
26/12/2010
SETE PECADOS CAPITAIS / GULA

20/12/2010
REGRESSÃO (III): CARROCINHAS
MEMÓRIA: UM BRINQUEDO INESPERADO. UMA SURPRESA
Vou retornar no tempo, há muito tempo.
Eu ainda morava em São Paulo, na Lapa, bairro onde nasci. Na rua Roma.
Tempos de “pureza”, mais do que nunca, palavrão era pecado.
Criança, 6 ou 7 anos, saía sem medo pelas ruas dava a volta no quarteirão e parava nos escritórios da fábrica de máquinas de costura Leonam (Manoel ao contrário porque o dono seria Manoel Ambrósio Filho). As ruas eram praticamente desertas.
Tenho leve lembrança de queixas da derrota do Brasil na Copa de 1950 no Maracanã.
Acho que, pela família palmeirense, não sei se ainda na |Lapa ou já em São Caetano tenho distante a voz do incomparável narrador Pedro Luiz emocionado com a conquista pelo Palmeiras do campeonato mundial interclubes em 1951, comemorado apoteoticamente por 100 mil torcedores no mesmo Maracanã. Acho que meu irmão empolgado dissera: “o Palmeiras é campeão”. Não sei se foi nesse campeonato…
A proximidade do Natal e do Ano Novo tinha um sabor especial, muito mais do que agora, certamente. Naqueles idos na Lapa, a família toda se reunia na casa de um tio e lá havia a ceia do dia 31 de dezembro.
Minha mãe, excelente cozinheira, uns dois dias antes do Natal se unia às minhas tias e começavam a prepará-la.
Todos se uniam, meus primos e primas, meus pais, meus tios que contavam "causos", piadas, havia um clima de descontração pelo Natal, desprovido do apelo comercial de hoje e na véspera do Ano Novo, na virada, o rádio transmitia a corrida de São Silvestre. Em 1950 venceu um belga.
Penso que meus pais enfrentavam problemas, tanto que logo depois mudamos para as imediações de São Caetano, um trauma para minha mãe porque tudo estava por fazer, uma cidade que obtivera a autonomia havia dois anos.
Há desses momentos que não se esquece. E foi na Lapa. Guardei para sempre pelo gesto que surpreendeu o menino.
Fora, também, resultado de um impulso decidido, há quantos anos!
Quanto a mim, lembro-me bem, não sabia se meu presente de Natal seria bom. Se haveria presente.
Dias antes do Natal, meu primo fora ao "jardim de infância" para a festa da escola onde estava matriculado. Era perto de onde morávamos.
Fui com ele mas não tive coragem de entrar. Eu não "era" da escola.
Fiquei no portão e pude ver à distância todas as brincadeiras, as balas distribuídas e, para surpresa geral, no fim da festa, a escola distribuiu brinquedos a todos os alunos.
As crianças que estavam fora, vendo os presentes nas mãos dos meninos que saiam contentes, permaneciam boquiabertas pelos brinquedos que não ganhariam do "jardim da infância". E quiçá, do papai noel que naqueles tempos era uma figura comercial, mas nem tanto.
Eu não poderia ficar sem brinquedo também.
Criei coragem, entrei na escola quase vazia e vi-me numa sala ampla, toda enfeitada.
Uma mulher lá estava. Não me lembro do seu rosto? Era jovem? era velha? Bonita ou feia? Talvez mais jovem que velha. Jeito de professora, com certeza:
- Também quero um brinquedo, afirmei meio trêmulo com os olhos voltados para o chão.
A mulher, surpresa com o pedido, olhou-me por alguns segundos e sem relutar pegou sobre um armário uma carrocinha de madeira, puxada por um cavalinho. Caprichada, perfeita. Estava desembrulhada, sem a caixa. Talvez por isso tenha sobrado.
Entregou-me:
- Para você.
Foi demais. Inesquecível. Minha mãe ficou surpresa e contente com o presente inesperado que recebera. Jamais esquecerei essa carrocinha, pela forma como ela me foi dada.
Naqueles tempos e hoje com jogos eletrônicos e tudo, ainda acho que há uma idade em que a criança se encanta com um brinquedo. E quando ele é dado como foi dado sem qualquer relutância, seu valor se multiplica e permanece para sempre na memória.
Há um sentido de leveza e intensidade na gratidão a lembrar e a relatar.
Ainda que tenha sido há muito tempo, enleva tanto quem concede sem relutar, como quem recebe tanto que até hoje tenho guardada (na memória) essa carrocinha e seu cavalinho...

12/12/2010
A MATANÇA DAS BALEIAS E OUTROS BICHOS.

A mais recente se refere a pedido de ajuda para combater a matança de baleias pelos japoneses.
