás, seleno, palavra que se refere às coisas da Lua (“Selene”, em grego significa Lua), tem muito a ver com sereno, aquele estágio interior nosso que se refere à paz e à tranquilidade.
A noite pode significar a paz e induzir à reflexão, ao amor presente, à angustia de sua perda, lembranças que não se apagam.

Desperta-me ó luz prateada
Brilho tépido, candente, o luar
Obriga-me a desfrutar do seu momento
Da graça, do amor e da nostalgia
Convida-me a olhar para fora do que sou
Indago assim inspirado o que há além
Sua luz não esconde os piscares infinitos
Da Terra aprisionado o bastante
O peso do meu tempo, bem sei, não permite,
Tocar na sua fronte, tão perto e tão distante.


Os Sertões de Euclides

Devagar comecei a ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha, a partir do capítulo “O Homem”. Antes tarde do que nunca.
Mas, depois dessa parte, voltarei para o capítulo “A Terra”.
Estou gostando muito.
O grande escritor nessa sua obra imortal, faz revelações surpreendentes.
Entre muitos episódios descritos com sua precisão reverenciada, ele destaca a influência paulista naqueles sertões norte-nordestinos bravios, descrevendo os horrores da seca já então.
Curioso que num tópico, sob o título “Os jagunços: colaterais prováveis dos paulistas”, informa que os desbravadores deste Estado migraram àqueles “rincões longínquos”, formando colônias numerosas desde o século XVIII.
De que não são culpados os paulistas? Até dos jagunços que seriam seus parentes próximos, descendentes.
Quando concluída a leitura, voltarei até para refazer o texto sobre “Os Sertões” numa crônica que denominei “Dos livros que não consegui (ainda?) ler” de 17.10.2010 neste Temas.
O texto abaixo foi extraído de antiga crônica que escrevi, citando trecho do livros de Euclides da Cunha (A Terra), referindo-se sobre as técnicas dos “fazedores de desertos”:

"Esquecemo-nos, todavia, de um agente geológico notável – o homem. Este, de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente assumiu, em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos. Começou isto por um desastroso legado indígena. Na agricultura primitiva dos silvícolas era instrumento fundamental – o fogo"
A citação acima, refere-se aos desertos provocados na região do nordeste com as queimadas praticadas de modo desastroso que, ao longo do tempo, foram devastando imensas áreas de "flora estupenda".
Não foi ela extraída de algum manual de entidade ecológica, entre tantas nacionais e internacionais que criticam a omissão brasileira na questão das queimadas havidas na floresta amazônica. Ela é de autoria de ninguém menos que Euclides da Cunha, ao estudar "a terra" em seu livro "Os Sertões", cuja primeira edição apareceu em 1902.
Esse consagrado autor, já então no início do século, demonstrando certa perplexidade e amargura, apontava o absurdo das queimadas para abrir espaços para a atividade pastoril ou "ao mesmo tempo o sertanista ganancioso e bravo, em busca do silvícola e do ouro".


Frase caipiracicaba pura

(Ouvida no trajeto Piracicaba – SP num ônibus da “Piracicabana”):
Duas mulheres falando e falando muito em caipiracicabano carregado. Uma delas: “Noi precisa levá os travisseiro porque doi a costa”.
Só digo que mesmo com "liberdade poética", doeu forte nos ouvidos. Eta nois.

"OS SERTÕES" de Euclides da Cunha: Comentários sobre esse livro clássico serão encontrados na crônica "Dos livros que não consegui ler (ainda)...e os já lidos" de 17.10.2010.


Fotos / Imagens

A figura foi extraída do livro "Os Sertões" edição de 1952 da Livraria Francisco Alves. Autor: Ib Andersen;

As fotos e a figura, foram obtidas via Google.

4 comentários:

Shirley disse...

Também gasto um bom tempo,toda noite, olhando a lua...Gostei dos textos que acabei de ler. Muito bons! Abraços.

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Milton, aprendi um pouquinho mais com você. Mas pelo jeito O Seminário vai para o fim da fila dos que você não leu, está parecendo cartório, o último a chegar, rsrsrs.

Milton Martins disse...

Shirley
Grato pelas suas palavravas gentis, partindo de vc que tem forte sensibilidade poética.


Camilo
Realmente estou lendo “Os Sertões” e suas 500 e tantas páginas e estou gostando muito. O que posso dizer das primeiras páginas que li de “O Seminarista” com a chegada do novo seminarista no Seminário é que vc tem forte talento para a narração. Hoje a noite avanço mais um pouco porque o Clidão é de “matar”. Em cada página há sempre umas 10 palavras que não sei o sentido, muitas às vezes na mesma frase. Em alguns dicionários elas não constam. Aguarde que leio seu livro.
Abraços. MM

Anônimo disse...

Dr. Milton: Paz e Bem!

A verdade é que este mundo já não é mais o mesmo. Nem o mar, nem a lua, nem os sertões... "Mundo, mundo, vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo..."
Gostei desta Mistura Fina. Parabéns pelo olhar crítico sobre estas coisas que nos tocam tão de perto a alma e o coração.
MARISA BUELONI