27/03/2011

O MEU TEMPO DO ONÇA

TEMPO DO ONÇA: Essa frase foi cunhada a partir do modo de atuar do governador do Rio de Janeiro, capitão Luís Vahia Monteiro, que o governou de 1725 a 1732. Os relatos dão conta que era varão honestíssimo, exigindo o cumprimento rigoroso das leis. Seu apelido era Onça. Numa carta que escreveu ao rei Dom João VI, o governador chegou a declarar que "Nesta terra todos roubam, só eu não roubo". A frase é mesmo do “tempo do Onça” se considerarmos por aqui, como hoje e há muito age a classe política.
Rigoroso sem olhar hierarquia e interesses influentes obteve forte oposição sendo deposto pela câmara dos vereadores em 1732.
Há uma outra versão, mas me parece que essa é a verdadeira.



Saio da escola, não me adapto de modo nenhum à caneta com pena dura, troquei várias e sempre há borrões, diferenças nos garranchos entre o excesso de tinta e pouca tinta. Insiro de novo no potinho cheio da carteira e a mesma coisa.
Mas, dia desses eu achei uma Parker 21, caneta tinteiro famosa carregada com a tinta Parker Quinck. Uma evolução. Somente depois é que teria uma Parker 51, o suprassumo.
Mas, antes, apareceram as esferográficas, canetas pequenas, muito ruins, que liberavam tinta no papel e nos dedos. Por isso, eram rejeitadas e descartadas. Não teriam futuro...
À tarde dava uma chegada no bar do “seo” Pedro para assistir um pouco de televisão, torcendo para que exibisse desenhos do pica-pau ou qualquer outro. No fundo do bar, algumas cadeiras arrumadinhas, voltadas para a televisão. Quem quisesse, sempre que ligada – e não era muito – poderia se assentar por ali e passar o tempo vendo aqueles primórdios da televisão Tupi.
Aparelho grosso, preto e branco repleto de válvulas que demoravam a esquentar e trazer a imagem. Cinco minutos.
Muitas manhãs, quando possível, e à tarde, a molecada entrava por quase um caminho beirando a estrada de ferro e mais à frente, havia uma passagem que dava acesso para uma das principais vias da cidade. Ficávamos por ali vendo os trens se aproximarem como se fosse monstros até que alguém teve a idéia de colocar moedas sobre os trilhos e esperar o resultado. O trem passava a toda e as moedas saiam lisas. Algumas mais arrumadinhas viravam chaveiros.
Não contente em ficar por ali, naquele meio perigo, uma manhã avançamos nos rumos dos trilhos e chegamos mais próximo da estação. Os seguranças apitaram e vieram com tudo. Corri feito doido e pulei o alambrado e escapei. Na descida da cerca, minha camisa enroscou naqueles ganchos e virou trapo. Como explicar em casa. Camisa esfarrapada, desculpa esfarrapada.
Os outros moleques foram “detidos” e levaram um sermão daqueles porque era realmente uma área perigosa.
A minha sensação de êxito ao tomar o trem na estação de São Caetano e descer na estação da Luz e pagar o aluguel na rua Florêncio de Abreu e breve exploração do Jardim da Luz, então arrumadinho.
A sorte de não ter ingressado na Escola Vocacional de uma grande empresa de bebidas, depois de seis meses de curso pré-admissão. O alívio veio mais tarde ao descobrir outras alternativas de vida.
Não demoraria muito e fui trabalhar numa multinacional no Ipiranga, do ramo automobilístico de “faz tudo”, boysão que era.
Espalhadas pelas mesas as calculadoras “facit” de última geração, as máquinas de escrever modernas da mesma marca eram para mim um mundo novo.
Comunicações com a matriz na Europa a maior parte das vezes por telegrama, porque só havia uma linha telefônica, da antiga e inoperante CTB.
Depois os telex.
As cópias eram extraídas nas velhas heliográficas cuja matéria prima era amoníaco e a matriz papel vegetal.
As circulares em mimeógrafo predominantemente a álcool, com a matriz datilografada num carbono no verso da página.











E finalmente, para cópias de documentos havia a famosa thermofax que utilizava papel próprio, tipo fax de hoje (que também já está saindo de moda) de cor de abóbora numa das faces e ali era impresso o documento copiado.
A máquina de fotocópia exigia local a meia luz e demorava vários minutos por documento.
Tempo do onça.

Sou do tempo das máquinas de escrever capengas. Sempre apanhei delas. Quando advoguei em Santo André, já não tão do onça assim, mau datilógrafo, com muito cuidado ia datilografando petições com várias cópias em carbono. Erro grave no meio da página, tudo haveria que ser recomeçado. Muitos socos dei na minha máquina de escrever inocente.
Quando me aproximei dos computadores – após a quebra da reserva de mercado porque com essa política, os computadores eram gracinhas (microdigital e outros) - quantos textos perdi, por falta de memória da máquina ou toque numa tecla errada. Por isso, anotava num papel qual a utilidade de cada uma.
Tempo do onça
Hoje com o “pen drive” e o celular o escritório está onde esteja um computador que possa ser conectado.
Cada vez com maior rapidez o tempo avança e o tempo continua sendo o do onça. Amanhã de manhã porque as tardes são mais curtas.
Fotos
(1) Rua Florêncio de Abreu, década de 50. Fonte: Blog "São Paulo antiga".
(2) Modelo de “thermofax” do tempo do onça. Veja a moda da secretaria...
(3) Apanhando da máquina de escrever

4 comentários:

Caio Martins disse...

Grande Milton... Pois, que rapagão guapo e bonito catando milho na velha Remington! Essa provocou muitas saudades e lembranças, meu amigo. Pegou na veia!

Anônimo disse...

Dr. Milton: parabéns pelo texto maravilhoso! Sim, eu também amo estas recordações. A caneta tinteiro, a máquina de escrever, a tevê Tupi e as primeiras novelas... Pois é... E hoje, com nossa espantosa tecnologia, sentimos saudades "do tempo do onça"... Abraços da Marisa Bueloni

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Milton, vc ainda tem os cabelos de antanho, do tempo da onça. Eu, no time de futebol era apelidado de Leão, um zagueiro troncudo, que ninguém passava, mas a juba, chi, foi-se e como provar que eu era aquele menino, aquele moço na foto velha e descorada. Sou condenado a viver o presente e as onças daqueles tempos acho que eram pintadas ou as são agora?
Saudações

Luzia Stocco disse...

Tempo da(o) onça, diziam também, do zagaia. Gostei de seu texto e, como disse Gilberto Gil, em seu poema música "... do Japão, quero uma máquina de fazer sonhos...". O que realmente mudou? O que melhorou? Não sei. Sei que parece não haver mais o presente! Abraços.