A tradução tem lá suas dificuldades, mas a mensagem tem o seguinte teor:
Enquanto você lê este e-mail, a frota baleeira japonesa está se aquecendo nos rumos Oceano Antártico para iniciar o abate anual da baleia. A “quota planejada” nesta temporada é de cerca de 1.000 baleias minc, 50 baleias jubarte e 50 baleias fin ameaçadas de extinção.
Temos de parar este massacre agora.
Durante a campanha de 2008, o então senador Obama disse: "Como presidente, vou garantir que os EUA assumam a liderança na aplicação de acordos internacionais de protecção da vida selvagem, incluindo a moratória internacional à caça comercial da baleias." Mas já há três temporadas caça têm ido e vindo desde que Obama falou aquelas palavras, e nenhuma alteração foi feita.
E aqui o pedido de donativos:
Por favor, apresse sua contribuição mais generosa como uma pressão sobre o presidente Barack Obama para cumprir sua promessa de campanha!
“Permitir que o Japão continui a caça comercial é inaceitável", como o próprio presidente Obama declarou, e o Greenpeace está arregimentando apoio para pôr fim ao massacre, uma vez por todas.
A caça comercial não só é inaceitável, é uma violação do direito internacional.
Imagine um navio japonês apressando-se através do Oceano Antártico. De repente, o arpoador vê uma baleia mãe e seu filhote. Os sons do oceano são abafados pelas explosões de arpões que atingem a baleia.
E o relato doloroso que seria preferível ignorar, não saber:
A dupla luta para libertar-se das linhas de arpão durante quase uma hora, debatendo desesperadamente suas caudas na água, até que, finalmente, um pistoleiro do convés atira para que sejam morta de vez. A baleia mãe e o filhote são arrastados até rampa de lançamento da nave, deixando um longo rastro de sangue atrás de si.
Para nossa frustração, em poucos dias essa cena trágica no Oceano Antártico vai se repetir inúmeras vezes. O Greenpeace precisa da sua ajuda, e a ajuda do presidente Obama, para pôr fim à matança dessas criaturas de nossos oceanos, “as mais originais, inteligentes e emocionais.”

Países ditos civilizados praticando tal barbaridade sem concessões.
Essa cena dolorosa há mais de um século foi descrita por Herman Melville no livro “Moby Dick”:
“Como quando o cachalote ferido, que desenrolou da tina centenas de braças de arpoeira, depois de um profundo mergulho flutua de novo e mostra a corda frouxa e torcida erguendo-se a boiar e espiralando-se rumo á tona, assim Starbuck viu longos rolos do cordão umbilical de Madame Leviatã, com o qual o filhotinho ainda parecia amarrado à mãe. Não raro, nas rápidas vicissitudes da caça, esse cordão natural, com a extremidade materna solta, enrola-se na arpoeira de cânhamo, de modo que o filhote é assim capturado.”
(...)
No que se refere às tetas na fase da amamentação, “preciosas numa fêmea que aleite, são cortadas pela lança do caçador, o sangue e o leite que correm da mãe mancham à porfia o mar, por quinas de metros. O leite é muito doce e forte, tem sido provado pelo homem, iria bem com morangos.” (1)
Ora, perguntareis:
Não há crueldade idêntica ou pior nos matadouros bovinos e caprinos, nos abatedouros de aves?
Não foi o Greenpeace que remeteu outra mensagem no “dia de ação de graças” deste ano, feriado americano, relatando seus êxitos enquanto, na véspera, eram abatidos milhares de perus, ave símbolo da comemoração? Que comemoração é essa em “dia de ação de graças” com tal matança?
E o “nosso” Natal com a matança dos leitões e também dos perus?
Sim, há. Este é o seu mundo, cara.
Mas, se esta é uma realidade dura, é chegada a hora de ir diminuindo essa prática. E por que não a partir das baleias, essas criaturas “mais originais, inteligentes e emocionais.”?
Já me referi em várias crônicas e artigos sobre os estragos ambientais que produzem o gado bovino – no Brasil o maior rebanho do mundo - criado “artificialmente”, no que concerne à devastação das florestas, emissão de gás metano pela sua defecação.(2)
Se a humanidade não se convence de que a carne é dieta dispensável ou que pelo menos tivesse consumo menor, “tudo bem!”, mas que fiquem em paz as baleias na imensidão dos oceanos. Comecemos por elas a nossa contenção à imensa crueldade que praticamos contra os animais, melhorando nossa moral perante eles e, principalmente, perante nós mesmos, absorvendo aqueles sentimentos de paz e amor que eles, no seu habitat e a seu modo, inspiram.
(1) Já fiz referência a essa obra na crônica “Baleias, Caranguejos e Tartarugas” de 27.02.2010.
