26/12/2010

SETE PECADOS CAPITAIS / GULA

Introdução

Este é um espaço livre que se presta a qualquer tema a que me sinta bem em explanar ainda que sem muita propriedade, conhecimento. É um modo de instigar ocasionais leitores em me corrigir ou criticar. Não receio nem um nem outro modo de abordagem
Sempre me empolgaram os “sete pecados capitais”.
A origem deles remonta àqueles primórdios do cristianismo por obra do papa Gregório Magno (540-604), no final do século VI. Anteriormente, já fora esboçado pelo teólogo e monge cristão João Cassiano, nascido no hoje território da Romênia (370-435). (1)
Gregório Magno teria se inspirado também na “1ª Ep. de Paulo aos Coríntios” (versículo 13) que trata da “suprema excelência da caridade” mas ao praticá-la há a rejeição a vícios do homem.
Seria de Gregório Magno esta frase: "A bíblia é um espelho que reflete a nossa mente. Nela vemos nossa face interior. Das escrituras aprendemos nossas belezas e deformidades espirituais. E ali também descobrimos o progresso que estamos fazendo, e quão longe estamos da perfeição."
O sete pecados capitais foram acolhidos por Santo Thomaz de Aquino (nascido em 1225 - vivendo apenas 49 anos) sendo introduzido nos ensinamentos cristãos.

Com tanta erudição e influências dos religiosos mencionados não tenho a pretensão – claro que até por falta de mínima erudição – de tecer meditações profundas sobre o tema, pelo que nem quero repetir conceitos religiosos básicos consagrados de cada um dos sete pecados, que são:
orgulho – soberba; inveja; cólera, preguiça; avareza; gula e luxúria.

A gula


Sem qualquer compromisso de explanar sobre os demais pecados, começarei com a “gula” porque se trata, a “arte” de comer, do nosso dia-a-dia, indispensável e prazerosa.
Já se disse que todos os prazeres mundanos são efêmeros, isto é, eles resistem pouco: uma viagem tão ansiada se perde num maço de fotografias que com o tempo vão sendo esquecidas, o sono recompõe as forças, mas no fim do outro dia ele haverá que ser renovado.
Mas, e o comer?
Talvez seja, para os que desfrutem de relativa fartura um daqueles prazeres que deixam marca, a marca da gula.
As refeições não se limitam no dia-a-dia, elas podem se repetir com diferentes quitutes, várias vezes: um café reforçado, cheio de pães, presuntos, biscoitos e compotas, pouco depois, no almoço regado a frituras, carnes assadas, legumes na manteiga ou margarina, cervejas ou refrigerantes, doces amanteigados, saladas e quem sabe, frutas na sobremesa se não for sorvete.
À tarde para não perder a oportunidade, um café com bolo e, à noite, para comemorar qualquer coisa, uma massa bem feita ou mesmo pizzas “temperadas” com vinho.
No fim de semana, inevitável comparecimento à churrascaria para se deliciar de nacos de picanha suculentos e gordurosos e outros do rodízio - colesterol "in natura" -, chopes, várias canecas... (*)


A marca da gula esta na barriga e na sua circunferência. A balança silenciosa revela que antes registrara 80 quilos e agora mais de 90 quilos...
A barriga é notória, pontuda, não dá para esconder mais. Por causa dela, o manequim sobe dois números ou mais.
- Puxa fulano, você engordou. O pasto é bom, hem. Você consegue amarrar os sapatos?
Gozação sutil. Que vergonha!
Faz o teste de amarrar os sapatos. A barriga vai antes e suprime parte da respiração e dificulta o movimento. Amarrados os sapatos, parece ter havido um teste de fôlego, a respiração volta dificultosa.
- Meu Deus, preciso emagrecer!
O consolo é examinar as barrigas maiores e constatar que há ainda muito que avançar até alcançar aquele estágio de 120 quilos.
E os americanos comendo hambúrgueres, fritas e refrigerantes todos os dias? Milhares caminham imitando hipopótamos.
- Meu Deus, preciso emagrecer!
No supermercado tem início a tentativa:
- Quero mozarela magra, de búfala.
- Mas, não tem gosto essa 'muçarela', observa o atendente atrevido.
Mostra a barriga pontuda.
- Preciso começar um regime
E ele observa, encarando a barriga saliente:
- Mas, o senhor foi feliz, comeu do melhor. Saboreou.
Levou mozarela de búfala.
Mas, as massas da noite anulariam as calorias economizadas com a mozarela de búfala.

É isso aí, são sete os pecados capitais. Mas é a barriga que denuncia a gula, o guloso, o pecado
- Começo o regime no ano novo. Já há uns dez anos que tento, desta vez vai.
Será que contraio anorexia?
Ai, ai, ai...


Referências

(1) “Cassiano - bem poderia ser escolhido o padroeiro dos jornalistas - é o homem que, em torno do ano 400, percorreu os desertos do Oriente para recolher - em "reportagens" e entrevistas - as experiências radicais vividas pelos primeiros monges; já o papa Gregório (não por acaso cognominado Magno), cuja morte em 604 marca o fim do período patrístico, é um dos maiores gênios da pastoral de todos os tempos. (Jean Lauand - Prof. Titular FEUSP - IJI – Univ. do Porto, “São Tomas de Aquino e os pecados capitais”)

(*) “Gula” trata-se de crônica. Preciso esclarecer que não me alimento de carnes. Uma luta difícil pró-vegetarianismo. Agora, a barriga...


Imagem: "Hagar, o horrível" e "Helga" personagens criadas por Dick Browne. Direitos autorais: "King Features Syndicate".

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