(2) O artigo mais recente constitui-se uma resenha que publiquei no portal www.votebrasil.com e no http://martinsmilton2.blogspot.com/ de 21.11.2010. Há um resumo do relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente que trata desse tema, inclusive fazendo referência à mudança de hábitos alimentares.
Fotos:
1. Baleias orca, from http://www.portalsaofrancisco.com.br
2. "Açougue" (Google)
05/12/2010
PÁSSAROS
Aqui do meu “escritório” de casa – já me referi a isso – muitas vezes fico assistindo esses pássaros avançando com apetite em fatias de mamão e banana postas sobre o muro. Mesmo à distância, bastou em gesto qualquer é eles esvoaçam com toda a pressa possível e, só depois, quando não notam mais a ameaça voltam para continuar a refeição.
Há algum tempo, num dia em que não me situava muito tolerante com tudo e com todos, chego até a loja de produtos de consumo animal e me deparo – como até hoje lá estão – aquelas gaiolas mal cuidadas com uma dezena de passarinhos massacrados entre as grades.
Perco a paciência e indago à atendente que sempre tão bem me atendia:
- Qual o preço de todos esses passarinhos?
- Deixa ver. Uns R$X.
- Tudo bem, levo todos. Coloque-os naquela gaiola ali que daqui a pouco volto para buscá-los. Vou soltá-los todos no parque...
- Mas, o senhor não pode fazer isso. Todos morrerão porque eles nasceram cativos e não sobreviverão na natureza.
Resigno-me, dou um soco na parede e me retiro contrariado. “Esse é o seu mundo, cara.”
Meu contato “íntimo” com passarinhos, pela sua desconfiança, foi mínimo. Já relatei a experiência com beija-flor quem sabe atraído pelo perfume do suco de uva, perdeu-se na sala e, por mais que fosse encaminhado para a saída, não conseguia sair. Batia no vidro, nas paredes, num ambiente que nunca seria o seu. Cansado se entregou. Com cuidado eu o peguei no chão. Um chumaço de penas. Olhinhos pretos esperando a vez como se estivesse sob as presas de um gato esfomeado.
Soltei-o e ele, talvez para recuperar o fôlego, empoleirou-se numa pinheiro por perto.

O exemplar pertence a um meu filho caçula, que ficou por uns tempos por aqui.
Sem poder voar porque suas asas foram cortadas – pelo mesmo motivo dos passarinhos engaiolados – com seus piados estridentes exigia companhia e, com aquele seu bico cortante andando pelo teclado do computador, quase cortou o fio do mouse e do próprio teclado.
Sempre de ombro a ombro, quando comigo, encarando-me com aqueles seus olhinhos pretos, seu topete amarelo empinado, havia algo de paz com sua presença. Algo inspirador, de inofensivo, de inocência, de anjinho.
A cena mais surpreendente deu-se numa tarde quando todos falavam na sala. Ele lá no canto, em sua gaiola aberta, piava alto reclamando por companhia, já que nós éramos suas asas. Não atendido nos seus apelos, sem nos ver, apenas o som das vozes porque a sala é em L, desceu da gaiola e com aquele penacho empinado, piando alto veio até nós, cerca de 12 metros até escalar os ombros pelos nossos pés.
E como assoviava bem acordes do hino nacional, repetindo sempre que atendido, a palavra que aprendera: “gotosinho”, “gotoso”
Ele vai fazer falta, mesmo exigente como era. Ah, se vai.
Passarinhos são um passatempo de Deus...

Pois bem, o jornal “O Estado” do dia 21 de novembro, ilustrada com foto de quase meia página, trouxe a seguinte notícia, curta, em transcrição literal:
A notícia se encerra assim, desse modo lacônico. Que se saiba, não houve qualquer pesquisa para pelo menos “teorizar” o que fez as aves terem “esse tipo de comportamento”.
Os pássaros!
28/11/2010
DIAS AMARGOS
No domingo voltara a ver a minha cachorrinha preta, com doença grave, que a deixava prostrada e sofrendo. Por causa da doença, perdera aquele seu brilho nos olhos e agora me olhavam suplicantes.
Dizia para ela que sua doença era grave. Inteligente, ela parecia compreender mas contava comigo.
Exatamente naqueles dias em que o quadro da minha preta se agravara eu escrevera sobre São Francisco e os animais.
Que situação contraditória, que experiência essa eu não gostaria de ter!
Saio para umas andanças e vou visitar a muda de “pau-brasil” que plantara na área verde próxima daqui, que por muito cuidara. Outras árvores plantara há tempos que floresceram.

Um soco na cara.
Quem sabe ela ainda brote do que restou, renascendo e florescendo? Difícil!
Moralmente a nocaute liguei a muda arrebentada com o sofrimento de minha cadelinha.
Estivera por aqueles dias no veterinário.
Relatei a um outro “paciente” que levara seu cão para tratamento, o estado de minha cadelinha, tentando esconder a emoção;
- Ela já está comigo há 17 anos, e está muito doente!
O meu interlocutor simplesmente comentara:
- Não é possível tratar um cachorro como um ser humano, é preciso separar as coisas...
Algo assim, nesse sentido. Essa observação me fizera mal.
Mas, é claro que não poderia, a minha cachorrinha ser tratada como um ser humano. Ela não era humana, mas um animal angélico. Uma humilde vira-lata. Não exagero sob os efeitos da emoção, não!
Era ela que feliz ia à minha frente nos rumos do quintal do fundo certificando-se se eu a seguia; lá me fazia companhia, me observando sentado no banco que ali há, fuçando e se espojando no gramado. Foi nesse quintal que li, com ela por perto sempre, a maior parte do imenso “Guerra e Paz”, de Tolstoi.
Era para ela que recitava carinhos que os recebia sempre com gratidão;
Era ela que reclamava dos banhos sob a torneira nos dias quentes e ficava exultante após se sacudir toda;
Era ela incondicional com a família mas principalmente comigo.
Não, ela não poderia ser tratada como ser humano, porque são poucos os que agem desse modo incondicional com os semelhantes. São Francisco?
Ela se foi. A doença a consumia de um modo atroz. Não havia como suportar.
Ficou comigo a amargura do que me obriguei a fazer, uma experiência que me diminuiu, mas a sua doçura haverá de temperar esse desgosto.
Fotos:
1. Flores do pau-brasil
2. Preta e eu
21/11/2010
MEUS 40 ANOS
A vida começa aos 40 e a velhice na cabeça de cada um...

Sentia-me iluminado e inspirado. Um retorno ao passado saudoso fez-me rabiscar mais tarde (sim, rabiscar, primeiramente, porque computadores eram equipamentos de iniciados, e eu era sofrível datilógrafo), uma crônica publicada alhures, sobre aqueles momentos e o passado nem sempre vivido com a intensidade que seria desejável. Fora falta de aviso, com certeza. Algo assim:
- Viva intensamente esta década, a década de 60, porque ela será um marco de referências.
Mais poderia ter feito e vivido. Mas, eu desconhecia ou não sabia como construir esses momentos de felicidade. Talvez ela estivesse comigo todo o tempo mas apenas não explodiu como poderia.
Um momento inesquecível, hoje hilariante, constrangedor então, que quando dele me lembro me faz rir pelos cantos e pelas ruas, ocorreu a partir de uma aula de filosofia no colegial.
Dentro da minha irreverência, nas aulas de filosofia eu me tornara um aluno "inconveniente" para meu professor da matéria. Misturava conceitos de suas aulas, com rudimentos esotéricos que então começava a me iniciar, e a cada interrupção que fazia, mais ficava o mestre perplexo e confuso. Boquiaberto mesmo. Não, é claro, pelo meu brilhantismo, mas pelo que poderia se chamar de "samba do ‘filósofo’ doido".
Sendo um sujeito sensível, certamente que para conviver com minha "inconveniência", minhas notas sempre foram ótimas. Porque, sobretudo, penso eu, havia uma mútua simpatia e ele, para retribuir essa reciprocidade, me garantia notas excelentes em sua disciplina. Ou simplesmente para não me ver no ano seguinte, repetindo a sua matéria, tendo que me aguentar.
Mas, nessa disputa para mostrar conhecimento, ainda que desconexos, ocasionalmente ocorriam dissensões.
Havia na minha classe um sujeito metido a Ruy Barbosa, que assim pensava porque carregava, também, o sobrenome Barbosa.
Certa feita, desdenhara a classe toda, solicitando ao mesmo professor de filosofia que repetisse determinado conceito porque somente ele, por certo, o teria entendido.
Não fiz por menos:
- Falou o gênio Barbosa que não é o de Ruy.
Acabada a aula, com delicadeza ele chegara até mim, perguntando suavemente se aquela observação fora para ele. Respondi secamente:
- Se o capuz lhe serviu, use-o.
Traiçoeiramente, desferiu um belo soco no meu queixo. Meus óculos voaram pelo corredor. Senti todo o peso de sua mão fechada no meu maxilar. Chegou, é claro, a turma do "deixa disso e pôs as coisas no lugar".
A agressão não teve maiores consequências, somente imensa repercussão no colégio. Meus amigos faziam troça, olhando para meu queixo, procurando algum estrago "merecido". Um deles, gaiato, muitos anos depois, sempre que me encontrava fazia questão de relembrar a cena do soco, examinando meu queixo e fazendo troça dos meus óculos subindo alguns palmos no éter.
Repassando esse evento ali, na frente da sorveteria das Lojas Americanas, agora do alto dos meus 40 anos, na rua movimentada, mal consegui conter o riso.
Eis que minha atenção é despertada para um idoso com a Bíblia na mão. Associei a um amigo, muito religioso, desses que assumem a religião, com intensa fé, com desconcertante convicção.
Alguma vezes tentara me ensinar lições da Bíblia, mas essa tarefa nunca dera certo, porque tinha eu por hábito, como até hoje tenho, de fazer questionamentos "inconvenientes". Já me referi a isso em outros escritos que às vezes a Bíblia revela sua profundidade no silêncio da meditação.
Discutia muito com ele sobre religião. Em sua opinião, a China naqueles dias já pós Mao Tse Tung, uma potência nuclear que parecia olhar com desprezo o ocidente e seus "pecados" , seria a alavanca do apocalipse bíblico. Ao visualizar a China, então, eu a enxergava cinzenta, talvez porque a roupa padrão normalmente nessa tonalidade do chinês retransmitisse em minha mente essa cor como sendo do próprio país.
Eis que, num daqueles dias, o "Estadão" estampou manchete significativa, algo assim: "A China abre-se para o mundo".
Mostrei-lhe a manchete. Ele não se abalou e fez até um sinal de conformismo.
Naquele instante, com alívio, quem sabe, passara a adiar o apocalipse que "profetizara" iminente. (*)
Com essas lembranças, saí pelo calçadão, emocionando-me com o semblante humilde de algumas pessoas que passavam ao meu lado ou vinham em minha direção. É que as quarenta velinhas resplandeciam intensas na minha interioridade.
Só via beleza por todos os lados.
(*) Não é nestes Temas que faço observações de natureza política mas acho oportuno neste caso.
Anos depois da manchete do jornal, em 1989, viajando aos Estados Unidos já ocorrendo a invasão de bugigangas asiáticas, os carros japoneses se impondo com o binômio preço-segurança, fiz questão de trazer na bagagem algum objeto genuinamente americano.
Depois de muito procurar, encontrei um rádio-relógio GE, marca tradicional. Quando o tirei da caixa e o examinei com atenção lá estava: “made in Malásia”.
Mais tarde tive oportunidade de ouvir a preleção de uma comissão chinesa comandada por uma representante que falava relativamente bem o português. Estava, se bem me lembro, pesquisando meios de comercialização do etanol. Recusava-se em discutir o regime político chinês muito mais fechado, então. “Estamos aqui a negócios”.
Bem. Deu no que deu. A China invadiu o mundo com suas bugigangas a preços irrisórios e agora ataca com produtos de alta tecnologia. Se a China é apocalíptica o será pela emanação de gazes tóxicos na atmosfera, agravando o “efeito estufa”...juntamente com as outras grandes e médias potências.
Foto: Rua Coronel Oliveira Lima - Santo André - década de 90 (PMSA)
14/11/2010
07/11/2010
PENSAMENTO FORTE
Salvo na fábrica da Chrysler da cidade de Santo André (SP) há muitos anos extinta, talvez pelo meu modo de ver as coisas a despeito da minha atividade profissional sempre me considerei um anônimo no meio daqueles gerentes, supervisores e mesmo da peãozada toda.
Tinha um nome que até poderia soar forte na empresa, mas me sentia absolutamente desconhecido e desconhecia todas aquelas pessoas com as quais me relacionava no dia-a-dia
Vou dar um exemplo real da face2 usada dentro da empresa.
Eis que num fim-de-semana caminhando num lado qualquer do bairro, dou de cara com um gerente da empresa que se aplicava no jardim e numa horta de sua casa com a mão mergulhada na terra e no esterco, manejando enxada e regador.
Na segunda-feira, assim que eu o encontrei na fábrica, fiz provocação amistosa:
- Poxa, no sábado você foi aprovado como jardineiro, hem!
Resposta inesperada e constrangida:
- Não conte isso para ninguém.
Fiquei perplexo. Na fábrica ele usava a face2. Não me dera conta disso até então...
Ao longo desses anos todos, exigente comigo mesmo e com os meus pares, comecei a entrar num terrível processo de tédio, assistindo reuniões horríveis, aguentando colegas com alto grau técnico e zero – que eu conhecesse ou que se deixassem conhecer – em atitude humana, de interioridade, de subjetividade.
Numa multinacional para a qual trabalhara, certo dia surgira novo presidente um americano alto, loiro, cabelos mais para o grisalho, rosto magro e avermelhado, nariz empinado. Viera para proceder à reestruturação da empresa.
Iria “cortar na carne”, anunciava a “rádio peão”.
Criou-se um clima de expectativa e terror. Esse sujeito se impunha pela truculência verbal, expressando-se num português razoável.
Já pouco afinado por tudo isso que acima relatei e adquirindo antipatia incontornável por esse gringo, por várias vezes disse alto e pensei:
- O melhor para mim seria a demissão acrescida do pacote especial e tomar outro rumo na vida.
Porém, num processo contraditório, pus-me a ler, imaginando uma melhoria com a reestruturação que se desenhava e também por curiosidade, um livro não comercial de autoconhecimento e uso das “forças mentais”.
Na reunião decisiva da reestruturação, a despeito de toda minha dedicação, assim imaginava, fui preterido, sendo demitido.
Dera-se, sobretudo, um choque de desejos entre aquilo que passara a ler no livro citado e aquele pensamento forte anterior como o ideal (demissão).
Pelo que soube mais tarde, alguns daqueles gerentes a quem dera apoio, sempre, haviam também votado pela minha demissão.
Passado aquele momento amargo, inédito, porque nunca tivera tal experiência, refleti muito.
Na verdade, eu pedira mentalmente aquele desfecho.
Ademais, pelo meu tédio, rejeitando mentalmente dirigentes, julgando-os ignorantes devo ter alimentado por meses e meses, muitos inimigos não declarados resultado do rebate negativo do que eu pensava fortemente sobre eles.
O dia seguinte, sábado, fora um dia doloroso. Jamais imaginara que depois de tantos anos dedicados às empresas viveria essa experiência. Imaginava ser “imortal” nelas. Bobagem. E que bobagem.
Fora um pesadelo. Muitos se sucederam em estado de semivigília. Via-me chegando à empresa pela manhã, rumava para minha sala, não a encontrava ou havia alguém estranho sem rosto no meu lugar. Caminhava, então, pela fábrica como um fantasma, via sem ser visto, renovando a angústia da demissão ao acordar.
Soubera após administrar centenas de demissões nas várias multinacionais para as quais trabalhara os efeitos danosos que produziam nos demitidos.
Lembrara-me da angústia dos empregados humildes, que tentavam de todas as formas garantir seu emprego, implorando por uma transferência para outra seção ou para a matriz em outra cidade. E meu constrangimento em processar demissões de colegas próximos com quem compartilhara com lealdade êxitos e fracassos, por anos a fio.
- Recebera minha paga, pensara. Sentira o amargo do fel.
Nos dias que antecederam à minha saída definitiva da empresa, ex-subordinados bajuladores ou não, colegas do dia-a-dia, passaram a ignorar-me – da mesma forma como se daria nos sonhos -, como se receassem o contágio duma doença incurável. Mas, a despeito disso, sempre cuidara para que diante de mim próprio não fizesse o papel canastrão, de vítima. Quais lições tirei desse evento real?
i.) Que o pensamento é uma força que precisa ser cuidada. Há então se esforçar muito para superar, em relação ao seu antagonista, sentimentos de raiva, de intolerância e de dúvida. Haverá, pois, que mentalmente mudar o modo de pensar em relação a ele e transmitir pensamentos positivos de tolerância recíproca para que ele também mude o modo de agir. Esse exercício funciona.
(Não estou nem de longe tentando passar lições de autoajuda com o meu relato. Se tem algo que receio é ser ou parecer ridículo).
Já emiti pensamentos que não direi quais – porque são só meus – que vi repetidos a mim por pessoas próximas, para minha surpresa;

(Reconheço que há eventos que fogem dessa fórmula básica, provenientes, acredito, de outras causas pendentes na vida. Mas, esse é um outro tema).
De tudo isso que relatei, conclui por fim que há profissionais que nasceram para ser executivos e, menos que críticas, há que se esforçar para entendê-los.
E quanto a mim com a experiência relatada de perdas e ganhos: mais ganhei do que perdi.
Sabem por quê?
Porque para mim “tudo está ótimo!”
Imagem: He-Man, “Eu tenho a força” (Google)
31/10/2010
A HISTÓRIA DE UMA EDIÇÃO. Errinhos que humilham
Desde sempre fui assinante do jornal “O Estado de São Paulo”.
Um dia, já faz tanto tempo, escrevi um artigo de natureza jurídica (“O artigo 581 da CLT”). Eu o achei bom e remeti para o citado jornal.
Umas duas semanas depois, quase tive um desmaio ao vê-lo publicado na página que então havia de artigos jurídicos, ao lado de outros juristas. Salvo engano os temas trabalhistas nessa página eram coordenados pelo saudoso ministro Rezende Puech (do TST).
Alucinado, depois de algumas semanas, remeti outro, também publicado. A “glória” meus amigos.
Naquele primeiro artigo fiz críticas ao posicionamento da prestigiosa Editora LTr a respeito daquele dispositivo numa das suas edições da CLT. A Editora respondeu explicando os seus motivos em boletim próprio.
A partir daí, a aproximação com a Editora fora um passo. Escrevi diversos artigos em seus boletins e mesmo na Revista LTr, na qual só cabiam juristas da área trabalhistas.
Meus artigos lidos hoje, por mim? Modestos!
O principal dono da Editora, Dr. Armando Casimiro Costa, pode ter ido com a minha cara, tanto que me convidou, num dos congressos patrocinados por ela, Editora, para palestrante numa das seções.
Não muitos anos depois, elaborei um programa de treinamento de relações trabalhistas e sindicais para uma multinacional trazendo toda a minha experiência do ABC.
Submeti esse programa à Editora LTr. Foi ela reticente em aceitar a publicação o que determinaria, por mim, o abandono da ideia.
Depois de um cartão de Natal normal que remeti, ele me respondeu solicitando que eu remetesse novamente os originais.
E assim surgiu a primeira edição do meu “Sindicalismo e Relações Trabalhistas”.
A segunda edição não demoraria porque o livro fora adotado por uma amigo meu, Edmir de Freitas Garcez nos seus cursos “Negociando com negociadores”.
A terceira edição foi muito melhorada mas a editora não cuidou bem da revisão, o que me obrigou a responder críticas vindas até da Bahia.
Finalmente, a quarta-edição, que poderia ser a minha contribuição “profissional” para o tema, foi escrita às pressas a despeito do volume imenso de informações que me obrigara a compulsar, saiu com falhas minhas.
Quando isso acontece e você vê os errinhos com o “dedo em riste” apontando em sua direção, impossíveis de serem corrigidos, tudo fica meio deslustrado. Imperdoável, porque toda a edição poderia ser muito melhor.
“Aconselho”, pois, a todos os escritores, às voltas com a edição de seu livro, que deem o máximo e o revisem tantas vezes quantas necessárias. Insiram e completem. Nada de preguiça.

Aonde foi parar toda essa gana de jurista? Já disse alhures que, no fundo no fundo, com suas exigências e metas a alcançar, a empresa de certo modo enterra o talento que se desvia para ela e por conta do salário no fim do mês.
Tudo isso se passou num estalo de dedo. As ilusões.
Errinhos que humilham
A propósito do tema, escrevi alhures uma crônica que transcrevo em parte. Assim,
Esse título não é meu. É do saudoso escritor mineiro Otto Lara Rezende que, numa crônica no jornal “Folha de São Paulo” de 18.01.1992 o utilizou no singular.
Mas, eu já vou logo grafando no plural, “errinhos que humilham”.
Inicia o cronista se queixando de erros de revisão que se davam, eventualmente, nos seus escritos, lembrando que “quando surgiu o computador na imprensa, pensei que vinha para acabar com essa gralha. Qual o quê. Sofisticou-a”.
Com o computador, dizia o escritor, não seria mais possível atribuir a revisor os erros do autor.
E nestes dias, então, com o notório avanço tecnológico e da comunicação? Não sei, não. Há “mistérios insondáveis” nos errinhos que humilham.
Com computador e tudo, ao longo do tempo, já me deparei com empastelamento em textos que escrevi, corte da conclusão, a essência do texto, para caber no espaço do veículo e até mexidas insuportáveis de quem entendera pouco do que nele se debatia.
Como explicar um erro tal num título de artigo no qual “queremismo” foi grafado como “quirimismo”? Ou a expressão “ato contínuo” com o sentido claro que contém e que foi impresso como “um ato contínuo”, significando que a inclusão do numeral “um” estreitou sua abrangência?
Para aqueles que se propõem a escrever publicamente o português é um desafio permanente, porque muitas vezes se sabe que a regra “é assim” mas não “o porquê de ser assim”.
Outro ponto lembrado por Otto são os erros do próprio cronista que insere um dado equivocado, uma desinformação, na crônica. Sem volta porque a eventual correção posteriormente é inócua ou com efeito limitado. E dizia: “Qual! Fica o travo da pequenina humilhação que me convida à humildade.”
Saibam todos, pois, que o cronista se depara com erros ortográficos dele próprio e, pior – afaste de mim esse cálice – erros de concordância. E isso mesmo tendo lido o que escrevera várias vezes.
Saibam mais os leitores que o cronista em cada crônica enfrenta esses vilões e escorregões. Ele cria, escreve e...erra. Um “sofredor”. E muitas vezes paga por erros que não são seus.
Imagem: O coelho de “Alice no país das maravilhas”. É tarde, é tarde! O tempo passou, mas sempre é tempo.
24/10/2010
REGRESSÃO (II): Primeira Comunhão
Tinha por hábito atravessar o rio pela ponte de madeira a poucos metros, nos tempos secos e rumar para a casa de um amigo da família que morava morro acima. Um braço de rua à esquerda que terminava numa valeta na qual corria água fétida que desaguava no rio. Quando chovia, transbordava, trazendo todo tipo de objetos varridos das casas ribeirinhas.
Nessa rua, casas humildes, água de poço, muita precariedade mas não percebia amarguras, queixas da vida...
Em muitos domingos recebi balas dos filhos do proprietário de muitas daquelas casas simples que ia receber os aluguéis. Muitas vezes seu carrão não conseguia entrar rua abaixo nos dias de chuva, pelo barro que se formava.

Havia na beira das cercas pés de dálias que cresciam mais de um metro, dando flores enormes.

Giestas viçosas, suas florezinhas amarelas brilhavam ao sol naqueles tempos em que não se falava de poluição. Hoje são raras.
Até hoje procuro por violetas miúdas, que proliferavam cujas flores exalavam, se bem me lembro, leve perfume. Perto da valeta, um pé de “copo de leite” com flores imaculadas o ano todo resistiam a todas as agressões dos moleques e das enchentes.
Muitas tardes ia para essa rua, encontrar a molecada amiga. Ficava um pouco mais até a noitinha quando havia a reza do terço, cada mês numa casa diferente.
Ria muito daquilo tudo e, ansioso, esperava o fim da reza, ao amém, para participar dos refrigerantes que não faltavam nessa hora ou de licorzinho leve de anis ou hortelã.
No último dia de aula daquele ano chovera muito. Fiquei à espreita agarrado no pé de amora, vendo a água se aproximar alegando tudo por ali. Ela chegou mais uma vez perto da cerca do meu quintal, mas não passou dali, como nunca passara.
Saí às pressas para a aula, seria a despedida da professora.
Pela surpresa, aquele dia fora importante. Passara o ano inteiro sem uma falta sequer recebendo da professora, elogios, um livro de presente, lembrança desse feito inédito. Palmas.
Dois dias depois, num domingo, minha mãe falou da primeira comunhão, menos que um ato de fé, um costume que não poderia ser abandonado. Meu pai não interferira porque não se aproximava da Igreja. Meu tio era crítico cáustico da religião. Vez por outra ele chegava até nossa casa, com um caminhão tanque enorme de “querosene jacaré”, com maços enormes de dinheiro à vista de todos.

Interessei-me pela 1ª comunhão até porque não havia outro meio, então. Algum tempo depois comecei a frequentar o catecismo na denominada matriz velha da cidade.
Quando se aproximava a data, a beata que conduzia as aulas constatou que eu não decorara o “Credo” e “Salve rainha” Me ameaçou de ficar fora da comunhão.
Lá fui, então, decorar essas orações e reforçar outras.
O dia da comunhão chegou, um domingo que marcou porque minha mãe fez uns bolos, uns doces uns sanduíches e guaranás.
Se disser que não me senti um pouco acima do chão, depois da comunhão, estarei mentindo.
A partir dali voltei-me religiosamente para a missa dominical e me engajei entre os “congregados marianos” identificados com a fita amarela, passando pelo pescoço e ombros. Ficavam próximos da sacristia acompanhando a missa de perto. Eu recebi uma fita azul – que significava, que me lembre, a condição de aspirante.
Nunca perguntei o que significava aquele grupo dos “congregados marianos”.
Sempre que havia tempo, à tarde, ia para a igreja sabendo-a vazia, na certeza de encontrar linda menina que me fizera perder na paixão, aquele enlevo que só nessa idade se sente.
Ela, porém, tinha nome tradicional na cidade e seus pais estavam muito bem de vida. Esse enlevo perdurou por algum tempo mas havia esses obstáculos, o da pouca idade e diferença social, situação importante naqueles tempos, na cidade.
Esta tão ingênua poesia, remonta àqueles tempos. Vacilo hoje em lembrá-la exatamente pela sua ingenuidade mas me encorajo, imaginando que ela possa explicar esse “encanto” e minhas motivações que não se perderam neste meu mundo de hoje que nele batalho em algumas frentes sem esmorecer e a tudo agradecer!:
Menina
Morena
da cidade
das flores,
alegre
tão meiga
sincera.
Eleva
enleva
encanta
se fala
se olha
se chora
se ri.
Do rosto
lmpidos
olhos
estampam
pureza
sublime
beleza.
Ah! menina
morena
és dona
de tudo
da Natureza
do mundo
e mesmo
de mim...
Um belo dia, não sei explicar bem, esse estado religioso foi abandonado de modo abrupto. Não sei se pelo amadurecimento quando novas informações chegam, o ginasial e os novos amigos, questionamentos de toda ordem, a maturidade sexual que se faz presente...e nessa época converti-me num péssimo aluno. Mas, nada que não recorde tudo com carinho.
Mais tarde, por razões que já revelei, enveredei pelo rosacrucianismo, ocultismo e até rudimentos do espiritismo.
Volto um dia a este assunto, embora já tenha me referido a ele em outras crônicas neste espaço.
Fotos:
Dália
Flor de giesta
Igreja: Matriz "velha" de São Caetano do Sul